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62. Onze anos haviam decorrido desde o início da Ordem. E nesse
tempo cresceram o número e o mérito dos irmãos. Então foram
escolhidos ministros e enviados com alguns irmãos a quase todas as
partes do mundo, nas quais se venerava e vivia a fé católica. Eram
recebidos em algumas províncias, mas não se lhes permitia construir
habitações; de outras eram expulsos como hereges, porque, embora o
Senhor Papa Inocêncio III tivesse aprovado a Ordem e a Regra,
não as havia ainda confirmado por carta; por isso os irmãos sofreram
muitas tribulações de clérigos e leigos. Por este motivo, os
irmãos foram obrigados a fugir de várias províncias, e assim,
angustiados e aflitos, e também espoliados e espancados por ladrões,
voltaram com grande amargura ao bemaventurado Francisco. Sofreram
isto em quase todas as regiões ultramontanas, como na Alemanha, na
Hungria e em outras.
Ao saber desses fatos, o cardeal chamou a si o bem-aventurado
Francisco e o levou ao Senhor Papa Honório, pois o Papa
Inocêncio havia morrido. O bem-aventurado Francisco redigiu uma
outra Regra sob a inspiração de Cristo e a fez confirmar solenemente
em bula pelo mesmo Senhor Papa Honório. Nesta Regra se prolongou
o tempo do capítulo, para facilitar aos irmãos que habitavam em
remotas regiões.
63. O bem-aventurado Francisco se propôs também pedir ao Senhor
Papa Honório um dos cardeais da Igreja Romana que fosse como o papa
de sua Ordem, o Senhor Bispo de Óstia, ao qual os irmãos pudessem
recorrer em suas necessidades.
De fato o bem-aventurado Francisco tivera uma visão que pode tê-lo
induzido a pedir um cardeal e colocar a Ordem sob a proteção da
Igreja Romana. Vira uma galinha pequena e preta com as pernas
emplumadas, e as patas como as de uma pomba doméstica, com tantos
pintinhos que não podia acolher a todos debaixo das asas, ficando
muitos de fora em torno dela.
Acordando, pôs-se a pensar sobre o significado da visão, e logo,
pelo Espírito Santo, reconheceu ser ele mesmo aquela galinha e
disse: "Eu sou essa galinha, pequena de estatura e negra por
natureza. Devo ser simples como uma pomba e, com as plumas das
virtudes que me cumpre amar, voar ao céu. O Senhor, por sua
misericórdia, deu-me e dar-me-á muitos filhos, que não poderei
proteger só com minhas forças. Portanto, é necessário que os
coloque debaixo da proteção da Santa Igreja, a fim de que os
proteja e governe à sombra de suas asas".
64. Poucos anos depois desta visão, foi a Roma e visitou o
Senhor Bispo de Óstia. Este ordenou-lhe que no dia seguinte, bem
cedo, fosse com ele à Cúria, pois desejava que fizesse uma
pregação diante do Senhor Papa e dos cardeais e lhes recomendasse,
devota e afetuosamente, sua Ordem. Embora o bem-aventurado
Francisco se escusasse, dizendo que era simples e ignorante, teve que
ir com ele à Cúria.
Quando o bem-aventurado Francisco se apresentou diante do Senhor
Papa e dos cardeais, foi acolhido por eles com grande alegria.
Levantou-se e pregou-lhes como havia sido instruído unicamente por
inspiração do Espírito Santo. Terminada a pregação, recomendou
sua Ordem ao Senhor Papa e a todos os cardeais. Eles ficaram muito
edificados com as palavras de Francisco e começaram a amar com mais
afeto sua Ordem.
65. Em seguida disse o bem-aventurado Francisco ao Sumo
Pontífice: "Senhor, compadeço-me de vós pela solicitude e
trabalho contínuo com que deveis velar sobre a Igreja de Deus, e
muito me envergonho que tenhais tanta preocupação e solicitude por
nós, irmãos menores. De fato, enquanto muitos nobres e ricos e
muitos religiosos não podem chegar a vós, grande deve ser o nosso
receio e escrúpulo, pois que somos os mais pobres e desprezíveis
entre todos os religiosos, já não digo por comparecer perante vós,
mas por estar à vossa porta e ter a presunção de bater ao
tabernáculo da fortaleza dos cristãos. Portanto, suplico humilde e
devotamente a Vossa Santidade que vos digneis conceder-nos o Senhor
Bispo de Óstia como pai, para que os irmãos possam recorrer a ele no
tempo da necessidade, salva sempre a dignidade de vossa autoridade".
Este pedido agradou ao Senhor Papa, que concedeu ao bem-aventurado
Francisco o Senhor Bispo de Óstia como digníssimo protetor de sua
Ordem.
66. Este recebeu a Ordem do Senhor Papa e logo pôs mãos à obra
para defender os irmãos, escrevendo a muitos prelados que os haviam
perseguido, a fim de que daí para frente não lhes fossem adversos.
Antes, dessem-lhes conselho e auxílio para pregar e morar em suas
províncias, como a bons e santos religiosos aprovados pela autoridade
da Sé Apostólica. Da mesma forma, muitos outros cardeais
escreveram cartas com o mesmo objetivo.
No capítulo seguinte o bem-aventurado Francisco concedeu licença
aos ministros para receberem irmãos na Ordem e enviou-os às
mencionadas províncias, levando cartas dos cardeais juntamente com a
Regra confirmada pela bula apostólica. Vendo tudo isto e conhecendo
os testemunhos dados pelos irmãos, os prelados liberalmente
concederam-lhes morar e pregar em suas províncias. Vendo seu modo de
vida humilde e santa e ouvindo suas dulcíssimas palavras que comoviam e
inflamavam as mentes ao amor de Deus e a fazer penitência, muitos
procuraram e receberam o hábito de sua santa Ordem, com fervor e
humildade.
67. Ao ver o bem-aventurado Francisco a confiança e o amor que o
Senhor Bispo de Óstia tinha para com os irmãos, amava-o
afetuosamente com todas as veras do coração. Sabendo por revelação
de Deus que aquele seria o futuro Sumo Pontífice, nas cartas que
lhe escrevia, chamava-o de Pai do mundo inteiro, nestes termos:
"Ao venerável em Cristo, Pai do mundo inteiro..."
Pouco tempo depois, tendo morrido o Senhor Papa Honório III, o
Senhor Bispo de Óstia foi eleito Sumo Pontífice com nome de
Gregório IX, o qual até o fim da vida foi insigne benfeitor e
defensor dos irmãos e dos outros religiosos, especialmente dos pobres
de Cristo. Por isso justamente se crê que tenha sido acolhido entre
os santos.
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