|
7. Depois que voltou a Assis, certa noite foi escolhido como líder
pelos seus companheiros, a fim de que, segundo sua vontade, ordenasse
os gastos. Mandou pois preparar um suntuoso banquete, como muitas
outras vezes havia feito.
Após a refeição saíram de casa; os campanheiros iam na frente
cantando pelas ruas da cidade, e ele, sendo líder, um pouco atrás
sustentando na mão um bastão. Não ia cantando, mas meditando com
atenção. E. de repente, o Senhor o visitou, e seu coração
ficou repleto de tanta doçura, que não podia nem falar, nem se
mexer, e era incapaz de sentir ou de ouvir outra coisa, a não ser
aquela doçura que de tal modo o alienava do sentido carnal, que, como
ele mesmo disse depois, mesmo se naquele momento fosse cortado em
pedaços, não poderia mover-se daquele lugar.
Os companheiros olharam para trás e o viram distanciado.
Aproximando-se, repararam, espantados, que ele se transformava por
assim dizer em outro homem. E perguntaram-lhe: "Em que estás
pensando? Por que não nos segues? Por acaso pensas em casar-te?"
Respondeu-lhes com viva voz: "Dissestes a verdade, eu estava
pensando em escolher uma esposa, a mais nobre, a mais rica e mais bela
que jamais vistes". Zombaram dele. Francisco disse isto não por si
mesmo, mas inspirado por Deus; pois essa esposa era a verdadeira
religião que abraçou, mais, nobre, mais rica e mais bela que as
outras por causa da pobreza.
8. A partir desse momento começou a considerar de pouco valor e a
desprezar as coisas que havia amado, mas ainda não estava plena e
intimamente desligado das vaidades do mundo. Aos poucos, porém,
subtraindo-se ao tumulto do mundo, procurava guardar no seu interior a
Jesus Cristo e quase todos os dias ia freqüente e secretamente fazer
orações, ocultando aos olhos dos iludidos a pedra preciosa que
desejava comprar mesmo tendo que vender tudo.
Embora no passado sempre tivesse sido benfeitor dos pobres, contudo,
desde esse instante, propôs em seu coração dar esmolas. com maior
boa vontade e mais copiosamente que de costume, nunca negando-a a quem
pedisse pelo amor de Deus. Portanto, se fora de casa algum pobre lhe
pedisse esmola, se pudesse fornecia-lhe dinheiro. Estando sem
dinheiro, dava-lhe o gorro ou o cinturão, a fim de não mandá-lo
embora de mãos vazias. Se nem isto tivesse, ia em lugar oculto,
tirava a camisa e a colocava no pobre, privando-se dela por amor de
Deus. Comprava também utensílios necessários ao decoro das igrejas
e os enviava ainda mais secretamente aos sacerdotes mais pobres.
9. Na ausência do pai, mesmo ficando sozinho em casa para comer
somente com a mãe, enchia a mesa de pães, como se estivesse
preparando a refeição para a família toda. Quando a mãe lhe
perguntava por que punha tantos pães à mesa, respondia que fazia isto
para dá-los aos pobres, porque havia prometido dar esmolas a todos
que a pedissem por amor de Deus. A mãe que o amava mais que a todos
os outros filhos, permitia-lhe que assim agisse, observando tudo o
que fazia e muito se admirando em seu coração acerca de todos os seus
atos.
Outrora costumava atender pressurosamente aos companheiros que o
chamavam. E tanto se apegara a eles, que, muitas vezes, se
levantava da mesa antes de terminar a refeição, deixando os pais
aflitos por esse comportamento. Mas agora seu coração se voltava
inteiramente para os pobres a fim de vê-los, ouvi-los e dar-lhes
esmolas.
10. Desta maneira, transformado pela graça de Deus, embora ainda
em hábito secular, desejava estar em alguma cidade, onde,
desconhecido, pudesse tirar as próprias roupas e, em troca, vestir
as roupas de algum pobre, para experimentar pedir esmolas pelo amor de
Deus.
E por essa época foi ele a Roma em peregrinação. Entrando na
igreja de São Pedro, observava as ofertas de certas pessoas e achou
que eram muito pequenas, e disse consigo mesmo: "Se o Príncipe dos
Apóstolos deve ser honrado com magnificência, como é que essa gente
faz ofertas tão mesquinhas, aqui, onde repousa o seu corpo?" E
levado de grande fervor, pôs a mão na bolsa, e tirando um punhado de
moedas, atirou-as pela janelinha do altar com violência, fazendo
tanto ruído, que todos os presentes muito se admiravam de tão
magnífica oferta.
Depois saiu às portas da igreja onde havia muitos mendigos pedindo
esmolas. Trocou, secretamente, os farrapos de um dos mais pobres e
os vestiu, tirando as suas vestes. Colocou-se nos degraus da igreja
a pedir esmola com os outros pobres em francês, pois gostava de falar
esse idioma, embora não o conhecesse perfeitamente.
Depois, tirou os farrapos e retomou suas vestes. Voltou a Assis e
começou a rogar ao Senhor que lhe dirigisse os passos. Não revelava
seu segredo a ninguém e, sobre isto, a nenhuma pessoa pedia
conselho, exceto a Deus que começara a orientar o seu caminho, e,
excepcionalmente, ao bispo de Assis, porque, naquele tempo, todos
desconheciam a verdadeira pobreza que ele almejava acima de tudo neste
mundo, na qual queria viver e morrer.
|
|