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2. Oriundo da cidade de Assis, situada nos limites do vale de
Espoleto, Francisco recebeu de sua mãe o nome de João; no
entanto, seu pai, em cuja ausência o menino nascera, ao voltar da
França lhe impôs o nome de Francisco. Já adulto e bem dotado,
exerceu o ofício paterno nas lides do comércio, mas de forma
completamente diversa, pois era muito mais alegre e liberal que ele.
Vivia na boemia jogralesca, passeando de dia e de noite pela cidade de
Assis, em companhia de amigos do mesmo temperamento, pródigo nos
gastos e dissipando tudo o que tinha e ganhava em banquetes e festas e
outras superfluidades.
Os pais o repreendiam por isso, dizendo que pelas grandes despesas que
ele fazia consigo e com os outros não parecia ser filho deles, mas de
algum grande príncipe. Como, porém, eram ricos e o amavam com
ternura, permitiam-lhe tais extravagåncias, para não
entristecê-lo. Quando a mãe de Francisco ouvia as vizinhas
comentar acerca de sua prodigalidade, respondia: "Que pensais de meu
filho? Ainda terá a graça de ser um santo de Deus!"
Não só era generoso em tudo, e mesmo pródigo, como também se
excedia nas muitas maneiras de vestir, trajando roupas mais caras do
que lhe seria conveniente. Sua extravagåncia chegava ao ponto de
colocar remendos ordinários em seus trajes de fazenda caríssima.
3. Era contudo naturalmente comedido nos costumes e nas palavras.
Guardava o firme propósito de jamais dirigir injúrias a quem quer que
fosse. Antes, sendo jovem, brincalhão e boêmio, fez consigo mesmo
o propósito de nunca responder a quem lhe falasse torpezas. Por
isso, correu sua fama por quase toda a província, e todos os que o
conheciam afirmavam que ele era chamado a ser homem de grande valor.
Partindo destes graus de virtudes naturais, chegou a tal perfeição
que dizia a si mesmo, depois da conversão: "Se és generoso e
cortês com os homens de quem não recebes coisa alguma, a não ser
favores transitórios e de pouco proveito, é justo que, por amor de
Deus, que é generosíssimo em retribuir, o sejas também com os
pobres". E, desde então, olhava-os com prazer, dando-lhes
copiosas esmolas. Embora comerciante, mostrava-se muito vaidoso em
dissipar os bens terrenos.
Certo dia, estando na loja entretido na venda de panos, veio um pobre
pedir esmola pelo amor de Deus. Absorto como estava na ganåncia das
riquezas, negou-lhe a esmola; mas logo, tocado pela graça divina,
repreendeu-se por tanta rudeza, dizendo: "Se aquele pobre tivesse
pedido algo em nome de algum conde ou barão, com certeza o terias
atendido, quanto mais não o deverias ter feito pelo Rei dos reis e
Senhor de todos!"
Pelo que, de então em diante, propôs em seu coração nunca mais
negar o que pedissem em nome de tão grande Senhor.
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