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Pois até, certa vez, quando foi visitar o senhor bispo de Hóstia,
que depois foi papa, saiu como que furtivamente, por causa do senhor
bispo, na hora da refeição, e foi pedir esmolas. Quando voltou, o
senhor bispo estava sentado à mesa e comia, principalmente porque
tinha alguns cavaleiros seus consangüíneos para o almoço.
O bem-aventurado Francisco pôs as esmolas em cima da mesa do senhor
bispo, e foi ficar na mesa junto do senhor bispo, porque o senhor
bispo sempre queria que, quando o bem-aventurado Francisco estivesse
em sua casa na hora da refeição, senta-se ao seu lado. E o senhor
bispo ficou um pouco envergonhado por isso,, porque Francisco tinha
isso pedir esmolas, mas não disse nada, principalmente por causa dos
convidados. Depois de ter comido um pouco, o bem-aventurado
Francisco pegou suas esmolas e deu, da parte do Senhor Deus, um
pouco para cada cavaleiro ou capelão do senhor bispo. Todos receberam
igualmente com muita devoção: alguns comeram, outros guardaram por
devoção para com ele. Até tiravam seus chapéus por devoção a
São Francisco quando recebiam as esmolas.
O senhor bispo ficou contente pela devoção deles, principalmente
porque aquelas esmolas não eram de pão de trigo. Depois da
refeição, o bispo levantou-se e entrou em sua sala, levando consigo
o bem-aventurado Francisco, e levantando os braços abraçou o
bem-aventurado Francisco por causa da enorme alegria e exultação,
dizendo-lhe: “Por que, meu irmão simplório, me fizeste passar
essa vergonha de ir pedir esmola na minha casa, que é a casa dos teus
frades? Respondeu-lhe o bem-aventurado Francisco: “Ao
contrário, senhor, eu vos prestei uma grande honra, porque quando um
súdito exerce e cumpre seu ofício e a obediência ao seu senhor,
honra ao seu senhor e aos seu prelado”. E disse-lhe: “Eu tenho
que ser a forma e o exemplo de vossos pobres, principalmente porque sei
que na vida e na Religião dos frades há e haverá frades menores de
nome e de fato, que pelo amor do Senhor Deus e pela unção do
Espírito Santo, que os ensina e há de ensina-lo ssobre tudo, vão
se humilhar m toda humildade, submissão e serviço de seus irmãos.
Também há e haverá daqueles que, ou detidos pela vergonha e por
causa do mau exemplo acham e acharão indigno humilhar-se e
rebaixar-se para ir pedir esmolas e fazer esse tipo de obras servis.
Por isso é preciso que eu ensine por obra os que estão e estarão na
Religião, para que não possam desculpar-se nem neste século nem no
futuro diante de Deus”. Estando, pois, junto de vós, que sois
nosso senhor e apostólico, e junto de magnatas e ricos segundo o
século, que por amor do Senhor Deus não só me recebem com tanta
devoção em suas casas mas até me obrigam a ficar com eles, não
quero ter vergonha de ir pedir esmolas. Até quero ter e manter
segundo deus como uma grande nobreza, dignidade real e honra daquele
sumo rei que, mesmo sendo o senhor de tudo, por nós quis fazer-se o
servo de todos. E sendo rico e glorioso em sua majestade, veio pobre
e desprezado em nossa humanidade.
Por isso quero que saibam os meus frades atuais e futuros que acho que
é a maior consolação da alma e do corpo quando me assento à mesa
pobrezinha dos frades, e vejo na minha frente as esmolas pobrezinhas
que ganham de porta em porta por amor do Senhor Deus, mais do que
quando me assento à vossa mesa ou dos outros senhores, preparada com
abundância de todos os pratos, ainda que me estejam fazendo essa
oferta com muita devoção. Porque o pão da esmola é um pão santo,
santificado pelo louvor e pelo amor de deus, porque quando um frade vai
pedir esmola deve dizer primeiro: Louvado e bendito seja o Senhor
Deus, e depois deve dizer: Dai-nos esmolas por amor do Senhor
Deus”.
E o senhor bispo ficou muito edificado com essa refeição de palavras
do santo pai. E lhe disse: Filho, faz o que é bom aos teus olhos,
porque o Senhor está contigo, e tu com Ele”. Pois era vontade do
bem-aventurado Francisco, e ele disse isso muitas vezes, que um
frade não devia passar muito tempo sem ir pedir esmolas, para que
depois não ficassem envergonhado de ir. Até, quanto mais nobre e
grande tivesse sido o frade no século, tanto mais ficava edificado e
contente quando ia pedir esmolas e fazer esse tipo de obras servis, por
causa do bom exemplo. Porque era assim que se fazia no tempo antigo.
Por isso, no começo da Religião, quando os frades moravam em
Rivotorto, havia um frade entre eles que orava pouco, não trabalhava
e não queria ir pedir esmolas, porque ficava com vergonha; mas comia
bem. Por isso, levando em conta essas coisas, o bem-aventurado
Francisco soube pelo Espírito Santo que se tratava de um homem
carnal. Donde lhe disse; “Vá pelo teu caminho, irmão mosca,
porque queres comer o trabalho de teus irmãos, e queres ser ocioso na
obra de Deus, como o irmão zangão, que não quer produzir e
trabalhar e come o trabalho e o lucro das boas abelhas”. E assim ele
foi pelo seu caminho; e como era carnal, não implorou misericórdia.
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