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57. Após ter obtido do mencionado abade o referido lugar de Santa
Maria, ordenou o bem-aventurado Francisco que ali se realizasse o
capítulo duas vezes por ano, a saber: na festa de Pentecostes e na
dedicação de São Miguel. Na festa de Pentecostes reuniam-se
todos os irmãos em Santa Maria, discutiam a maneira como pudessem
fielmente observar a Regra, designavam os irmãos que nas diversas
províncias pregassem ao povo e determinavam os que deviam residir em
suas províncias. São Francisco admoestava, repreendia e dava
preceitos, como lhe parecia conforme ao conselho do Senhor. Tudo o
que lhes dizia por meio de palavras, mostrava-o afetuosa e
solicitamente com os exemplos. Venerava os prelados e sacerdotes da
Santa Igreja, honrava também os mais velhos, nobres e ricos, mas
amava aos pobres do fundo do coração, compadecendo-se deles, e a
todos mostrava-se submisso. Mesmo sendo superior de todos os
irmãos, queria que um deles morasse com ele e fosse seu guardião e
senhor, a quem, para fugir de toda ocasião de soberba, obedecia
humilde e devotamente. Entre os homens humilhava-se até o chão,
para merecer, algum dia, ser exaltado entre os santos e eleitos de
Deus, na presença divina.
Admoestava com solicitude os irmãos a observarem firmemente o santo
Evangelho e a Regra que haviam firmemente professado, especialmente
que fossem reverentes e devotos no que diz respeito aos ofícios divinos
e às ordenações eclesiásticas, participando com fervor da missa e
adorando o Corpo do Senhor com toda a devoção. Quis também que
fossem honrados de maneira particular os sacerdotes que celebram os
santíssimos mistérios, a tal ponto que, onde os encontrassem,
inclinando a cabeça, lhes beijassem as mãos. E quando os vissem a
cavalo, queria que beijassem não somente suas mãos, mas até as
patas dos cavalos que montavam, em reverência à autoridade deles.
58. Advertia também os irmãos que não julgassem homem algum nem
desprezassem os que vivem na moleza e se vestem elegante e
superfluamente: "Pois Deus é Senhor nosso e deles, e tem o poder
de chamá-los a si e torná-los justos". Dizia também e queria que
os irmãos os reverenciassem como irmãos e senhores, porque eles são
irmãos enquanto criados pelo mesmo Criador, e são os senhores
enquanto ajudam os bons a fazer penitência, ministrando tudo o que é
necessário ao corpo; e, dizendo estas coisas, acrescentava: "A
vida dos irmãos entre os homens deveria ser de tal forma que todo
aquele que os visse e os escutasse, glorificasse e devotamente louvasse
o Pai celeste".
Era seu grande desejo que ele e seus irmãos tão ricos se mostrassem
em boas obras, que por elas o Senhor fosse louvado, e dizia-lhes:
"A paz que anunciais com a boca mais deveis tê-la em vossos
corações. Ninguém seja por vós provocado à ira ou ao escåndalo,
mas todos, por vossa mansidão, sejam levados à paz, à benignidade
e à concórdia. Pois é para isto que fomos chamados: para curar os
feridos, reanimar os abatidos e trazer de volta os que estão no erro.
Pois muitos que agora parecem seguidores do diabo ainda virão a ser
discípulos de Cristo".
59. O piedoso pai também corrigia os irmãos demasiadamente
austeros consigo mesmos, que se entregavam excessivamente a vigílias,
jejuns e exercícios corporais. Alguns, de fato, usavam com tanto
rigor o cilício, para reprimir toda sensualidade carnal, que mais
pareciam odiar-se a si mesmos. Proibia-lhes o homem de Deus tais
exageros, admoestando-os e repreendendo-os com sabedoria e
benignidade. Atava-lhes as feridas provocadas por seus rigores,
lembrando-lhes preceitos salutares.
Entre os irmãos que iam ao capítulo ninguém ousava tratar de
negócios seculares, mas confabulavam acerca das vidas dos Santos
Padres e sobre a melhor e mais perfeita maneira de alcançar a graça
do Senhor Jesus Cristo. Se alguns dos irmãos que compareciam ao
capítulo sofriam tentações ou tribulações, eram libertados
maravilhosamente, ouvindo o bem-aventurado Francisco falar tão suave
e fervorosamente e vendo-lhe a paciência. Pois, compadecido deles,
falava-lhes não como juiz, mas como um pai misericordioso, como bom
médico, sabendo ser enfermo com os enfermos e atribulado com os
atribulados. Repreendia, contudo, os faltosos e reprimia os rebeldes
com a devida admoestação.
Terminado o capítulo, abençoava a todos os irmãos e distribuía-os
pelas diversas províncias. A quem tivesse o Espírito de Deus e
eloqüência necessária para pregar, fosse clérigo ou leigo,
dava-lhe a devida permissão. E recebendo sua bênção, com grande
júbilo do espírito, como peregrinos e estrangeiros, andavam pelo
mundo, nada levando pelo caminho, a não ser os livros do ofício para
recitar as horas. Em qualquer lugar que encontrassem um sacerdote,
rico ou pobre, bom ou mau, inclinando-se humildemente prestavam-lhe
reverência, e na hora de se hospedarem, preferiam ficar com os
sacerdotes e não com os leigos.
60. Quando não conseguiam hospedagem junto aos sacerdotes,
buscavam-na entre homens mais religiosos e tementes a Deus, com os
quais encontrassem alojamento mais conveniente, até que o Senhor
inspirasse algumas pessoas tementes a Deus que lhes preparassem
hospedagem em cada cidade e aldeia que pretendessem visitar, isso até
o tempo em que se construíram moradas para eles nas cidades e aldeias.
O Senhor lhes acudia oportunamente com palavra e espírito que
penetravam profundamente nos corações de jovens e velhos, que
abandonando pai e mãe e tudo o que possuíam, seguiam os irmãos,
tomando o hábito da Ordem. Na verdade a espada que separa veio à
terra fazendo os jovens acorrer à religião, abandonando seus parentes
entre as fezes dos pecados. Conduziam então os que haviam admitido à
Ordem ao bem-aventurado Francisco, de quem recebiam o hábito
religioso, com devoção e humildade.
Não somente os homens se convertiam à Ordem, mas também muitas
virgens e viúvas, compungidas pelas suas pregações e. seguindo seu
conselho, enclausuravam-se nos mosteiros espalhados pelas cidades e
aldeias para fazer penitência. E constituiu-se para elas um dos
irmãos como visitador e conselheiro. Da mesma forma, homens e
mulheres casados, não podendo abandonar a lei do matrimônio,
entregavam-se, pelo salutar conselho dos irmãos, a uma penitência
mais rigorosa em suas próprias casas. E assim, por meio do
bem-aventurado Francisco, adorador perfeito da Santíssima
Trindade, a Igreja de Deus foi renovada com três Ordens, conforme
prefigurava a reforma das três igrejas. E cada uma destas Ordens,
em seu devido tempo, foi confirmada pelo Sumo Pontífice.
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