CAPÍTULO 13

Naquela semana em que o bem-aventurado Franciscou migrou, dona Clara, primeira muda da Ordem das Irmãs, abadessa das irmãs pobres do mosteiro de São Damião de Assis, emuladora de São Francisco para observar sempre a pobreza do Filho de Deus, como estava então muito doente e temia morrer antes do bem-aventurado Francisco, chorava amargamente e não podia ser consolada, porque não podia ver antes de sua morte o seu único pai depois de Deus, isto é, o bem-aventurado Francisco, consolador de sua vida interior e exterior e também seu primeiro fundador na graça de Deus.

E fez o bem-aventurado Francisco saber disso por um frade. Ouvindo isso, o bem-aventurado Francisco, como amava a ela e a suas irmãs com afeto paternal por causa de seu santo comportamento, movido pela piedade, principalmente porque ela foi convertida para o Senhor por seus conselhos poucos anos depois que tinha começado a ter irmãos, pela cooperação do Senhor; e sua conversão foi de grande edificação não só para a Religião dos frades mas para toda a Igreja de Deus.

Mas o bem-aventurado Francisco, considerando que o que ela desejava, isto é, vê-lo, então não era possível, porque os dois estavam gravemente enfermos, para consolá-la escreveu-lhe a sua bênção por uma carta, e também absolveu-a de todo defeito, se tivesse algum, em suas ordens e vontades como também nas ordens e vontades de Deus. Além disso, para que deixasse toda tristeza e fosse consolada no Senhor, não ele mas o Espírito de Deus falou nele estas palavras, dizendo ao mesmo frade que ela enviara: “Vá e leve esta carta para dona Clara, e lhe dirás que deixe toda dor e tristeza, porque agora não pode me ver; mas sabia em verdade que, antes de sua morte, tanto ela como suas irmãs me verão e terão a maior consolação”.

Mas aconteceu que, como pouco depois o bem-aventurado Francisco migrou de noite, quando chegou a manhã todo o povo de homens e mulheres da cidade de Assis, com todo o clero, tomando o santo corpo do lugar onde tinha morrido, com hinos de louvor pegaram todos ramos de árvores por vontade do Senhor para levá-lo a São Damião, para que se cumprisse a palavra que o Senhor tinha dito em seu santo para consolar suas filhas e servas.

Removendo a grade de ferro da janela pela qual as servas de Cristo costumam comungar e ouvir às vezes a palavra de Deus, os frades tiraram o santo corpo da maca e o seguraram em seus braços junto da janela por uma boa hora, até que dona Clara e suas irmãs tiveram dele a maior consolação, mesmo estando cheias de muitas lágrimas e aflitas de dores, porque depois de Deus ele era sua única consolação neste século.