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Certa vez, quando o bem-aventurado Francisco ia para Celle de
Cortona, aconteceu que, quando passava pelo caminho ao pé de um
castro chamado Limisiano, perto do lugar dos frades de Prégio, uma
senhora nobre do mesmo castro veio com muita pressa para falar com o
bem-aventurado Francisco. Quando um dos companheiros do
bem-aventurado Francisco viu aquela senhora tão cansada do caminho
vindo tão apressada, correu disse ao bem-aventurado Francisco:
“Pai, pelo amor de Deus esperemos essa senhora, porque vem atrás
de nós, e está muito cansada pelo desejo de falar conosco”. O
bem-aventurado Francisco, homem cheio de caridade e de piedade,
esperou-a. Mas quando a viu fatigada e vindo com grande fervor de
espírito e devoção, disse-lhe: “Que desejas, senhora?”. Ela
lhe respondeu: “Pai, rogo que me bendigas”.
O bem-aventurado Francisco lhe disse: “És casada ou solteira?”.
E ela: “Pai, faz tempo que o Senhor me deu a boa vontade de
servi-lo. Tive e tenho um grande desejo de salvar minha alma, mas
tenho um marido tão cruel e contrário a mim e a ele mesmo no serviço
de Cristo; por isso minha alma se aflige com muita dor e angústia
até a morte”. O bem-aventurado Francisco, considerando o
fervoroso espírito que ela tinha, e principalmente que era jovem e
delicada segundo a carne, moveu-se de piedade por ela, abençoou-a e
lhe disse:. “Vá e, quando encontrar teu marido em casa, dize-lhe
de minha parte que rogo a ele e a ti por amor daquele Senhor que para
nos salvar suportou a paixão da cruz, que salveis vossas almas em
vossa casa”.
Quando ela voltou e entrou em casa, encontrou o marido em casa, como
lhe dissera o bem-aventurado Francisco. E o marido lhe disse: “De
onde vens?”. E ela: “Venho do bem-aventurado Francisco, que me
abençoou, e em suas palavras minha alma ficou consolada e alegre no
Senhor”. Além disso me disse que, de sua parte, eu te dissesse e
rogasse que em nossa casa salvemos nossas almas”. Quando disse isso,
na mesma hora a graça de Deus desceu sobre ele, pelos méritos do
bem-aventurado Francisco. Ele lhe respondeu com muita bondade de
mansidão, tão rapidamente mudado e renovado pelo Senhor:
“Senhora, agora vamos fazer como te aprouver o serviço de Cristo e
vamos salvar nossas almas, como disse o bem-aventurado Francisco. E
sua esposa lhe disse: “Senhor, eu acho bom que vivamos em
castidade, porque é muito grata ao senhor e é uma virtude de grande
remuneração”.
Respondeu-lhe o marido: “Senhora, se te agrada, a mim agrada”.
Pois nisso e em outras boas obras quero unir minha vontade à tua
vontade”. E a partir daí viveram muitos anos em castidade, fazendo
muitas esmolas aos frades e aos outros pobres, de modo que não só os
seculares mas também os religiosos se admiravam de sua santidade,
principalmente porque aquele homem era muito mundano e se tornara
rapidamente espiritual. E tendo perseverado em tudo isso e em todas as
outras obras boas, morreram os dois com diferença de poucos dias.
Por causa deles houve uma grande lamentação, pelo odor da boa vida,
que deram durante todo o tempo de suas vidas, louvando e bendizendo ao
Senhor, que lhes deu graças, candor e concórdia a vida a seu
serviço; e não foram separados na morte, porque morreu um depois do
outro. Pois até o dia de hoje conta-se a sua memória como de
santos, pelos que os conheceram.
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