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30. Enquanto o Senhor Bernardo distribuía os seus bens aos
pobres, como ficou dito, estava presente o bem-aventurado
Francisco, observando a virtuosa obra realizada pelo Senhor, e, no
seu coração, o glorificava e louvava. Chegou então um certo
sacerdote chamado Silvestre, de quem o bem-aventurado Francisco
havia comprado pedras para a reforma da igreja de São Damião, e
vendo todo aquele dinheiro sendo gasto por conselho do homem de Deus,
dominado de cupidez, disse-lhe: "Francisco, não me pagaste bem
pelas pedras que de mim compraste". Ouvindo o desprezador da avareza
como ele murmurava injustamente, aproximou-se do senhor Bernardo, e
colocando a mão dentro do manto, onde estava o dinheiro, com grande
fervor de espírito, tirou-a cheia de moedas e deu-as ao presbítero
queixoso. E enchendo outra vez a mão de moedas, perguntou-lhe:
"Estás bem pago agora, senhor sacerdote?" Este respondeu:
"Muito bem pago, irmão". E alegre voltou à sua casa com o
dinheiro recebido.
31. Poucos dias depois, o mesmo sacerdote, inspirado por Deus,
começou a pensar sobre o que o bem-aventurado Francisco tinha feito e
dizia consigo mesmo: "Não sou eu um homem miserável que, sendo
velho, cobiço e procuro as coisas deste mundo, enquanto este jovem,
por amor de Deus, despreza e afasta de si estes bens temporais?'?
Na noite seguinte viu, em sonho, uma cruz imensa. A extremidade
superior tocava os céus, o pé estava fincado na boca de Francisco e
os braços estendiam-se de uma parte a outra do mundo.
Ao despertar, o sacerdote reconheceu e creu firmemente que Francisco
era verdadeiramente amigo e servo de Cristo e a Ordem que ele havia
fundado logo se espalharia pelo mundo inteiro. Assim, começou a ter
mais temor de Deus e a fazer penitência em sua própria casa.
Enfim, depois de pouco tempo, entrou na Ordem, já iniciada, na
qual virtuosamente viveu e gloriosamente encerrou seus dias.
32. O homem de Deus Francisco, tendo-se associado, como foi
dito, a dois irmãos, e não dispondo de morada onde permanecer,
transferiu-se com eles a uma pequena igreja, muito pobre e
abandonada, chamada Santa Maria da Porciúncula, e ali fizeram uma
casinha onde, de vez em quando, se encontravam.
Alguns dias depois, certo cidadão de Assis, chamado Egídio, veio
ter com eles, e com grande reverência e devoção, posto de joelhos,
rogou ao homem de Deus que o recebesse em sua comunidade. E como o
visse muito fiel e devoto e prevendo que alcançaria muita graça por
parte de Deus, como depois ficou patente pelos fatos, com muito boa
vontade o recebeu. Unidos estes quatro, com imensa alegria e gozo do
Espírito Santo, decidiram distribuir-se para maior proveito de
todos da seguinte forma:
33. Tomando consigo a Frei Egídio, o bem-aventurado Francisco
dirigiu-se à Marca de Ancona. Os outros dois partiram para outra
região. E caminhavam pela Marca de Ancona, exultando de alegria no
Senhor, enquanto o santo homem, em voz alta e clara, cantava em
francês os louvores do Senhor, bendizendo e glorificando a bondade do
Altíssimo. Andavam tão alegres como alguém que tivesse encontrado
um grande tesouro no campo evangélico da Senhora Pobreza, por cujo
amor haviam desprezado, voluntária e generosamente, todas as coisas
temporais, considerando-as como esterco. Disse pois o santo a Frei
Egídio: "A nossa Ordem será semelhante a um pescador que atira as
suas redes na água e recolhendo nelas grande multidão de peixes deixa
os pequeninos na água e coloca os grandes nos cestos". Desta forma
profetizou como a Ordem se espalharia.
Embora o homem de Deus ainda não pregasse propriamente ao povo,
contudo, quando passava pelas cidades e aldeias, exortava a todos a
amar e a temer a Deus e a fazer penitência dos pecados. Frei
Egídio admoestava os ouvintes a que aceitassem as palavras de
Francisco, pois eram ótimos os conselhos que lhes dirigia.
34. Aqueles que os ouviam se perguntavam: "Quem são eles? E
que significam as palavras que dizem?" De fato, naquele tempo,
estavam quase extintos o amor e o temor a Deus, nem se conhecia o
caminho da penitência, considerada loucura. A sedução da carne, a
cupidez do mundo e a soberba da vida haviam dominado tanto, que o mundo
inteiro parecia sob o jugo desses males.
Acerca destes homens evangélicos havia diferentes opiniões. Uns
diziam que eram estultos e beberrões, outros afirmavam que suas
palavras não procediam de estultice. Um dos ouvintes disse: "Ou
eles, por amor da suma perfeição, aderiram a Deus, ou com certeza
são loucos, porque suas vidas parecem sem esperança, usam pouco
alimento, andam descalços e se vestem com as piores roupas".
Alguns manifestavam receio, observando-lhes a forma de vida comum, e
não se animavam a segui-los. As mulheres mais jovens, vendo-os de
longe, fugiam apavoradas, temendo-lhes o contágio da estultice e
loucura. Mas tendo percorrido aquela província, voltaram ao lugar
chamado Santa Maria.
35. Depois de alguns dias, achegaram-se a eles outros três homens
de Assis: Sabatino, Mórico e João de Capela, suplicando ao
bem-aventurado Francisco para que os recebesse como irmãos. Ele os
acolheu humilde e benignamente.
Mas andando pela cidade pedindo esmolas, quase nada recebiam, antes
eram injuriados pelas pessoas que diziam terem eles deixado seus bens
para comer os dos outros. E assim sofriam a máxima penúria. Seus
parentes e consangüíneos também os perseguiam, e os outros da cidade
os escarneciam como insensatos e estultos, porque naquele tempo
ninguém deixava seus bens para pedir esmolas de porta em porta.
O bispo da cidade de Assis, a quem freqüentemente o homem de Deus
procurava para se aconselhar, recebeu-o benignamente e disse-lhe
certa vez: "Vossa vida parece-me dura e áspera, sem os recursos
dos bens temporais". Ao que o santo respondeu: "Senhor, se
possuíssemos haveres, ser-nos-iam necessárias armas para nossa
proteção. Pois é daí que surgem litígios e contendas que de
muitas maneiras costumam impedir o amor de Deus e do próximo.
Portanto, neste século não queremos possuir nada de temporal".
Muito agradou ao bispo a resposta do homem de Deus, que desprezara
todas as coisas transitórias e especialmente o dinheiro. Tanto as
desprezou, que em todas as suas Regras muito recomendava a pobreza,
querendo que todos os irmãos evitassem o dinheiro com todo o empenho.
Compilou, de fato, várias Regras e experimentou-as antes de
redigir a última que legou aos irmãos. Numa delas, disse, como
execração do dinheiro: "Nós que tudo deixamos, guardemo-nos de
perder o reino dos céus por coisa tão mesquinha. E se encontrarmos
dinheiro em algum lugar, dele não façamos conta mais do que da poeira
que calcamos aos pés".
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