CAPÍTULO 58

Por isso, em certa ocasião, quando estava em Sena por causa da doença nos olhos e morasse numa cela, onde depois de sua morte foi edificado um oratório para reverenciá-lo, disse-lhe o senhor Boaventura, que dera a terra aos frades, onde fora edificado o lugar dos frades: “Que te parece deste lugar?”. O bem-aventurado Francisco respondeu-lhe: “Queres que te diga como os lugares dos frades deveriam ser construídos?”. Ele respondeu: -- “Quero, pai”. Disse-lhe: “Quando os frades vão a alguma cidade, onde não têm um lugar, e encontram alguém que lhes queira dar tanta terra que possam edificar um lugar e ter uma morada e o que lhes for necessário, primeiro eles têm que considerar quanta terra lhes basta, sempre levando em conta a santa pobreza que prometemos e o exemplo que devemos dar aos outros em tudo”.

O santo pai dizia isso porque não queria, em ocasião alguma, que os frades, nas casas, igrejas, hortas ou outras coisas que usavam excedessem o modo da pobreza nem possuíssem algum lugar com direito de propriedade, mas sempre morassem nelas como peregrinos e forasteiros. Por isso queria que os frades não fossem colocados em grande número nos diversos lugares, porque lhe parecia difícil observar a pobreza em quantidades grandes. E essa foi a sua vontade desde o começo de sua conversão e até o fim na sua morte, que a santa pobreza fosse absolutamente observada. “Depois deveriam ir ao bispo da cidade e dizer-lhe: Senhor, tal pessoa, por amor de Deus e pela salvação de sua alma quer dar-nos tanta terra para que aí possamos construir um lugar; por isso recorremos a ti primeiro, principalmente porque és o pai e senhor das almas de todo o rebanho a vós confiado , como das nossas e dos outros frades que permanecerem neste lugar. Por isso queremos aí construir com a bênção de Deus e a tua”.

Mas o santo dizia isso porque o fruto das almas que os frades querem fazer no povo é melhor conseguido com a sua paz, com lucro deles e do povo, do que escandalizando os prelados e os clérigos, mesmo que o povo sai ganhando. E dizia: “O Senhor nos chamou para ajudar a sua fé e a dos prelados e clérigos da santa mãe igreja; por isso, quanto pudermos, temos que amá-los sempre, honrá-los e venerá-los. Pois é por isso que se chamam frades menores, porque tanto de nome como de exemplo e por obra devem ser humildes diante das outras pessoas deste século. E porque desde o início de minha conversão, quando me separei do século e do pai carnal, o Senhor pôs sua palavra na boca do bispo de Assis para que me aconselhasse bem no serviço de Cristo e me confortasse. Por isso, e por muitas outras coisas excelentes que considero nos prelados, não só nos bispos mas também nos sacerdotes pobrezinhos, quero amá-los, venerá-los e tê-los como meus senhores”.

“Depois de recebida a bênção do bispo, vão e façam abrir um grande sulco ao redor do terreno que receberam para a construção do lugar, e nele coloquem uma boa sebe como muro, em sinal da santa pobreza e humildade. Depois façam construir casas pequeninas de barro e galhos e algumas pequenas celas, onde os frades possam orar de vez em quando e também trabalhar, para sua maior honestidade e também para se precaver das palavras ociosas. Façam construir também igrejas; pois os frades não devem mandar fazer igrejas grandes com a desculpa de que é para pregar ao povo nem por alguma outra desculpa, porque há maior humildade e melhor exemplo quando os frades vão a outras igrejas para pregar, para observarem a santa pobreza e a sua própria humildade e honestidade”.

“E se alguma vez forem visitados por prelados ou clérigos, religiosos ou seculares, as casas pobrezinhas, as celas e as igrejas existentes no lugar vão ser uma pregação para eles, e ficarão edificados”. E disse: “Pois muitas vezes os frades mandam construir grandes edifícios, rompendo nossa santa pobreza e dando ocasião de murmuração e mau exemplo para o próximo. Depois, com a desculpa de ir para um lugar melhor ou mais são, abandonam aqueles lugares e edifícios. E, por isso, os que aí deram suas esmolas e outros que vêem e ouvem ficam muito escandalizados e perturbados. Por isso é melhor que os frades façam construir lugares e edifícios pequenos e pobrezinhos, observando sua profissão, e dando bom exemplo ao próximo, do que fazerem contra a sua profissão e darem mau exemplo aos outros. Porque, se alguma vez acontecesse que os frades, com a desculpa de um lugar mais honesto, abandonassem os lugares pequenos e pobrezinhos, haveria por isso muito mau exemplo e escândalo”.