CAPÍTULO 96

Depois da volta de Sena e de Celle de Cortona, o bem-aventurado Francisco foi para junto da igreja de Santa Maria da Porciúncula, e depois foi ficar no lugar de Bagnaria, acima de Nocera. Fazia pouco tempo que tinha construído aí uma casa para os frades, para que ali morassem. E lá ficou por muitos dias. E como seus pés, e também as pernas, já tinham começado a inchar por causa da hidropisia, começou a ficar muito doente nesse lugar. Quando as pessoas de Assis ouviram dizer que ele estava doente lá, vieram rapidamente alguns soldados de Assis àquele lugar para leva-lo para Assis, com medo de que morresse ali e outros ficassem com o seu santíssimo corpo. E aconteceu que quando o estavam levando doente, descansaram num castro do condado de Assis, querendo almoçar aí.

O bem-aventurado Francisco com seus companheiros descansou na casa de um homem que o acolheu com alegria e caridade. Mas os soldados foram pelo castro para comprar o que era necessário para seu corpo, mas não encontraram. Voltaram ao bem-aventurado Francisco dizendo-lhe, em brincadeira: “Irmão, vai ser preciso que nos does de tuas esmolas, porque não encontramos nada para comprar”. E o bem-aventurado Francisco disse-lhes com grande fervor de espírito: “Não encontrastes porque confiastes em vossas moscas, isto é, no dinheiro, e não em deus; mas voltai pelas casas às quais já fostes pedindo para comprar e, sem ficar envergonhados, pecai-lhes esmolas por amor de Deus, que o Espírito Santo vai inspira-los e encontrareis com abundância”. Por isso eles foram e pediram esmolas, como lhes dissera o santo pai, e aqueles homens e mulheres lhes deram abundantemente, de tudo que tinham, divertindo-se a valer.

E e voltaram muito alegres ao bem-aventurado Francisco contando-lhe o que tinha acontecido. E tiveram isso por um grande milagre, considerando que na verdade aconteceu à letra o que lhes tinha predito. Pois o bem-aventurado Francisco tinha como a maior nobreza, dignidade e cortesia segundo deus e também segundo este século, pedir esmolas por amor de Deus. Porque tudo que o Pai celeste criou foi para a utilidade do homem, por amor do seu dileto filho, e continua a concede-lo de graça e por esmola depois do pecado, aos dignos e indignos, por amor de seu dileto Filho. Por isso o bem-aventurado Francisco dizia que o servo de Deus deve ir pedir esmolas por amor de deus como mais liberdade do que uma pessoa que, por sua cortesia e liberalidade, querendo comprar alguma coisa, saísse dizendo: “A quem me der tal moeda, darei cem marcos de prata, e até mil vezes mais: porque o servo de Deus oferece o amor de Deus que é merecido pela pessoa que dá esmolas, em cuja comparação tudo que existe neste século e também o que há no céu não é nada”.

Por isso, antes que os frades se tivessem multiplicado, e mesmo depois que se multiplicaram, quando o bem-aventurado Francisco ia pregando pelo mundo, se alguma pessoa nobre e rica com devoção insistisse com ele para comer em sua casa e lá hospedar-se, porque em muitas cidades e castros em que ia pregar ainda não havia lugares dos frades, no seu tempo, ainda que soubesse que a pessoa que o estava convidando tinha preparado abundantemente tudo que é necessário ao corpo por amor do Senhor Deus, ele, para dar bom exemplo aos frades e pela nobreza e dignidade da senhora pobreza, na hora da refeição ia pedir esmolas.

E algumas vezes dizia aos que o tinham convidado: “Eu não quero deixar a minha dignidade real, a herança, a vocação e a minha profissão e dos frades menores. Isso quer dizer ir pedir esmolas, mesmo que não traga mais do que três esmolas, porque quero exercer o meu ofício”. E ia pedir esmolas contra a vontade de quem convidara, que saía com ele, e recebia as esmolas que o bem-aventurado Francisco conseguia e, por devoção a ele, guardava-as como relíquia. Quem escreveu viu isso muitas vezes, e deu testemunho.