CAPÍTULO 74

Certa vez, um ministro dos frades foi ao bem-aventurado Francisco, que estava então no mesmo lugar. Para celebrar a festa do Natal do Senhor com ele. E aconteceu que, quando os frades do lugar estavam preparando uma mesa festiva no próprio dia do Natal por causa do ministro, com bonitas toalhas brancas que tinham adquirido e copos de vidro para beber, o bem-aventurado Francisco desceu da cela para comer. Quando viu a mesa elevada e tão curiosamente preparada, foi em segredo e levou o chapéu de um pobre, que lá chegara nesse mesmo dia, e o bastão que levava nas mãos. Chamou em voz baixa um de seus companheiros, e saiu fora da porta do eremitério, sem que soubessem os frades da casa. Nesse meio tempo, os frades entraram para a mesa, principalmente porque era costume do santo pai que, às vezes, quando não vinha logo na hora de comer, quando os frades queriam comer, queria que os frades entrassem para a mesa para comer. Seu companheiro fechou a porta, ficando perto dela do lado de dentro.

O bem-aventurado Francisco bateu à porta e o frade logo abriu-a para ele, que veio com o chapéu nas costas e o bastão na mão, como um peregrino. Quando chegou diante da porta da casa onde os frades comiam, clamou como um pobre, dizendo aos frades: “Por amor do Senhor Deus, daí uma esmola a este pobre peregrino e doente”. E o ministro e os outros frades conheceram-no imediatamente. E o ministro respondeu-lhe: “Irmão, nós somos igualmente pobres e, como somos muitos, temos necessidade das esmolas que comemos, mas, por amor daquele Senhor que invocaste, entra na casa que te daremos das esmolas que o Senhor nos deu”. Quando entrou e ficou em pé diante da mesa dos frades, o ministro deu-lhe a escudela em que comia e igualmente do seu pão. Tomando-a ele sentou no chão perto do fogo, diante dos frades que estavam sentados à mesa, no alto, e, suspirando, disse aos frades: “Quando vi a mesa preparada de maneira honrosa e rebuscada, achei que não era a mesa dos pobres religiosos, que vão todos os dias de porta em porta. Pois assim convém a nós, mais que aos outros religiosos, seguir o exemplo de humildade e pobreza, porque a isso fomos chamados e isso professamos diante de Deus e dos homens. Por isso, acho que agora estou sentado como um frade”. Os frades ficaram envergonhados com isso, pois consideraram que o bem-aventurado Francisco estava dizendo a verdade, e alguns deles começaram a chorar forte, vendo como estava sentado no chão e como quis corrigi-los tão santa e cuidadosamente.

Também dizia que os frades deviam ter mesas tão humildes e simples que, por isso, os seculares pudessem ficar edificados; e se algum pobre fosse convidado pelos frades, pudesse sentar-se com eles, não o pobre no chão e os frades lá em cima. Por isso o senhor papa Gregório, quando era bispo de Óstia e foi ao lugar dos frades em Santa Maria da Porciúncula, entrou na casa dos frades e foi ver o seu dormitório, que havia nessa casa, com muitos cavaleiros, monges e outros clérigos, que tinham vindo com ele. Quando viu que os frades dormiam no chão e não tinham por baixo a não ser um pouco de palha, sem travesseiro, com algumas cobertas pobrezinhas, rasgadas e gastas, começou a chorar muito diante de todos, dizendo: “Vejam aqui como dormem os frades; mas nós, miseráveis, usamos tantas coisas supérfluas para tudo. Que vai ser de nós?”. Pelo que ele e os outros ficaram muito edificados com isso. Não viu lá nenhuma mesa, porque os frades comiam no chão. E embora aquele lugar, desde o começo, quando foi edificado, fosse freqüentado por longo tempo pelos frades de toda a Religião mais do que qualquer outro lugar dos frades, porque todos os que vinham para a Religião eram ali revestidos, sempre os frades do lugar comiam no chão, fossem poucos ou muitos, e enquanto viveu o santo pai, por seu exemplo e vontade, os frades desse lugar sentavam-se no chão para comer.

Pois o bem-aventurado Francisco, vendo que aquele lugar dos frades em Grécio era simples e pobre, e que as pessoas daquele castro, embora pobrezinhas e simples, agradaram mais ao bem-aventurado Francisco entre os daquela província. Por isso descansava muitas vezes e ficava morando naquele lugar, principalmente porque ali havia uma cela pobrezinha, bem afastada, onde o santo pai ficava. Por isso, por seu exemplo e pela pregação dele e de seus frades, graças ao Senhor muitos deles entraram na Religião, muitas mulheres guardavam sua castidade, permanecendo em suas casas, vestidas do pano da Religião. Mas mesmo que cada uma ficasse em sua casa, vivia vida comum honestamente e afligia seu corpo com jejum e oração, de modo que, às pessoas e aos frades seu comportamento não parecia ser entre os seculares e seus parentes mas entre pessoas santas e religiosas que estivessem servindo Deus havia muito tempo, embora fossem muito jovens e simples.

Por isso o bem-aventurado Francisco falava muitas vezes com alegria entre os frades dos homens e mulheres desse castro: “De uma cidade grande não se converteram tantos para a penitência como em Grécio, que é um pequeno castro. Pois, muitas vezes, quando os frades estavam louvando a deus à tarde, como os frades costumavam fazer em muitos lugares naquele tempo, as pessoas daquele castro, grandes e pequenas, saíam para fora, ficavam em pé na rua na frente do castro, respondente aos frades em voz alta: “Louvado seja o Senhor Deus!”. De modo que mesmo as crianças que ainda não sabiam falar bem, quando viam os frades, louvavam o Senhor Deus como podiam. Mas tinham, nesse tempo, uma tribulação muito grande, que sofreram por muitos anos: porque grandes lobos devoravam as pessoas e o granizo devastava todos os anos seus campos e vinhas. Por isso, um dia que lhes estava pregando, o bem-aventurado Francisco disse: “Eu vos anuncio, para honra e louvor de deus que, se cada um de vós se emendar de seus pecados e se converter a Deus de todo coração, com o propósito e a vontade de perseverar, confio no Senhor Jesus Cristo que, por sua misericórdia, ele vai afastar agora de vós esta peste dos lobos e do granizo, que vós sofreste tanto tempo, e vai fazer com cresçais e vos multipliqueis nas coisas espirituais e nas temporais. Também vos anuncio que - que assim não seja - se voltardes ao vômito, essa praga e peste vai voltar sobre vós e com elas outras tribulações muito maiores”. E aconteceu que, pela graça de Deus e pelos méritos do santo pai, acabou toda tribulação desde aquela hora e daquele tempo. Até, o que é um grande milagre, quando o granizo chegava e devastava os campos de seus vizinhos, não tocava os seus campos, que estavam ao lado.

Desde então, começaram a multiplicar-se e ter abundância nas coisas espirituais e temporais por uns dezesseis ou vinte anos. Depois começaram a se ensoberbecer pela gordura, a se odiar uns aos outros e até a ferir-se com espadas até a morte, a matar animais ocultamente, a roubar e a furtar de noite, a fazer muitos outros males. Quando o Senhor observou que suas obras eram más e que não estavam observando o que lhes tinha sido anunciado pelo seu servo, indignou-se seu zelo sobre eles e afastou deles a mão de sua misericórdia. E voltou sobre eles a praga do granizo e dos lobos, como lhes dissera o santo pai, e muitas outras tribulações piores do que as antigas caíram sobre eles. Pois todo o castro foi queimado pelo fogo, e eles escaparam sozinhos, tendo perdido tudo que possuíam. Por isso, os frades e outros que tinham ouvido as palavras do santo pai, como lhes predissera condições prósperas e adversas, ficaram muito admirados de sua santidade, vendo tudo realizado à letra.