CAPÍTULO 61

Pois, num dia em que o bem-aventurado Francisco fora a uma igreja de uma vila da cidade de Assis, começou a varre-la, e logo se espalhou o boato naquela vila, principalmente porque ele visto e ouvido de boa vontade por aquelas pessoas. Mas quando isso foi ouvido por um sujeito chamado João, da maior simplicidade, que estava arando num campo seu perto daquela igreja, ele foi logo para lá e o encontrou varrendo a igreja. Disse-lhe: “Irmão, dá-me a vassoura, porque quero te ajudar”. E, tomando a vassoura, dele, varreu o resto.

E, sentado, disse ao bem-aventurado Francisco: “Irmão, já faz tempo que tenho vontade de servir a Deus, e mais ainda depois que ouvi falar de ti e de teus frades, mas não sabia como chegar a ti. Mas depois que aprouve a Deus que eu te visse, quero fazer tudo que te agradar”. O bem-aventurado Francisco, considerando o seu fervor, exultou no Senhor, principalmente porque tinha, então, poucos frades e porque lhe parecia que poderia ser um bom religiosos, por sua pura simplicidade. Então lhe disse: “Irmão, se queres ser de nossa vida e sociedade, é preciso que te desapropries de todas as tuas coisas que podes ter sem escândalo, e que dês tudo aos pobres, segundo o conselho do santo Evangelho, pois foi isso que fizeram os meus frades, que puderam”.

Ouvindo isso, ele foi imediatamente para o campo, onde deixara os bois, soltou-os e trouxe um para o bem-aventurado Francisco, dizendo: “Irmão, servi durante tantos anos a meu pai e a todos de minha casa; ainda que seja pequena esta parte da minha herança, quero tomar este boi como a minha parte e dá-lo aos pobres, como melhor te parecer segundo Deus”. Mas quando seus parentes e irmãos, que ainda eram pequenos, viram que queria abandoná-los, começaram a chorar tão fortemente e tão alto, eles e todos da casa, que por isso moveu-se a piedade do bem-aventurado Francisco, principalmente porque a família era grande e fraca.

Então o bem-aventurado Francisco lhes disse: “Preparai e fazei uma refeição para nós todos comermos juntos, e não choreis, porque vou deixar-vos alegres”. Eles logo prepararam, e todos comeram com muita alegria. Depois da refeição, o bem-aventurado Francisco lhes disse: “Este vosso filho quer servir a Deus, por isso vós tendes que ficar alegres, não tristes. E não só segundo Deus, mas também de acordo com este século, isso será atribuído a vós para honra e proveito das almas e dos corpos, porque Deus fica honrado pela vossa carne, e todos os nossos frades serão vossos filhos e irmãos. E porque é uma criatura de Deus e quer servir ao seu Criador, aquele para quem servir é reinar, não posso nem devo devolvê-lo a vós; mas, para que recebais e tenhais uma consolação por causa dele, quero que ele se exproprie desse boi em vosso favor, como a pobres, ainda que ele devesse dá-lo a outros pobres, segundo o conselho do santo Evangelho”.

E todos ficaram consolados com as palavras do bem-aventurado Francisco, e se alegraram principalmente porque o boi lhes foi devolvido, porque eram pobres. E porque o bem-aventurado Francisco amava demais e sempre lhe agradava a santa simplicidade, em si e nos outros, logo que o vestiu com os panos da Religião, levava-o como seu companheiro. Pois ele era de tamanha simplicidade que se achava obrigado a fazer tudo que o bem-aventurado Francisco fizesse. Por isso, quando o bem-aventurado Francisco estava em alguma igreja ou em algum outro lugar afastado, para a oração, ele queria vê-lo e espiá-lo, para se conformar com todos os seus gestos.

Então, se o bem-aventurado Francisco dobrasse os joelhos, ou juntasse as mãos para o céu, ou cuspisse, ou tossisse, ele fazia tudo igual. E o bem-aventurado Francisco começou a questioná-lo, com muita alegria, sobre esse tipo de simplicidade. Ele respondeu: “Irmão, eu prometi fazer tudo que tu fazes, por isso quero fazer tudo que tu fazes”. O bem-aventurado Francisco ficava admirado e alegre com isso, vendo-o em tão grande pureza e simplicidade. Pois começou a ser tão perfeito em todas as virtudes e bons costumes, que o bem-aventurado Francisco e os outros frades ficavam muito admirados de sua perfeição. E não muito tempo depois, ele morreu naquela santa perfeição. Por isso o bem-aventurado Francisco, com muita alegria interior e exterior, falava entre os seus irmãos do seu comportamento, e não o chamava de Frei João mas de São João.