CAPÍTULO 66

Certa vez, quando o bem-aventurado Francisco estava em Rieti e hospedado por alguns dias num quarto de Tebaldo Sarraceno por causa da doença dos olhos, disse, um dia, a um de seus companheiros, que, no século, sabia tocar cítara: “Irmão, os filhos deste século não entendem das coisas divinas; pois instrumentos como as cítaras, os saltérios de dez cordas e outros instrumentos, que eram usados nos tempos antigos pelos santos homens para louvar a Deus e consolar as almas, agora são usados por eles para a vaidade, o pecado e contra a vontade de Deus. Por isso eu gostaria que conseguisses em segredo com alguma pessoa honesta uma cítara com que me fizesses um verso honesto e com ela diremos coisas das palavras e louvores do Senhor, principalmente porque o corpo está aflito por grande doença e dor. Por isso eu gostaria, nesta oportunidade, de reduzir a própria dor do corpo para alegria e consolação da alma”.

Pois o bem-aventurado Francisco, em sua enfermidade, fizera alguns louvores do Senhor, que de vez em quando fazia que fossem ditos por seus companheiros para o louvor de Deus e para consolação de sua alma, mas também para edificação do próximo. O frade respondeu-lhe: “Pai, fico com vergonha de ir buscar, principalmente porque as pessoas desta cidade sabem que no século eu sabia tocar cítara; temo que pensem que estou sendo tentado a ser citarista de novo”. O bem-aventurado Francisco lhe disse: “Então, irmão, vamos deixar disso”. Mas na noite seguinte, quase à meia-noite, o bem-aventurado Francisco estava acordado e eis que, ao redor da casa onde estava deitado, ouviu uma cítara tocando uma música mais bonita e mais agradável do que jamais tinha ouvido em sua vida. E ia tocando tão longe quanto se podia ouvir e e depois voltava tocando. E fez isso por uma boa hora.

Por isso, considerando o bem-aventurado Francisco que era obra de Deus e não de um homem, encheu-se do maior gozo e com o coração exultante louvou o Senhor com todo afeto por ter-se dignado consolá-lo com tal e tão grande consolação. E, quando se levantou de manhã, disse ao seu companheiro: “Irmão, eu te pedi e não me satisfizeste; mas o Senhor, que consola seus amigos na tribulação, dignou-se consolar-me nesta noite”. E assim contou-lhe tudo que tinha acontecido. E os frades ficaram admirados, achando que isso era um grande milagre. E souberam de verdade que tinha sido uma obra de Deus para consolação do bem-aventurado Francisco e principalmente porque, de acordo com uma lei do podestá, não só à meia-noite mas mesmo depois do terceiro toque de sino, ninguém ousava andar pela cidade. E porque, como contou o bem-aventurado Francisco, ia e voltava por uma boa hora em silêncio, sem voz e sem barulho da boca, como era obra de Deus, para consolar o seu espírito.