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Um dia um frade disse ao bem-aventurado Francisco: “Pai, tua vida
e comportamento foram e são luz e espelho não só para teus frades mas
para toda a Igreja de Deus, e o mesmo vai acontecer com tua morte;
pois, embora para os teus frades e para muitos outros tua morte seja
uma grande dor e tristeza, para ti será a maior consolação e um gozo
infinito, porque passarás de muito trabalho para o maior descanso e de
muitas dores e tentações para um gozo infinito, da tua maior
pobreza, que sempre amaste e suportaste voluntariamente desde o começo
de tua conversão até o dia de tua morte, para as maiores,
verdadeiras e infinitas riqeuzas, da morte temporal para a vida
sempiterna, onde verás sempre face as face o Senhor teu Deus (cfr.
Gn 32,30; 1Cor 13,12), que contemplaste neste século
com tanto fervor, desejo e amor”.
Dito isso, falou-lhe claramente: “Pai, saibas na verdade que, se
Deus não mandar do céu o seu remédio para o teu corpo, tua doença
é incurável e deves viver pouco, como também os médicos já
disseram. Mas eu disse isso para confortar o teu espírito, para te
alegrares sempre no Senhor interior e exteriormente, e principalmente
para que teus frades e outros, que vêm te visitar te encontrem alegre
no Senhor (cfr. Fp 4,4), porque sabem e crêem que vais morrer
logo, que para eles que estão vendo isso e para os outros que ouvirem
depois de tua morte, fique a tua morte como lembrança, como foram
para todos tua vida e comportamento”. O bem-aventurado Francisco,
mesmo sofrendo muito pelas enfermidades, louvou ao Senhor com grande
fervor do espírito e alegria do corpo e da alma, e lhe disse:
“Então, se devo morrer logo, chamai-me Frei Ângelo e Frei
Leão, para que me cantem sobre a irmã morte”.
Esses frades se apresentaram diante dele e cantaram com muitas
lágrimas o Cântico de Frei Sol e das outras criaturas ao Senhor,
que o próprio santo fizera em sua doença para louvar o Senhor e para
consolar sua alma e a dos outros, no qual canto colocou antes do
último um verso sobre a irmã morte, a saber: Louvado sejas meu
Senhor, por nossa irmã a morte corporal da qual nenhum homem vivo
pode escapar. Ai de quem morrer em pecado mortal. Felizes os que ela
encontrar em tuas santíssimas vontades, porque a morte segunda não
lhes fará mal.
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