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41. Vendo que os irmãos se alegravam em suas tribulações,
perseveravam solícita e devotamente na oração, não recebiam
dinheiro nem o levavam consigo e tinham entre si a máxima caridade por
meio da qual eram conhecidos como verdadeiros discípulos do Senhor,
muitos, compungidos no coração, vinham a eles, pedindo perdão das
ofensas que lhes haviam feito. Eles pois lhes perdoavam de todo o
coração, dizendo: "Deus vos perdoe", e eficazmente os
admoestavam acerca de sua salvação.
Alguns rogavam aos irmãos que os recebessem em sua comunidade. Como
aqueles seis tinham autoridade concedida pelo bem-aventurado Francisco
de aceitar novos irmãos na Ordem, por causa do seu pequeno número,
receberam alguns na comunidade, e com eles, no tempo estabelecido,
voltaram a Santa Maria da Porciúncula. Ao se encontrarem de novo,
ficavam cheios de tanta alegria e contentamento, que já não se
lembravam dos sofrimentos que os maus lhes haviam infligido. Viviam
todos dedicados, à oração e ao trabalho, manual, para afastar toda
ociosidade, inimiga da alma. Cuidavam de levantar-se durante a noite
para orar com muita devoção e com lágrimas e suspiros. Amavam-se
com entranhado amor e cada qual servia o outro como a mãe nutre seu
filho único e dileto. Ardia neles tanto a caridade, que lhes parecia
fácil entregar seus corpos à morte, não só por amor de Cristo,
mas também pela salvação da alma ou pela saúde do corpo de seus
irmãos.
42. Certo dia, por exemplo, dois destes irmãos, caminhando
juntos, encontraram um louco, que começou a atirar-lhes pedras.
Vendo um deles que as pedras iam ferir o outro, logo se colocou na
frente, preferindo que elas o atingissem e não ao outro irmão, por
causa da mútua caridade em que ardiam. Estavam prontos a dar a vida
um pelo outro.
Tão fundamentados e arraigados viviam na humildade e na caridade, que
um reverenciava o outro como pai e senhor, e aqueles que, ou por
ofício do cargo, ou por algum dom natural, eram superiores,
consideravam-se os mais miseráveis e desprezíveis. Todos também
ofereciam-se para obedecer, sempre prontos à vontade de quem dava
alguma ordem. Não faziam distinção entre preceito justo ou
injusto, porque tudo o que era ordenado julgavam conforme à vontade do
Senhor. Assim, observar os preceitos era para eles fácil e suave.
Abstinham-se dos desejos carnais, usavam de autocrítica e cuidavam
de a ninguém ofender por nenhum modo.
43. E se acontecia alguma vez de alguém dizer ao outro qualquer
palavra que pudesse ofendê-lo, tanto lhe remordia a consciência,
que não podia descansar até que não confessasse a sua culpa,
prostrando-se no chão, humildemente, a fim de que o irmão ofendido
lhe pusesse o pé sobre a boca. Se o irmão ofendido não quisesse
pôr o pé sobre a boca do ofensor, este, sendo superior,
ordenava-lhe em nome da obediência; mas se o ofensor era súdito,
ele mesmo fazia com que tal lhe fosse ordenado pelo superior. Assim
esforçavam-se por afastar todo rancor e malícia, conservando sempre
entre si a perfeita caridade. Empenhavam-se ao máximo em opor a cada
vício a virtude correspondente, mediante o apoio da graça de Jesus
Cristo.
Além do mais, nada reivindicavam como próprio, mas serviam-se dos
livros e outros objetos que colocavam para uso comum, segundo a forma
observada e transmitida pelos apóstolos.
Embora existisse a verdadeira pobreza neles e entre eles, eram contudo
liberais e pródigos com todas as coisas que Deus lhes concedia, dando
de boa vontade por amor do mesmo Deus a todos que pedissem e
especialmente aos pobres as esmolas a eles oferecidas.
44. Quando pelo caminho encontravam pobres a pedir esmola, por amor
de Deus, não tendo o que oferecer, davam-lhes alguma peça de suas
roupas, embora de nenhum valor. Ora cediam o capuz, separando-o do
hábito, ora a manga ou outra peça, descosendo-a da túnica para
cumprir com o preceito evangélico: "Dá a todo que te pedir".
Certa vez chegou um pobre à igreja de Santa Maria da Porciúncula,
onde, às vezes, os irmãos moravam, e pediu esmola. Havia um manto
que um irmão usara no mundo. Disse-lhe o bem-aventurado Francisco
que o desse ao pobre; de boa vontade correu ele e o entregou ao pobre.
Pela reverência e devoção com que o irmão havia dado aquela esmola
ao pobre, pareceu-lhe ver aquela esmola subindo ao céu e sentiu-se
inundado de novo júbilo.
45. Os ricos deste mundo que vinham a eles eram recebidos alegre e
benignamente. Os irmãos esforçavam-se por fazê-los abandonar o
caminho do mal, chamando-os à penitência. Pediam também com
insistência para não serem enviados às terras de onde eram oriundos,
a fim de fugirem à familiaridade e convivência com seus
consangüíneos, e observar a palavra profética: "Tornei-me
estranho aos meus irmãos e peregrino aos filhos de minha mãe".
Muito se alegravam na pobreza, porque não cobiçavam riquezas, mas
desprezavam tudo o que é transitório e objeto da cobiça dos amantes
deste mundo. Especialmente o dinheiro, calcavam-no aos pés como
poeira, e assim como haviam aprendido do santo, consideravam-no do
mesmo valor e preço como se fosse esterco de asno.
Regozijavam-se continuamente no Senhor pois não tinham motivo algum
de tristeza. De fato, quanto mais longe do mundo, tanto mais unidos
a Deus. Seguindo o caminho da cruz e as sendas da justiça, removiam
os obstáculos do caminho estreito da penitência e da observåncia
evangélica, a fim de que ele se tornasse plano e seguro para os que
viessem depois.
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