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Em certa ocasião, o bem-aventurado Francisco permanecia na
eremitério de Grécio. E como permanecia em oração de dia e de
noite na última cela depois da cela maior, certa noite, no primeiro
sono, chamou seu companheiro, que estava deitado perto dela, na cela
maior e antiga. O companheiro levantou-se imediatamente e foi ter com
ele. Entrou no átrio daquela cela, perto da porta, onde o
bem-aventurado Francisco estava deitado, lá dentro.
E o bem-aventurado Francisco lhe disse: “Irmão, não pude dormir
esta noite, nem ficar direito para a oração; pois minha cabeça e
minhas pernas tremem e até parece que comi pão de joio”. O
companheiro conversava com ele sobre isso, compadecendo-se. E o
bem-aventurado Francisco disse: “Acho que o diabo estava neste
travesseiro em que tenho a cabeça”. Pois o senhor João de
Grécio, que o santo amava com muito afeto e a quem demonstrou muita
familiaridade durante todo o tempo de sua vida, tinha adquirido no
outro dia aquele travesseiro, que estava cheio de penas.
Pois, desde quando saíra do século, o bem-aventurado Francisco
não quis dormir em colchão nem ter à cabeça um travesseiro de penas
nem quando estava doente e nem em nenhuma outra ocasião; mas naquela
hora os frades o obrigaram contra sua vontade, por causa de sua grande
enfermidade dos olhos. Jogou-o para o seu companheiro. Seu
companheiro levantou-se, pegou-o com a mão direita e o jogou sobre
seu ombro esquerdo e, segurando-o com a mão direita, saiu daquele
átrio. E perdeu a fala na mesma hora, e não podia mover-se do
lugar nem mexer com os braços e as mãos, nem largar o travesseiro,
mas lá ficou parado. Parecia-lhe que ra um homem colocado fora de
si, que não sente nada nem em si nem nos outros. Tendo ficado assim
por uma hora, eis que pela misericórdia divina o bem-aventurado
Francisco o chamou. Voltou a si na mesma hora, foi e jogou fora o
travesseiro. E voltou a bem-aventurado Francisco, contando tudo que
lhe tinha acontecido.
O bem-aventurado Francisco disse: “À tarde, quando eu estava
rezando Completas, senti quando o diabo entrou na cela”. Mas depois
que soube que fora na verdade o diabo que o impedira, não o deixando
dormir nem ficar em pé para a oração, começou a dizer a seu
companheiro: “O diabo é espero e astuto demais: pois como, pela
misericórdia de Deus e por sua graça não pode me fazer mal na alma,
quer impedir a necessidade do corpo, para que eu não possa dormir nem
ficar em pé para a oração, para impedir a devoção e a alegria do
coração, e para que eu reclame da doença”.
Pois, apesar de ter tido por muitos anos a maior doença do
estômago, do baço e do fígado, e a enfermidade dos olhos, era tão
devoto e rezava com tanta reverência, que na hora da oração não
queria encostar-se ao muro ou à parede, mas ficava semprsem capuz na
cabeça e algumas vezes de joelhos, principalmente quando se entregava
à oração na maior parte do dia e da noite. Até mais: quando ia a
pé pelo mundo, sempre parava de andar para rezar suas horas; mas se
estivesse cavalgando, porque sempre estava meio doente, desmontava
para dizer suas horas.
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