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Nesse mesmo tempo, uma mulher pobrezinha de Machilone foi a Rieti
por causa de uma doença dos olhos. Certo dia, quando o médico veio
ao bem-aventurado Francisco, disse-lhe: “Irmão, uma mulher
doente dos olhos veio me procurar; mas é tão pobrezinha que tenho que
ajuda-la por amor de Deus e pagar suas despesas”.
Ouvindo isso, o bem-aventurado Francisco ficou com pena dela,
chamou um de seus companheiros, que era o guardião, e lhe disse:
“Irmão guardião, temos o que devolver o que é dos outros”. Ele
disse: “O que é, irmão?”. E ele: “Temos que devolver esta
capa que recebemos emprestada daquela mulher pobrezinha e doente dos
olhos”. Disse-lhe o guardião: “Irmão, faz o que te parecer
melhor”. O bem-aventurado Francisco chamou alegremente um homem
espiritual, que era muito familiar, e lhe disse: “Pega esta capa,
e com ela doze pães, e vai disser isto àquela mulher pobrezinha e
enferma, que o médico que cuida dela vai te mostrar: O homem pobre a
quem emprestastes este manto te agradece pelo empréstimo do manto que
lhe fizeste; pega o que é teu”.
Ele foi e falou tudo como o bem-aventurado Francisco tinha dito.
Mas a mulher, pensando que estava sendo enganada, disse-lhe com medo
e vergonha: “Deixa-me em paz, não sei do que falas”. Mas ele
colocou o manto e os doze pães na mão dela. Quando a mulher viu que
estava falando a verdade, recebeu-o com tremor e agitação do
coração e, com medo de que lhe tirassem, levantou-se ocultamente de
noite e voltou alegre para sua casa. O bem-aventurado Francisco
tinha até dito ao seu guardião que, enquanto estivesse lá,
fizesse-lhe os pagamentos por amor de Deus.
Por isso, nós que estivemos com o bem-aventurado Francisco damos
testemunho dele, que era de tão grande caridade e piedade em sua
saúde e enfermidade não só com seus frades mas também com os
pobres, sãos e doentes. A ponto de dar aos outros, com muita
alegria interior e exterior, o que era necessário a seu corpo, e que
os frades às vezes adquiririam com muita solicitude e devoção,
agradando-nos primeiro para que não ficássemos perturbados, mas
tirando do seu corpo ainda que lhe fosse muito necessário. E por isso
o ministro geral e o guardião mandaram-lhe que não desse sua túnica
a nenhum frades, sem sua licença; porque os frades, pela devoção
que lhe tinham, às vezes pediam e ele dava na mesma hora. Ou
então, ele mesmo, vendo algum frade enfermiço, ou mal vestido, às
vezes dava-lhe a túnica, às vezes dividia-a e dava uma parte,
guardando a outra parte para si, porque não usava nem queria ter a ser
uma única túnica.
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