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Mas aconteceu que, quando se aproximou o tempo adequado para tratar da
doença dos olhos, o bem-aventurado Francisco saiu daquele lugar,
embora estivesse muito doente dos olhos.
Levava na cabeça uma espécie de capuz grande, como os frades tinham
feito para ele, e um pano de lã e linha costurado no capuz na frente
dos olhos, porque não podia olhar e ver a luz do dia por causa das
grandes dores provenientes da doença dos olhos. E os companheiros
levaram-no em uma montaria para o eremitério de Fonte Colombo,
perto de Rieti, para ter uma consulta com um médico de Rieti que
sabia medicar a doença dos olhos. Quando foi lá, o médico disse ao
bem-aventurado Francisco que queria fazer uma cauterização desde o
maxilar até o supercílio de seu olho, que era mais doente que o
outro. Mas o bem-aventurado Francisco não queria começar o
tratamento antes que chegasse Frei Elias.
Como o esperaram e não veio, porque, por muitos impedimentos que
teve, não pôde vir, ele também duvidava se devia começar o
tratamento. Mas, forçado pela necessidade, principalmente por
obediência ao senhor bispo de Óstia e do ministro geral, propô-se a
obedece-los, embora fosse muito duro para ele que tivessem tantas
solicitudes por sua causa. Por isso queria que seu ministro tomasse a
decisão.
Depois, uma noite, como não pudesse dormir por causa das dores de
sua doença, com piedade e compaixão por si mesmo, disse a seus
companheiros: “Caríssimos irmãos e filhos meus, que não vos
aborreça nem seja pesado trabalhar pela minha doença, porque o
Senhor, por mim, seu pequeno servo, vai restituir-vos todo o fruto
de vossas ações neste século e no que vem pelo que não puderdes
fazer por vossa solicitude e enfermidade. Vós até tereis um lucro
maior por isto do que os que ajudam toda a religião e a vida dos
frades. Até podeis também dizer-me: Fazemos nossas despesas por
ti e o Senhor vai ficar nosso devedor.
Mas o santo pai dizia essas coisas para ajudar e levantar a
pusilanimidade e a fraqueza do espírito deles, para que não
acontecesse que, alguma vez, tentados por causa daquela trabalho,
viessem a dizer: “Nós não somos capazes de rezar nem de tolerar
tanto trabalho”, e não se tornassem tediosos e pusilânimes,
perdendo assim o fruto do trabalho.
E aconteceu que, um dia, veio o médico, trazendo o ferro com fazia
cauterizações para a doença dos olhos; mandou fazer fogo para
esquentar o ferro e, quando o fogo foi aceso, colocou nele o ferro.
O bem-aventurado Francisco, para dar força ao seu espírito e não
se assustar, disse ao fogo: “Meu irmão fogo, nobre e útil entre
as outras criaturas que o Altíssimo criou, sê cortês comigo nesta
hora, porque outrora eu te amei e ainda amarei por amor daquele Senhor
que te criou. Também suplico ao nosso Criador, que te criou, que
tempere teu calor de tal forma que eu possa suporta-lo”. Quando
acabou a oração, fez o sinal da crua sobre o fogo.
Mas nós que estávamos com ele fugimos todos, por piedade e
compaixão com ele, deixando o médico sozinho com ele. Feita a
cauterização, voltamos para junto dele. Ele nos disse: “Medrosos
e de pouca fé, por que fugisteis? Na verdade eu vos digo que não
senti nenhuma dor nem o calor do fogo; até, se não está bem
cozido, pode cozinhar melhor!”.
O médico ficou muito admirado com isso, tendo-o por um grande
milagre, porque ele não se mexeu nem um pouco. E o médico disse:
“Meus irmãos, eu vos digo que, com a experiência que tenho de
algumas pessoas, temo que não poderia suportar uma cauterização tão
grande não só uma pessoa fraca e doente, mas mesmo alguém que fosse
forte e corporalmente sadio”.
Pois a cauterização foi longa, começando perto da orelha e chegando
até o supercílio do olho, por causa do líquido que escorria do olho
todos os dias, dia e noite, por muitos anos. Por isso foi
necessário, de acordo com o pensamento daquele médico, que todas as
veias da orelha até o supercílio do olho, fossem cortadas, o que era
totalmente contrário de acordo com a opinião dos outros médicos; e
essa era a verdade, porque de nada lhe adiantou. Do mesmo jeito, um
outro médico furou-lhe as duas orelhas, e também não lhe adiantou
nada. E não é de admirar se o fogo e outras criaturas às vezes o
veneravam: porque, como vimos nós que estivemos com ele, amava-as e
as venerava com tanto afeto de caridade.
E se deleitava tanto com elas, e seu espírito tinha tamanha
compaixão e piedade por elas que se perturbava quando alguém não as
tratava bem. E também conversava com elas com alegria interior e
exterior, como se sentissem, entendessem e falassem de Deus, de
forma que, muitas vezes, quando fazia isso, era arrebatado na
contemplação de deus. Pois, uma vez, quando estava sentado perto
do fogo, sem que ele percebesse, o fogo invadiu seus panos de linho
que cobriam a perna. Quando sentiu o calor do fogo e o seu companheiro
viu que o fogo estava queimando seus panos, correu para apagá-lo.
Mas ele lhe disse: “Irmão caríssimo, não queira fazer mal ao
irmão fogo”. E assim não lhe permitiu de modo algum que o
apagasse.
Mas ele foi na mesma hora ao frade que era seu guardião, levou-o a
ele, e assim, contra a vontade dele, começou a apagar o fogo. Ele
não queria que apagassem as velas, as candelas, as lâmpadas ou o
fogo, como se costuma fazer quando é necessário, tanta era a piedade
e afeto que tinha por ele. Também não queria que o irmão jogasse
fora fogo ou lenha fumegante, como é costume fazer muitas vezes, mas
queria que os colocasse delicadamente no chão, por reverência Àquele
de quem é criatura.
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