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54. Desde então, o bem-aventurado Francisco, percorrendo
cidades e aldeias, começou a pregar por toda parte com mais amplitude
a perfeição, não com palavras persuasivas de sabedoria humana, mas
permanecendo fiel à doutrina e pelo poder do Espírito Santo,
anunciando com toda fidelidade o reino de Deus. Pois era pregador
autêntico, escudado na autoridade apostólica, inimigo de adulações
e palavras lisonjeiras. Aquilo que ensinava pela palavra aos outros,
ele mesmo praticava por suas obras, de maneira que podia
tranqüilamente falar a verdade. Pessoas letradas e cultas admiravam
em seus sermões o poder e a verdade que nenhum homem lhe havia
ensinado. Muitíssimos se apressavam para vê-lo e ouvi-lo como um
homem de outra época. Por isso, muitos do povo, nobres e plebeus,
clérigos e leigos, por divina inspiração, começaram a aderir aos
exemplos do bem-aventurado Francisco e, desprezando preocupações e
pompas mundanas, abraçaram o seu modo de viver.
55. O feliz Pai Francisco e seus filhos viviam em comum num lugar
perto de Assis chamado Rivotorto, onde encontraram uma cabana
abandonada. Era tão apertada que ali mal podiam sentar e repousar.
E muitas vezes, não tendo pão, comiam rabanetes que mendigavam aqui
e acolá naquela penúria. E para que cada um dos irmãos conhecesse o
lugar que lhe cabia para orar e repousar e não fosse incomodado por
qualquer ruído que estorvasse o silêncio mental por causa da
estreiteza de espaço, o homem de Deus escreveu o nome de cada um nas
vigas daquela choça.
Mas certo dia, estando os irmãos nesse lugar, aconteceu que um
vilão ali apareceu com seu asno querendo abrigar-se no tugúrio; e
para não ser repelido pelos irmãos, entrando com o animal lhe
gritava: "Entra, entra, pois faremos bem a este lugar". O santo
pai, ouvindo isto e conhecendo a intenção do vilão, sentiu muito
pesar. especialmente porque havia feito barulho com o jumento,
perturbando todos os irmãos entregues ao silêncio e à oração.
Disse pois o homem de Deus aos irmãos: "Irmãos, sei que Deus
não nos chamou para preparar hospedagem ao burro e para sermos
importunados pelos homens, mas para que pregando, de tempo a tempo, o
caminho da salvação, e dando salutares admoestações, possamos
principalmente nos dedicar à oração e à ação de graças".
Abandonaram pois o tugúrio e. deixando-o para uso de pobres
leprosos, se transferiram a Santa Maria da Porciúncula, onde por
algum tempo haviam morado numa pequena casa, antes de conseguirem a
igreja.
56. Mais tarde, o bem-aventurado Francisco, por prévia vontade
e inspiração de Deus, obteve-a humildemente do abade de São
Bento do monte Subásio, perto de Assis. O próprio santo a
encarecia e afetuosamente a recomendava ao ministro geral e a todos os
irmãos como o lugar predileto da Virgem gloriosa, entre todos os
lugares e igrejas deste mundo.
Para estima e afeição deste mesmo lugar muito contribuiu uma visão
que certo irmão teve quando ainda no século, e a quem o
bem-aventurado Francisco amava com singular afeto, durante todo o
tempo que esteve com ele, mostrando-lhe particular familiaridade.
Este irmão, pois, desejando servir a Deus, como mais tarde na
Ordem fielmente o fez, viu, em visão, que todos os homens deste
mundo estavam cegos e ajoelhados em torno de Santa Maria da
Porciúncula, e, com as mãos juntas, o rosto voltado para o céu,
em voz alta e lacrimosa, Pediam ao Senhor que se dignasse, por sua
misericórdia, iluminar a todos. Estando assim todos em oração,
parecia vir do céu um grande esplendor, que descia sobre eles e a
todos iluminava com uma luz salutar.
Acordando esse irmão, propôs-se servir a Deus com mais firmeza e,
pouco depois, abandonando este século perverso com suas pompas,
entrou na Ordem onde permaneceu no serviço de Deus, humilde e
devotamente.
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