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11. Certo dia, estando a orar com mais fervor, ouviu a seguinte
resposta: "Francisco, se quiseres conhecer a minha vontade,
deverás desprezar e odiar tudo o que carnalmente amaste e desejaste
possuir. Depois que começares a fazer assim, as coisas que antes te
pareciam suaves e doces serão para ti insuportáveis e amargas, e. de
outra parte, das que te causavam horror, poderás haurir uma grande
doçura e uma suavidade imensa".
Jubiloso por estas coisas e, confortado no Senhor, certa vez indo a
cavalo perto de Assis, veio-lhe ao encontro um leproso. Embora
tivesse muito horror dos leprosos, fazendo-se violência, apeou e
ofereceu-lhe uma moeda, beijando-lhe a mão. Após ter recebido
dele o beijo da paz, montou a cavalo e prosseguiu seu caminho. Desde
então começou cada vez mais a desprezar-se, até conseguir, pela
graça de Deus, a mais perfeita vitória sobre si mesmo.
Poucos dias depois, levando consigo muito dinheiro, dirigiu-se ao
leprosário, e, reunindo todos os leprosos, deu a cada um uma
esmola, beijando-lhes a mão. Ao se afastar, o que lhe parecia
amargo mudara-se em doçura. Tanto assim que, como ele mesmo
contou, no passado a vista dos leprosos lhe era tão repugnante que,
não querendo vê-los, nem mesmo se aproximava de suas habitações
e, se por acaso alguma vez acontecesse de passar perto de suas casas ou
de vê-los, virava o rosto e tapava o nariz, muito embora, movido
por piedade, lhes mandasse esmolas por intermédio de outra pessoa.
Mas depois desses fatos, por graça de Deus, de tal maneira
tornou-se tão familiar e amigo dos leprosos, que, como ele mesmo
afirma no Testamento, gostava de ficar entre eles e humildemente os
servia.
12. Após a visita aos leprosos e tendo mudado, para melhor,
conduzindo a lugares afastados um certo companheiro, a quem muito
queria, dizia-lhe que havia encontrado um grande e precioso tesouro.
Alegrou-se muito aquele homem, e de boa vontade o acompanhava sempre
que chamava. Francisco o levava muitas vezes a uma caverna perto de
Assis, e. nela entrando sozinho, deixava do lado de fora o
companheiro, desejoso de possuir o tesouro; e assim, tomado de um
novo e singular espírito, orava ao Pai, às escondidas, cuidando
que ninguém soubesse o que estava fazendo lá dentro, a não ser Deus
a quem assiduamente consultava sobre como possuir o tesouro celeste.
Vendo isto, o inimigo do gênero humano tentava desviá-lo do bom
caminho que havia empreendido, incutindo-lhe temor e horror. Havia
em Assis uma mulher enormemente corcunda e que o demônio, aparecendo
ao homem de Deus, lhe trazia à mente e ameaçava transferir para ele
a gibosidade daquela mulher se não desistisse do propósito de
conversão. Mas o fortíssimo soldado de Cristo, desprezando as
ameaças diabólicas, orava a Deus para que guiasse seus passos.
Atormentava-o uma grande ansiedade de espírito. E não haveria de
sossegar, enquanto não visse realizados os sonhos que o faziam sofrer
a todo instante duramente. Vivia inflamado, interiormente de um fogo
divino. Não conseguindo ocultar o calor concebido na mente,
arrependia-se de haver pecado tão gravemente e já não lhe agradavam
os males passados ou presentes, pois não tinha alcançado ainda a
capacidade de dominar-se com relação às coisas futuras. Por isso,
ao sair da caverna, aparecia ao seu companheiro transformado em outro
homem.
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