CAPÍTULO 80

Por isso, certa vez, quando tinha sarado um pouco de uma de suas maiores enfermidades, achou e ficou convencido de que tinha comido um pouco de iguaria naquela doença, ainda que comesse pouco, porque por causa das muitas, variadas e longas enfermidades não podia comer. Levantando-se um dia, como não estava libertado da febre quartã, mandou convocar o povo de Assis na praça para a pregação. Quando acabou a pregação, mandou-lhes que ninguém se afastasse enquanto ele não voltasse. Entrou na igreja de São Rufino para se confessar com Frei Pedro Cattani, que foi o primeiro ministro geral escolhido Poe ele, e com alguns outros frades, e ordenou a Frei Pedro em que tudo que ele quisesse dizer e fazer de si mesmo, obedecesse-o e não o contradissesse. Frei Pedro disse: “Irmão, nem posso nem quero querer outra coisa se não o que te agrada, de mim e de ti”. Tirando a sua túnica, o bem-aventurado Francisco ordenou a Frei Pedro que o levasse com um corda que tinha no pescoço nu diante do povo, e a outro frade ordenou que pegasse uma tigela cheia de cinza e subisse ao lugar onde tinha pregado e jogasse a cinza espalhando-a sobre a cabeça dele.

Mas o frade não obedeceu, pela piedade e compaixão que se moveram sobre ele. Frei Pedro levantou-se e o conduziu, como lhe tinha sido mandado, chorando muito; e os outros frades com ele. E aconteceu que, quando voltou assim despido diante do povo ao lugar onde tinha pregado, disse: “Vós e outros, que por meu exemplo deixam o século e entram na Religião e vida dos frades, credes que eu sou um homem santo, Mas eu confesso a Deus e vós que, nesta minha enfermidade, comi um caldo temperado com carne”. Quase todos começaram a chorar de piedade e compaixão por ele, principalmente porque estava fazendo muito frio, era tempo de inverno, e ele ainda não estava curado da febre quartã.

E batiam em seus peitos, dizendo: “Se esse santo se acusa de uma necessidade manifesta com tanta vergonha do corpo, e conhecemos a vida dele, que vemos vivo na carne com uma carne já meio morta por causa da superfluidade da abstinência e da austeridade que teve contra seu corpo desde o início de sua conversão a Cristo, que vamos fazer nós, miseráveis, que todo o tempo de nossa vida vivemos e quisemos viver segundo a vontade e os desejos da carne?