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68. Vinte anos após, desde o momento em que se havia conformado
perfeitissimamente a Cristo seguindo a vida e as pegadas dos
apóstolos, o homem apostólico Francisco, no ano da Encarnação do
Senhor 1226, dia 4 de outubro, domingo, voltou a Cristo,
tendo conseguido, após muitos trabalhos, o eterno descanso, e
apresentou-se dignamente diante do Senhor. Um de seus discípulos,
famoso por santidade, viu sua alma subir diretamente ao céu como uma
estrela do tamanho da lua, e quase tão brilhante como o sol.
Elevava-se sobre muitas águas e tinha por baixo uma nuvenzinha
branca.
Havia de fato trabalhado muito na vinha do Senhor, solícito e
fervoroso nas orações, nos jejuns, nas vigílias, nas pregações e
nas salutares peregrinações, no trato e na compaixão dos irmãos, e
no desprezo de si mesmo, desde o início de sua conversão até seu
trånsito para o Cristo, a quem amara de todo o coração, tendo
sempre presente sua memória, louvando-o com os lábios e
glorificando-o com obras frutuosas. Amava tanto a Deus que, ouvindo
falar seu nome, consumia-se todo em seu íntimo e clamava publicamente
que o céu e a terra deviam inclinar-se ao nome do Senhor.
69. O próprio Deus, querendo mostrar ao mundo inteiro o fervor
desse amor e a perene memória da paixão de Cristo, que Francisco
trazia em seu coração, honrou-o magnificamente, ainda em vida, com
a admirável prerrogativa de um singular privilégio.
Ardia ele em seráfico amor a Deus e àquele que por extremos de
caridade quis ser crucificado E já próxima a festa da Exaltação da
Santa Cruz, dois anos antes de sua morte, transformou-se
misticamente ao orar certa manhã no monte chamado Alverne, e lhe
apareceu um Serafim com seis asas, entre as quais se via a forma de um
belíssimo homem crucificado, com as mãos e os pés estendidos em
forma de cruz, representando com toda evidência a imagem de Nosso
Senhor Jesus Cristo. Duas asas cobriam-lhe a cabeça, outras duas
todo o corpo até os pés, e outras duas se estendiam para voar.
Desapareceu a visão, mas na alma de Francisco permanecia acesa
extraordinária chama de amor, enquanto na carne ainda mais
admiravelmente se viam impressos os estigmas do Senhor Jesus Cristo.
O homem de Deus procurou ocultar esse fato até à morte, não
querendo tornar público o segredo do Senhor. Mas não conseguiu
escondê-lo plenamente. Alguns companheiros mais íntimos vieram a
saber.
70. Mas depois de seu felicíssimo trånsito, todos os irmãos
presentes e muitíssimos leigos viram perfeitamente seu corpo ornado com
os estigmas de Cristo. De fato em suas mãos e pés aparecia não a
marca de perfuração dos pregos, mas os próprios pregos, formados e
nascidos de sua carne, e da cor escura do ferro. O lado direito,
como que traspassado pela lança, mostrava uma cicatriz vermelha de
verdadeira e evidente chaga, donde muitas vezes em vida vertia sangue
sagrado.
A verdade inegável desses estigmas manifestou-a Deus claramente não
só na vida e na morte, pelo que deles se podia ver e palpar, mas
também depois de sua morte pelos muitos milagres em várias partes do
mundo. Por causa desses milagres, muitos que não haviam julgado
retamente acerca do homem de Deus, pondo em dúvida seus estigmas,
chegaram a tanta certeza, que, se antes haviam sido seus detratores,
pela bondade atuante de Deus e compelidos pela verdade, tornaram-se
dele fidelíssimos devotos e defensores.
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