CAPÍTULO 67

Na mesma ocasião, por causa da enfermidade dos olhos, o bem-aventurado Francisco permaneceu junto da igreja de São Fabiano, que fica perto da cidade, e onde havia um pobre sacerdote secular. Pois naquele tempo o senhor papa Honório estava com os outros cardeais na mesma cidade. Por isso muitos dos cardeais e dos outros grandes clérigos, pela reverência e devoção que tinham pelo santo pai, visitavam-no quase todos os dias.

Ora, aquela igreja tinha uma pequena vinha que ficava junto da casa em que permanecia o bem-aventurado Francisco, e nessa casa só havia uma porta, por onde entravam na vinha quase todos os que o visitavam, principalmente porque naquele tempo as uvas estavam maduras e o lugar era ameno para se descansar. E aconteceu que, por essa situação, perdeu-se quase toda a vinha. Porque alguns colhiam uvas e as comiam ali mesmo, outros colhiam e levavam, e outros ainda a esmagavam com seus pés. Por isso o sacerdote começou a ficar escandalizado e perturbado, dizendo: “neste ano eu perdi a minha vinha. Porque, ainda que seja pequena, colhia dela tanto vinho que dava para a minha necessidade”. Ouvindo isso, o bem-aventurado Francisco mandou chamá-lo à sua presença e lhe disse: “Não se perturbe mais nem se escandalize, porque não podemos fazer outra coisa. Mas confia no Senhor, porque Ele, por mim, seu pequeno servo, pode restituir o teu dano. Mas me diga: quantas cargas tiveste quando tua vinha rendeu mais?”.

O sacerdote respondeu-lhe: “Pai, treze cargas”. Disse-lhe o bem-aventurado Francisco: “Não fiques triste agora nem digas alguma palavra injuriosa para ninguém, nem te queixes com alguém, mas tem fé no Senhor e nas minhas palavras; e se tiveres menos do que vinte cargas de vinho, eu vou fazer completar para ti”. Por isso o sacerdote se acalmou e ficou quieto. E aconteceu, por disposição divina, que teve vinte cargas, e não menos, como lhe dissera o bem-aventurado Francisco. O sacerdote ficou muito admirado com isso, e também todos os outros que ouviram, considerando que era um grande milagre, pelos méritos do bem-aventurado Francisco, principalmente porque não só tinha sido devastada mas, porque se estivesse carregada de uvas e ninguém tirasse nada, parecia ao sacerdote e aos outros que era impossível tirar dali vinte cargas de vinho. Por isso nós que estivemos com ele damos testemunho de que sempre que dizia: “É assim, ou vai ser”, assim acontecia. E nós vimos muitas coisas que se cumpriram quando vivia e também depois de sua morte.