CAPÍTULO 49

Encontraram-se em Roma com o bispo de Óstia, que depois foi papa, os preclaros luminares do mundo, São Francisco e São Domingos. Depois de terem conversado coisas muito agradáveis a respeito de Deus, disse-lhes o bispo: -- “Na Igreja primitiva os pastores eram homens pobres, fervorosos de caridade e não de cobiça. Por que não fazemos de seus frades bispos e prelados, para liderarem os outros pela doutrina e pelo exemplo? Surgiu, então, entre os dois santos, uma porfia, não para passar na frente mas para estimular e até obrigar a responder. Na verdade, cada um queria ser o primeiro na devoção ao outro. Finalmente a humildade venceu Francisco para que não se pusesse à frente, e também venceu Domingos, para que, respondendo primeiro, obedecesse humildemente. Domingos respondeu ao bispo: -- “Senhor, meus frades já foram promovidos a um bom grau, se o souberem reconhecer, e, se depender de mim, não permitirei que assumam outro tipo de dignidade”. Depois que ele fez esse breve discurso, o bem-aventurado Francisco se inclinou diante do bispo e disse: -- “Senhor, meus frades são chamados de menores para que não presumam ser maiores”. Sua vocação ensina-os a ficar no chão e a seguir os vestígios da humildade de Cristo, de modo que, afinal, na recompensa dos santos, sejam mais exaltados do que os outros. Se queres que produzam fruto na Igreja, mantém-nos e conserva-os no estado de sua vocação, e faze-os voltar ao chão mesmo que não queiram. E não permitas de maneira alguma que subam a uma prelatura”. Essa foi a resposta dos bem-aventurados. No fim das respostas, muito edificado com as palavras dos dois, o senhor de Óstia deu muitas graças a Deus. Quando saíram de lá, o bem-aventurado Domingos pediu a São Francisco que se dignasse dar-lhe a corda com que se cingia. O bem-aventurado Francisco custou para fazer isso, com tanta humildade quanta era a caridade com que o outro lhe pedia. Mas a devoção do feliz pedinte venceu, e ele a cingiu com muita devoção sob a túnica inferior. No fim deram-se as mãos e fizeram mútuas recomendações com muito carinho. Disse um santo ao outro: -- “Gostaria, Frei Francisco, que a tua e a minha religião fossem uma só e vivessem de forma semelhante na Igreja”. Quando foram embora para casa, o bem-aventurado Domingos disse muitos que estavam presentes: -- “Na verdade vos digo que os outros religiosos deveriam seguir o santo varão Francisco, tanta é a perfeição de sua santidade”.