|
Perto do fim de sua vocação para o Senhor, disse-lhe um frade:
“Pai, tu vais passar, e a família que te seguiu vai ser deixada no
vale das lágrimas. Indica alguém, se o conheceres na Ordem, em
quem teu espírito repouse, a quem se possa impor com segurança a
carga do ministério geral”. São Francisco respondeu, vestindo
todas as palavras com suspiros: “Filho, não vejo um comandante para
um exército tão variado, nenhum pastor para tão amplo rebanho. Mas
quero descrever para vós um em que reluza como deva ser o pai desta
família”. “Deve ser um homem, disse, de vida gravíssima, de
grande discrição, de fama louvável. Um homem que não tenha
amizades particulares, para não causar escândalo no todo enquanto
gosta mais de uma parte. Um homem que seja amigo do esforço da santa
oração, que reserve certas horas para a alma e outras para o rebanho
que lhe foi confiado. Pois logo cedinho deve começar com os
sacramentos da missa e, numa longa oração, encomendar a si mesmo e o
rebanho à proteção divina. Mas depois da oração ponha-se em
público para ser depilado por todos, para responder a todos, para
prover a todos com mansidão. Um homem que, por acepção de
pessoas, não tenha um ângulo sórdido, diante de quem não valha
menos o cuidado dos menores e dos simples que o dos sábios e maiores.
Um homem a que, se lhe tiver sido dado o dom de se destacar pelo dom
da literatura, carregue ainda mais em seus costumes a imagem da piedosa
simplicidade, e fomente a virtude. Um homem que execre o dinheiro,
principal corrupção da nossa profissão e perfeição, e que, como
cabeça de nossa religião, apresentando-se aos outros para ser
imitado, jamais abuse de pecúlio algum”.
|
|