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Quando o bispo de Óstia, que depois foi apostólico, viu que o
bem-aventurado Francisco tinha sido e ainda era sempre tão austero
com o seu corpo, e principalmente que começara a perder a luz de seus
olhos mas não queria fazer-se curar disso, admoestou-o com muita
piedade e compaixão dizendo-lhe: “Irmão, não ages bem quando
não deixas que te ajudem na doença dos olhos, porque para ti e para
os outros são muito úteis tua saúde e tua vida. Pois se tiveste
compaixão de teus frades e sempre foste e és misericordioso com eles,
não deverias ser cruel contigo mesmo numa necessidade e enfermidade
tão grande e manifesta. Por isso eu te mando que te faças ajudar e
tratar.
De maneira semelhante, dois anos antes de sua morte, quando já
estava muito doente, especialmente da enfermidade dos olhos, e morasse
numa pequena cela feita de esteiras junto de São Damião,
considerando e vendo o ministro geral que estava tão afetado pela
doença dos olhos, mandou-lhe que fizesse e deixasse ajudar e tratar.
Chegou a dizer-lhe que queria estar presente quando o médico
começasse a trata-lo, principalmente para que se fizesse cuidar mais
seguramente. E para conforta-lo, porque estava muito afetado por
isso. Nesse meio tempo, fazia muito frio e o tempo não era
apropriado para as curas.
Como o bem-aventurado Francisco tivesse ficado deitado nesse lugar
por uns cinqüenta dias ou mais, não podia ver a luz do dia nem a luz
do fogo de noite, mas ficava sempre dentro da casa e permanecia no
escuro naquela pequena cela. Além disso também tinha grandes dores
nos olhos de dia e de noite, de modo que quase não podia dormir e
descansar à noite: isso fazia muito mal e fazia agravar-se muito a
doença dos olhos e as outras doenças. Além disso, se às vezes
queria descansar e dormir, havia na casa e na celazinha em que estava
deitado, que era feita de esteiras em uma parte da casa, tantos ratos
passando e correndo por cima e ao redor dele, que não o deixavam
dormir.
Mesmo no tempo da oração muito o impediam. E não só de noite mas
também de dia atribulavam-no demais, de modo que, até quando
comia, subiam na sua mesa de maneira que seus companheiros acharam que
era uma tentação diabólica, e assim foi. Por isso, uma noite,
pensando o bem-aventurado Francisco que estava tendo tantas
tribulações, ficou com pena de si mesmo e disse lá dentro de si:
“Senhor, olha para me socorrer, em minhas enfermidades, para que eu
possa tolerar com paciência”. E, de repente, foi-lhe dito em
espírito: “Dize-me, irmão: se alguém, por essas tuas
enfermidades e tribulações te desse um tesouro tão grande e precioso
que, se toda a terra fosse puro ouro, todas as pedras fossem pedras
preciosas, e toda a água fosse bálsamo, todavia tu reputarias e
terias por nada tudo isso, por serem matérias: terra, pedras e
água, em comparação com o grande e precioso tesouro que te será
dado. Não te alegrarias muito?
O bem-aventurado Francisco respondeu: “Senhor, esse tesouro seria
grande e impossível de investigar até o fim, muito precioso e por
demais amável e desejável”. E lhe disse: “Então, irmão,
alegra-te e te rejubila bastante em tuas enfermidades e tribulações,
porque de resto podes estar tão seguro como se já estivesses no meu
reino”. Ao acordar de manhã, disse aos seus companheiros: “Se um
imperador desse um reino inteiro a um seu servo, ele não deveria
alegrar-se muito? E se desse todo o império, não se alegraria
ainda mais? E lhes disse: “Por isso eu tenho que me alegrar agora
com minhas doenças e tribulações e me confortar no Senhor, e sempre
dar graças a deus pai e a seu único Filho nosso Senhor Jesus
Cristo, e ao Espírito Santo, por tamanha graça e bênção que me
deram, porque, vivendo ainda na carne, por sua misericórdia
dignou-se dar-me a certeza do reino, a mim, seu servozinho indigno.
Por isso eu quero, para o seu louvor e para nossa consolação e
edificação do próximo, fazer um novo Louvor do Senhor por suas
criaturas, das quais nos servimos todos os dias e sem as quais não
podemos viver. E nas quais o gênero humano ofende muito o Criador,
e todos os dias somos ingratos por tão grande graça, porque não
louvamos como devemos o nosso Criador e doador de todos os bens”.
E sentando-se começou a meditar e depois a dizer: “Altíssimo,
onipotente, bom Senhor”. E compôs um cântico nessas palavras e
ensinou seus companheiros a cantá-lo. Pois seu espírito estava,
então, em tamanha doçura e consolação, que queria mandar buscar
Frei Pacífico, que no século era chamado rei dos versos e foi um
mestre muito cortês de cânticos, e dar-lhe alguns frades bons e
espirituais, para que fossem pelo mundo pregando e louvando a Deus.
Pois queria e dizia que, primeiro, algum deles, que soubesse
pregar, pregasse ao povo, e depois da pregação cantassem os
Louvores do Senhor como jograis de deus.
Terminados os Louvores, queria que o pregador dissesse ao povo:
“Nós somos os jograis do Senhor e nisto queremos a vossa
remuneração, isto é, que estejais na verdadeira penitência”. E
dizia: “Que são os servos de Deus senão, de algum modo, uns
jograis seus, que devem mover o coração dos homens e levanta-los
para a alegria espiritual?”. E especialmente dos frades menores
dizia que foram dados ao povo para sua salvação.
Pois os Louvores do Senhor que vez, a saber: Altíssimo,
onipotente, bom Senhor, deu-lhes o nome de Cântico de Frei Sol,
que a é a mais bonita de todas as criaturas e mais pode a Deus se
assemelhar. Por isso, dizia: “De manhã, quando nasce o sol,
toda pessoa deveria louvar a deus que o criou, porque por ele os olhos
se iluminam de dia; de tarde, quando cai a noite, toda pessoa deveria
louvar a Deus pela outra criatura, o irmão fogo, porque por ele
nossos olhos se iluminam de noite”. E disse: “Nós todos somos
como que cegos, e o Senhor ilumina nossos olhos por essas duas
criaturas. Por isso sempre devemos louvar o glorioso Criador por
essas e outras criaturas suas de que usamos todos os dias”.
Porque em sua saúde e enfermidade fez e fazia de boa vontade louvar o
Senhor e também animava os outros a isso. Mesmo quando estava
sofrendo pela doença, começava ele mesmo a dizer os Louvores do
Senhor, e depois fazia que seus companheiros cantassem para que, em
consideração do louvor do Senhor, pudesse ser esquecida a atrocidade
das dores e doenças. E assim fez até o dia de sua morte.
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