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Quando o bem-aventurado Francisco jazia muito doente no palácio do
bispado de Assis, naqueles dias em que tinha voltado de Bagnara,
temendo que o santo morresse de noite, sem que eles soubessem, e os
frades levassem ocultamente o santo corpo para coloca-lo em outra
cidade, os habitantes de Assis estabeleceram que todas as noites ele
fosse guardado diligentemente por homens por fora do muro ao redor do
palácio. O bem-aventurado Francisco, embora estivesse muito
doente, para consolar seu espírito, para que alguma vez não
desfalecesse por suas grandes e variadas numerosas enfermidades, fazia
com que seus companheiros cantassem muitas vezes, de dia, os Louvores
do Senhor, que ele mesmo compusera muito tempo antes em sua
enfermidade.
De maneira semelhante também de noite, principalmente para a
edificação daqueles guardas que vigiavam durante a noite, fora do
palácio, por causa dele. Como Frei Elias estivesse achando que o
bem-aventurado Francisco estava se confortando e alegrando tanto no
Senhor, no meio de tão grande doença, disse-lhe um dia:
“Caríssimo irmão, estou muito consolado e edificado com toda essa
alegria que demonstras por ti e por teus companheiros em tão grande
aflição e doença; mas, embora as pessoas desta cidade te venerem
como santo, na vida e na morte, como acreditam firmemente que vais
morrer logo por causa de tua grande e incurável doença, ouvindo
cantar esses Louvores podem pensar ou dizer dentro de si: “Como
demonstra tanta alegria esse que está perto da morte? Pois deveria
pensar na morte”. Disse-lhe o bem-aventurado Francisco: “Tu te
lembras de quando tiveste uma visão em Foligno e me contaste que
alguém te disse que eu não deveria viver mais do que dois anos?
Antes que tivesses aquela visão, pela graça do Espírito Santo,
que sugere todo bem no coração e o coloca na boca de seus fiéis,
muitas vezes, de dia e de noite, eu considerava o meu fim. Mas,
desde aquela hora em que tiveste a visão, fui todos os dias mais
solícito em considerar o dia da morte”. E disse com grande fervor de
espírito: “Irmão, deixa que eu me alegre no Senhor e em seus
louvores, no meio de minhas doenças. Porque, com a cooperação da
graça do Espírito Santo, estou tão unido e e íntimo com o meu
senhor, que por sua misericórdia bem que posso me alegrar no
Altíssimo”.
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