CAPÍTULO 119

Em certa ocasião, o bem-aventurado Francisco permanecia na eremitério de Grécio. E como permanecia em oração de dia e de noite na última cela depois da cela maior, certa noite, no primeiro sono, chamou seu companheiro, que estava deitado perto dela, na cela maior e antiga. O companheiro levantou-se imediatamente e foi ter com ele. Entrou no átrio daquela cela, perto da porta, onde o bem-aventurado Francisco estava deitado, lá dentro.

E o bem-aventurado Francisco lhe disse: “Irmão, não pude dormir esta noite, nem ficar direito para a oração; pois minha cabeça e minhas pernas tremem e até parece que comi pão de joio”. O companheiro conversava com ele sobre isso, compadecendo-se. E o bem-aventurado Francisco disse: “Acho que o diabo estava neste travesseiro em que tenho a cabeça”. Pois o senhor João de Grécio, que o santo amava com muito afeto e a quem demonstrou muita familiaridade durante todo o tempo de sua vida, tinha adquirido no outro dia aquele travesseiro, que estava cheio de penas.

Pois, desde quando saíra do século, o bem-aventurado Francisco não quis dormir em colchão nem ter à cabeça um travesseiro de penas nem quando estava doente e nem em nenhuma outra ocasião; mas naquela hora os frades o obrigaram contra sua vontade, por causa de sua grande enfermidade dos olhos. Jogou-o para o seu companheiro. Seu companheiro levantou-se, pegou-o com a mão direita e o jogou sobre seu ombro esquerdo e, segurando-o com a mão direita, saiu daquele átrio. E perdeu a fala na mesma hora, e não podia mover-se do lugar nem mexer com os braços e as mãos, nem largar o travesseiro, mas lá ficou parado. Parecia-lhe que ra um homem colocado fora de si, que não sente nada nem em si nem nos outros. Tendo ficado assim por uma hora, eis que pela misericórdia divina o bem-aventurado Francisco o chamou. Voltou a si na mesma hora, foi e jogou fora o travesseiro. E voltou a bem-aventurado Francisco, contando tudo que lhe tinha acontecido.

O bem-aventurado Francisco disse: “À tarde, quando eu estava rezando Completas, senti quando o diabo entrou na cela”. Mas depois que soube que fora na verdade o diabo que o impedira, não o deixando dormir nem ficar em pé para a oração, começou a dizer a seu companheiro: “O diabo é espero e astuto demais: pois como, pela misericórdia de Deus e por sua graça não pode me fazer mal na alma, quer impedir a necessidade do corpo, para que eu não possa dormir nem ficar em pé para a oração, para impedir a devoção e a alegria do coração, e para que eu reclame da doença”.

Pois, apesar de ter tido por muitos anos a maior doença do estômago, do baço e do fígado, e a enfermidade dos olhos, era tão devoto e rezava com tanta reverência, que na hora da oração não queria encostar-se ao muro ou à parede, mas ficava semprsem capuz na cabeça e algumas vezes de joelhos, principalmente quando se entregava à oração na maior parte do dia e da noite. Até mais: quando ia a pé pelo mundo, sempre parava de andar para rezar suas horas; mas se estivesse cavalgando, porque sempre estava meio doente, desmontava para dizer suas horas.