CAPÍTULO 50

Em certa ocasião, no começo, isto é quando o bem-aventurado Francisco começou a ter irmãos, permanecia com eles em Rivotorto. Uma noite, lá pela metade, quando todos estavam descansando em suas enxergas, um dos frades exclamou dizendo: “Estou morrendo, estou morrendo!”. Assustados e atemorizados, todos ao frades acordaram.

Levantando-se, o bem-aventurado Francisco disse: “Levantai-vos, irmãos, e acendei a luz”. Quando se acendeu a luz, o bem-aventurado Francisco disse: -- “Quem foi que disse: “Estou morrendo”. Aquele frade respondeu: “Sou eu”. E o bem-aventurado Francisco lhe disse: -- “O que tens, irmão? Como estás morrendo?”. E ele: “Estou morrendo de fome”. O bem-aventurado Francisco, homem cheio de caridade e discrição, para que aquele frade não ficasse com vergonha de comer sozinho, mandou logo pôr a mesa e todos comeram juntos com ele. Pois ele e outros tinham sido convertidos havia pouco tempo para o Senhor, e afligiam demais os seus corpos.

Depois da refeição, o bem-aventurado Francisco disse aos outros frades: “Irmãos meus, assim vos digo que cada um leve em conta sua natureza; porque, ainda que algum de vós possa sustentar-se com menos comida que outro, não quero que o que necessita de mais comida tente imitá-lo nisso; mas considerando sua natureza, dê a seu corpo o que lhe é necessário. Pois assim como temos que evitar o exagero no comer, que faz mal ao corpo e à alma, , assim temos que evitar a abstinência demasiada, tanto mais que o Senhor quer a misericórdia e não o sacrifício”.

E disse: “Queridos irmãos, isso que eu fiz, isto é que por caridade com nosso irmãos comemos com ele, para que não ficasse com vergonha de comer sozinho, fui obrigado a fazê-lo pela grande necessidade e a caridade. Mas eu vos digo que, nas outras coisas, não quero fazer assim, porque não seria religioso nem honesto. Mas quero e vos ordeno que cada um, segundo nossa pobreza satisfaça ao seu corpo, como for necessário”.

Pois os primeiros frades, e outros que vieram depois deles durante muito tempo, afligiam seus corpos não só com uma excessiva abstinência na comida e bebida, mas também em vigílias, frio e trabalho de suas mãos. Para isso levavam sobre a carne cinturões de ferro e as cotas de malha que podiam ter e fortíssimos cilícios, como também o mais que podiam ter. Por isso o santo pai, achando que os frades podiam ficar doentes por causa disso, e alguns já tinham adoecido em pouco tempo, proibiu em um capítulo que algum frade usasse por baixo, junto da carne, a não ser a túnica.

Nós, porém, que estivemos com ele, damos testemunho de que, embora fosse discreto com os frades desde o tempo em que começou a receber irmãos e também durante todo o tempo de sua vida, procurou entretanto que se guardassem sempre, que em questão de comidas e de coisas, a pobreza e a honestidade requeridas por nossa Religião e que eram usadas pelos frades antigos. Mas ele mesmo, ainda antes de ter irmãos, desde o começo de sua conversão e durante todo o tempo de sua vida, foi austero com o seu corpo, apesar de ter sido um homem frágil em sua juventude e de natureza fraca, e no século não podia viver a não ser delicadamente.

Certa ocasião, achando que os frades já tinham exagerado o modo da pobreza e da honestidade na comida e nas coisas, numa pregação que fez, disse a todos os frades, dirigindo-se pessoalmente a alguns deles: “Será que os frades não acreditam que meu corpo precisa de comidas especiais? Mas como convém que eu seja a forma e o exemplo de todos os frades, quero usar e ficar contente com comidas e coisas pobrezinhas, não delicadas”.