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13. Certo dia, estando a implorar com maior fervor a misericórdia
do Senhor, este mostrou-lhe que brevemente lhe seria dito o que
deveria fazer. Desde então ficou tão cheio de contentamento, que,
não cabendo em si de alegria, mesmo sem querer, confiou discretamente
a algumas pessoas algo de seus segredos. Falava porém cautelosa e
enigmaticamente, dizendo não querer ir às Apúlias, pois na sua
própria terra faria nobres e grandes coisas.
Como os companheiros o vissem tão mudado, já mentalmente muito
afastado deles, embora corporalmente de vez em quando ainda os
acompanhasse, quase por brincadeira o interrogavam de novo:
"Francisco, queres casar-te?" Ele lhes respondia com certo
enigma, como ficou dito acima.
Poucos dias depois, passando perto de São Damião, o Senhor o
inspirou que visitasse aquela igreja e orasse. Entrando, pôs-se em
fervorosa oração diante da imagem de um Crucifixo, o qual piedosa e
benignamente lhe falou: "Francisco, não vês que a minha casa está
em ruínas? Vai pois e restaura-a para mim". Trêmulo e atônito,
disse: "Com muito boa vontade o farei, Senhor".
Entendeu que Cristo falava daquela igreja de São Damião que, por
ser muito antiga, ameaçava cair de um momento para o outro. Por
estas palavras ficou repleto de tanto contentamento e tão iluminado,
que sentiu verdadeiramente em sua alma a presença de Cristo
crucificado que lhe havia falado.
Saindo da igreja, encontrou um sacerdote sentado em sua proximidade
e, pondo a mão na bolsa, deu-lhe certa importåncia em dinheiro,
dizendo: "Rogo-lhe, senhor, que compre azeite e faça
continuamente arder uma låmpada diante daquele Crucifixo. Quando
este dinheiro acabar, de novo lhe darei quanto for necessário".
14. Desde aquela hora seu coração tornou-se tão vulnerado e
comovido, pensando na paixão do Senhor, que sempre, enquanto
viveu, trouxe os estigmas do Senhor Jesus em seu coração, como
depois claramente se patenteou pela renovação dos mesmos estigmas
maravilhosamente realizada em seu corpo e manifestada com toda
evidência.
Desde então castigava tanto seu corpo, que, são ou enfermo, nunca
ou quase nunca quis ser complacente com ele, mostrando-se muito
austero. Por isso, na hora da morte, confessou ter pecado muito
contra o irmão corpo.
Certa vez, caminhava sozinho, nas proximidades da igreja de Santa
Maria da Porciúncula, chorando e lamentando-se em alta voz.
Ouvindo-o certo homem, pensou que padecesse alguma enfermidade ou
dor, e, movido de piedade, perguntou-lhe por que chorava.
Francisco respondeu: "Choro a paixão de meu Senhor; não devo
envergonhar-me de andar chorando por ele, em alta voz e pelo mundo
inteiro". O outro também começou a chorar com ele em alta voz.
Muitas vezes, levantando-se da oração, seus olhos pareciam
inteiramente avermelhados, pois havia chorado muito amargamente.
Afligia-se com lágrimas e praticava abstinência no comer e no beber
em honra da paixão do Senhor.
15. Se alguma vez estivesse à mesa com leigos e lhe oferecessem
alimentos agradáveis ao corpo, só comia um pouquinho, apresentando
alguma desculpa, a fim de não parecer que estivesse jejuando. Ao
comer com os irmãos, muitas vezes colocava cinza nos alimentos e.
para velar sua abstinência, dizia-lhes que a irmã cinza era muito
casta.
Certa vez, estando sentado para comer, um irmão contou-lhe que a
bem-aventurada Virgem era tão pobrezinha, que não tinha o que dar
de comer ao seu Filho. Ouvindo isto, o homem de Deus suspirou com
grande dor, e, deixando a mesa, comeu pão sobre a terra nua.
Muitas vezes, porém, estando à mesa para comer, logo de início,
parava, deixava de comer e beber, absorto na meditação das coisas
celestiais. Não queria neste caso que o impedissem com palavra
alguma, emitindo altos suspiros do íntimo do coração. Dizia
também aos irmãos que sempre que o ouvissem suspirar desta maneira
louvassem a Deus e pedissem profunda e fielmente por ele.
Narramos estas coisas acerca do seu pranto e de sua abstinência,
incidentalmente, para mostrar que, depois da visão e das palavras do
Crucifixo, tornou-se sempre conforme à paixão de Cristo, até à
morte.
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