CAPÍTULO 12

No dia em que dona Jacoba preparou aquele prato, o bem-aventurado Francisco recordou-se como um pai de Frei Bernardo, dizendo: “Este prato é bom para Frei Bernardo”. Chamando um de seus companheiros, disse: “Vá dizer a Frei Bernardo para vir logo aqui”.

O frade foi imediatamente e o levou ao bem-aventurado Francisco. Sentando-se na cama em que estava deitado o bem-aventurado Francisco, Frei Bernardo disse: “Pai, peço que me abençoes e me mostres o teu afeto, porque se me mostrares carinho por paternal afeto, creio que o próprio Deus e os outros frades da Religião vão me amar mais”.

O bem-aventurado Francisco não podia enxergá-lo, porque já fazia muitos dias que tinha perdido a luz dos olhos; mas, estendendo a mão direita, colocou-a sobre a cabeça (cfr. Gn 48,14) de Frei Egídio, que foi o tercero dos primeiros frades e estava sentado perto de Frei Bernardo, achando que a estava colocando sobre a cabeça de Frei Bernardo, e tocando a cabeça de Frei Egídio, como um cego, logo percebeu pelo Espírito Santo, dizendo: “Esta não é a cabeça de meu Frei Bernardo”.

Frei Bernardo logo foi para mais perto dele. O bem-aventurado Francisco, pondo a mão sobre sua cabeça, abençoou-o. Além disso, disse a um de seus companheiros: “Escreve, como te digo: O primeiro frade que o Senhor me deu foi Frei Bernardo, e também o primeiro que começou e terminou perfeitíssimamente a perfeição do santo Evangelho, distribuindo todos os seus bens para os pobres; por isso, e por muitas outras prerrogativas, tenho que amá-lo mais do que qualquer outro frade da Religião. Então, quero e mando, quanto posso, que quem quer que for o ministro geral o honre e ame como a mim mesmo, e que também os ministros provinciais e os frades de toda a Religião o tenham como se fosse eu”. Frei Bernardo ficou muito consolado com isso, e os frades que o viram.

Pois certa vez, considerando o bem-aventurado Francisco a enorme perfeição de Frei Bernardo, profetizou sobre ele diante de alguns frades, dizendo: “Eu vos digo que a Frei Bernardo, para prová-lo, foram dados alguns dos demônios maiores e mais espertos, que vão atacá-lo com muitas tribulações e tentações, mas o Senhor misericordioso, perto do seu fim, vai livrá-lo de toda tribulação e tentação interior e exterior, e vai colocar seu espírito e seu corpo em tão grande paz, sossego e consolação que todos os frades, que virem e ouvirem, vão ficar muito admirados com isso e vão achar que é um grande milagre; e nessa paz, sossego e consolação interior e exterior, vai passar deste século para o Senhor”.

Os frades que ouviram isso do bem-aventurado Francisco ficaram muito admirados, porque foi verdade à letra, ponto por ponto, o que predissera sobre ele pelo Espírito Santo. Pois Frei Bernardo, na doença da morte, estava em tamanha paz e sossego do espírito que não queria ficar deitado; e, se ficava deitado, ficava meio sentado, para que nem a menor fumaça dos humores, subindo à sua cabeça levassem-no à imaginação e ao sonho a não ser ao que dizia respeito ao que pensava de Deus; E se isso acontecia alguma vez, levantava-se na mesma hora e se sacudia dizendo: “Que foi isso? Por que pensei assim?”. Até quando levava de boa vontade água de rosas ao nariz para seu conforto, quando chegou mais perto da morte, não queria pôr por causa da contínua meditação de Deus. Por isso, dizia quem a oferecia: “Não me atrapalhes”.

E para isso, para que pudesse morrer mais livre, pacificamente em em sossego, desapropriou-se dos ofícios do corpo nas mãos de um frade, que era médico e o ajudava, dizendo: “Não quero ter nenhuma preocupação de comer ou beber, mas deixo por tua conta; se me deres, receberei; se não, não”. Mas desde que começou a ficar doente quis sempre ter junto de si um frade sacerdote até a hora da morte. E quando lhe vinha alguma coisa à mente, de que a consciência o repreendesse, logo se confessava e dizia a sua culpa.

Depois da morte ficou claro, com a carne mole, e parecia estar rindo; por isso parecia que estava mais bonito depois da morte do que antes; e os que olhavam para ele gostavam mais de vê-lo do que quando estava vivo, porque parecia um santo sorrindo.