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Certa vez, o bem-aventurado Francisco ia pelo vale de Espoleto e
com ele ia Frei Pacífico, que foi da Marca de Ancona e no século
era chamado “rei dos versos”, nobre e cortês mestre dos cânticos.
E se hospedaram num hospital de leprosos de Trevi. E o
bem-aventurado Francisco disse a Frei Pacífico: “Vamos à igreja
de São Pedro de Bovário, porque quero ficar lá esta noite”.
A igreja não estava muito longe do hospital e ninguém ficava lá,
principalmente porque naquele tempo tinha sido destruído o castelo de
Trevi, de modo que ninguém permanecia no castelo ou na vila de
Trevi. E acontece que quando o bem-aventurado Francisco ia indo
para lá, disse a Frei Pacífico: “Volta para o hospital, porque
quero ficar sozinho aqui nesta noite, e volta a mim amanhã bem
cedo”.
Mas quando o bem-aventurado Francisco lá ficou sozinho e disse o
completório e outras orações, quis descansar e dormir mas não
pôde, e seu espírito começou a temer e a sentir sugestões
diabólicas. Levantou-se imediatamente e saiu fora da casa
persignando-se e dizendo: “Da parte de Deus onipotente eu vos
digo, demônios, que façais tudo que vos foi permitido por nosso
Senhor Jesus Cristo para prejudicar meu corpo, porque estou
preparado para agüentar tudo, pois o maior inimigo que eu tenho é o
meu corpo: por isso vingar-me-ei de meu adversário e inimigo”.
Pararam na mesma hora aquelas sugestões. Ele voltou para o lugar
onde se deitava, aquietou-se e dormiu em paz.
Quando amanheceu, Frei Pacífico voltou para junto dele. O
bem-aventurado Francisco estava em oração diante do altar dentro do
coro; Frei Pacífico ficou em pé, esperando-o fora do coro,
diante do crucifixo e rezando ao mesmo tempo ao Senhor. E quando
Frei Pacífico começou a rezar, foi elevado em êxtase, se no corpo
ou fora do corpo Deus soube, e viu muitas cadeiras no céu, entre as
quais uma mais eminente que as outras, gloriosa e fulgente, e ornada
com todas as pedras preciosas. Admirando sua beleza, começou a
pensar consigo mesmo o que era essa cadeira e a quem pertencia. E logo
ouviu uma voz que lhe dizia: “Esta cadeira foi de Lúcifer, e no
seu lugar vai sentar-se nela o bem-aventurado Francisco”. E
voltando a si, logo o bem-aventurado Francisco saiu ao seu encontro.
Ele se jogou imediatamente aos pés do bem-aventurado Francisco, em
forma de cruz, considerando-o como se já estivesse no céu, por
causa da visão que tivera sobre ele, e lhe disse: “Pai, perdoa-me
os meus pecados e roga ao Senhor que me perdoe e tenha misericórdia de
mim”. E, estendendo a mão, o bem-aventurado Francisco o fez
levantar-se e soube que tinha visto alguma coisa na oração. Parecia
todo mudado, e falava ao bem-aventurado Francisco não como a alguém
que vivia na carne mas como a alguém que já reinava no céu.
Depois, como de longe, porque não queria contar a visão ao
bem-aventurado Francisco, Frei Pacífico interrogou o
bem-aventurado Francisco dizendo-lhe: “O que achas de ti mesmo,
irmão?”.
O bem-aventurado Francisco respondeu e lhe disse: “Eu acho que sou
um homem mais pecador que qualquer outro que haja no mundo”. E na
mesma hora foi dito a Frei Pacífico no coração: “Nisso tu podes
saber que foi verdadeira a visão que tiveste”; porque como Lúcifer
foi jogado daquela cadeira por sua soberba, assim o bem-aventurado
Francisco, por sua humildade, vai merecer ser exaltado e sentar-se
nela”.
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