CAPÍTULO 55

Certo frade era um homem espiritual, antigo na Religião e foi familiar do bem-aventurado Francisco. Mas aconteceu que, em certo tempo, sofreu por muitos dias de gravíssimas e muito cruéis sugestões do diabo, de modo que quase foi levado, na ocasião, ao mais profundo desespero, e era tão atormentado todos os dias que ficava com vergonha de se confessar todas as vezes. Por isso, afligia-se demais com abstinência, vigílias, lágrimas e disciplinas. Estando atribulado todos os dias, e por muitos dias, eis que pela graça de Deus veio ao lugar o bem-aventurado Francisco. E como certo dia, não muito longe daquele lugar, o bem-aventurado Francisco estivesse andando com um frade e com ele, que estava tão atribulado, o bem-aventurado Francisco se afastou um pouco do outro frade e se juntou ao que estava sendo assim tentado, e lhe disse: “Querido irmão, quero e te digo que de agora em diante não tenhas mais que confessar a ninguém as tentações e investidas do diabo, e não tenhas medo, porque não fizeram nenhum mal a tua alma. Mas, por minha licença, vais rezar sete Pai-nossos todas as vezes que fores atormentado por essas sugestões”.

O frade ficou muito contente com o que ele lhe disse, que não tinha que confessá-las, principalmente porque, como precisava confessar-se todos os dias, ficava muito confuso; e isso era a causa de sua maior dor. E o frade ficou admirado da santidade do santo pai, de como conheceu suas tentações pelo espírito Santo, pois ele não tinha confessado a mais ninguém se não aos sacerdotes. E também mudava sempre de sacerdote por causa da vergonha, pois se envergonhava de um sacerdote conhecesse toda sua enfermidade e tentação. E imediatamente, desde aquela hora em que o bem-aventurado Francisco falou com ele, ficou livre daquela grande tribulação, por dentro e por fora, quem tinha agüentado durante tanto tempo. E pela graça de Deus , pelos méritos do bem-aventurado Francisco, foi colocado numa grande calma e paz da alma e do corpo.