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De maneira semelhante, certa vez, quando ficou em um eremitério para
a quaresma de São Martinho e os frades, por causa de sua doença,
prepararam com toucinho os pratos que lhe davam a comer, principalmente
porque o óleo fazia muito mal a suas doenças, no fim da quaresma,
quando pregava a uma grande congregação de povo, não muito longe
daquele eremitério, disse-lhes logo no começo da pregação:
“Vós viestes a mim com grande devoção e achais que eu sou um santo
homem ms a Deus e a vós confesso que nesta quaresma, lá no
eremitério, comi pratos temperados com toucinho”. Até mais, raras
ou poucas vezes aconteceu que, se os frades ou os amigos dos frades,
quando comia em suas casas, ou preparavam manifestamente alguma iguaria
para seu corpo por causa das doenças, quando ele saia da casa não
deixava de dizer, diante dos frades ou também diante dos seculares,
que de nada sabiam, com toda clareza: “Como tais pratos”, não
querendo ocultar às pessoas o que era manifesto diante de Deus.
Até, em toda parte ou diante de quem quer que fosse, religiosos ou
seculares, se seu espírito fosse movido para a vanglória, para a
soberba, ou para qualquer vício, confessava-se imediatamente diante
deles, nuamente e sem encobrir nada. Por isso, uma vez, disse a
seus companheiros: “Quero viver de tal maneira diante de Deus nos
eremitérios e outros lugares onde fico, como as pessoas me conhecem e
me vêem; porque se acham que eu sou um santo homem e eu não fizer o
que convém que faça um homem santo, seria hipócrita”. Por isso em
certa ocasião, no inverno, por causa da doença do baço e do frio no
estômago, um dos companheiros, que era seu guardião, adquiriu uma
pele de raposa, e rogou que permitisse costurar a pele no avesso da
túnica, junto do baço e do estômago, porque, então, estava
fazendo muito frio.
E ele, desde que começou a servir a Cristo, durante todo o tempo,
até o dia de sua morte, nunca quis usar nem ter a não ser uma túnica
remendada, quando queria remendá-la. Então o bem-aventurado
Francisco respondeu: “Se queres que eu tenha esse pele por dentro,
manda pôr algum pedacinho dessa pele por fora, costurada na túnica,
como testemunho para as pessoas de que eu tenho uma pele por dentro”.
E fez que fosse assim; mas não usou muito, ainda que lhe fosse
necessária por causa de suas doenças.
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