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Um frade, homem espiritual, de quem o bem-aventurado Francisco era
muito familiar, permanecia em certo eremitério. Considerando que,
se alguma vez lá fosse o bem-aventurado Francisco, não teria um
lugar apto para ficar, mandou fazer num lugar afastado, perto do lugar
dos frades, uma pequena cela, onde o bem-aventurado Francisco
pudesse rezar quando fosse lá. E acontece que, não muitos dias
depois, chegou o bem-aventurado Francisco. Quando foi levado pelo
frade para ver a cela, disse-lhe o bem-aventurado Francisco: --
Essa cela me parece muito bonita. Mas, se queres que eu fique nela
por alguns dias, mande fazer-lhe um revestimento tanto interno quanto
externo de samambaias e galhos de árvores”.
Pois a cela não era murada mas feita de madeira. Mas como as tábuas
eram planas, feitas com machado e enxó, o bem-aventurado Francisco
achou que era bonita demais. O frade mandou adaptá-la
imediatamente, como dissera o bem-aventurado Francisco. Pois quanto
mais as celas e casas dos frades fossem pobrezinhas e religiosas,
via-as com mais boa vontade e às vezes nelas se hospedava. Como
tivesse ficado e rezado nela por alguns dias, eis que um dia, perto da
cela, fora do lugar dos frades, um certo irmão, que estava no
lugar, foi onde o bem-aventurado Francisco estava.
O bem-aventurado Francisco perguntou-lhe: “De onde vens,
irmão?”. Ele disse: -- “Venho de tua cela”. O
bem-aventurado Francisco disse-lhe: “Porque disseste que a cela é
minha, vai ser outro que vai ficar nela de agora em diante, não
eu”. Nós, que estivemos com ele, ouvimo-los muitas vezes dizendo
aquela palavra do Evangelho: “As raposas têm suas tocas e as aves
do céu têm seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar
a cabeça”. E dizia: “Quando esteve no cárcere, onde jejuou
quarenta dias e quarenta noites, o Senhor não mandou fazer uma cela
nem uma casa, ficou embaixo de uma rocha da montanha”. E por isso,
a exemplo dele, não quis ter casa nem cela neste século, nem mandou
fazer para si. Mais, se alguma vez acontecesse de dizer aos frades:
“Ajeitem de tal forma esta cela”, depois não queria ficar nela,
por causa daquela palavra do santo Evangelho: “Não vos
preocupeis”. Pois perto de sua morte quis que fosse escrito em seu
Testamento que todas as celas e casas dos frades não deviam ser
construídas a não ser de barro e galhos, para conservar melhor a
pobreza e a humildade.
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