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16. Após a mencionada visão e as palavras do Crucificado,
levantou-se cheio de contentamento; fez o sinal-da-cruz e montou a
cavalo. Tirou da loja paterna panos de várias qualidades e
dirigiu-se à cidade chamada Foligno, onde vendeu o cavalo e todas as
roupas que havia carregado, regressando imediatamente à igreja de
São Damião.
Encontrou aí aquele sacerdote pobrezinho. Beijou-lhe a mão com
grande fé e devoção, entregou-lhe o dinheiro que trazia e
explicou-lhe minuciosamente seu propósito. O sacerdote ficou
estupefato e. admirando sua súbita conversão, recusava-se a
acreditar em tudo isso. Temendo tratar-se de um gracejo, não quis
reter a importåncia oferecida. Mas Francisco, insistindo com
pertinácia, esforçava-se por ser acreditado e suplicava
encarecidamente ao sacerdote que lhe permitisse morar com ele.
Afinal o sacerdote concordou quanto à morada, mas, por medo dos
parentes, não quis receber o dinheiro. Francisco, desprezando
verdadeiramente o dinheiro atirou-o a uma janela, considerando aquela
importåncia como poeira.
Enquanto Francisco residia neste lugar, o pai, como cuidadoso
explorador, procurava saber pela cidade o que havia acontecido com o
filho. Tendo sabido como ele se transformara e do lugar onde
habitava, foi tomado por uma grande dor no coração, e conturbado por
aquela mudança inesperada, convocando amigos e vizinhos, dirigiu-se
rapidamente para onde Francisco se encontrava.
Este, sendo novel soldado de Cristo, tomando conhecimento do boato
acerca das ameaças dos perseguidores e prevendo a sua chegada, deixou
que a ira paterna extravasasse, entrou numa caverna, que havia
preparado para essa emergência, e nela permaneceu escondido por um
mês inteiro.
A caverna era conhecida apenas por uma pessoa da família paterna, que
de vez em quando lhe entregava ocultamente algum alimento que ele
comia. Com copiosas lágrimas, orava para que Deus o livrasse dessa
perseguição deplorável, e com benigno favor o auxiliasse a realizar
seus piedosos propósitos.
17. Nesse jejum e pranto, rogava assídua e fervorosamente ao
Senhor, não confiando em sua própria força e habilidade, mas pondo
toda sua esperança em Deus, que no meio daquelas trevas o havia
inundado com inefável alegria e iluminado com maravilhosa claridade.
Todo inflamado por essa luz, abandona a caverna e, diligente,
festivo e alegre, toma o caminho de Assis. Munido das armas da
confiança em Cristo e abrasado pelo divino calor, censurando-se pela
preguiça e vão temor, expõe-se abertamente às mãos e aos golpes
dos perseguidores.
Quando o viram, aqueles que antes o haviam conhecido injuriavam-no
sem compaixão, chamando-o de insano e demente, e jogavam contra ele
lama e pedras das ruas. Observando-o tão mudado dos antigos costumes
e emagrecido pela mortificação da carne, atribuíam tudo o que fazia
ao esgotamento e à loucura. Mas o atleta de Cristo em tudo isto,
passando no meio deles como um surdo, não vencido nem alterado pela
injúria, por tudo dava graças a Deus.
A fama desse fato correu pelas praças e ruas da cidade, chegando aos
ouvidos do pai. Este, sabendo o que os concidadãos faziam contra
ele, logo foi procurá-lo, não para livrá-lo, mas para perdê-lo
ainda mais. Sem nenhuma moderação, correu para ele como um lobo
contra a ovelha; e. fixando-o com olhar turvo e rosto irado,
espancou-o com suas próprias mãos. Arrastando-o depois para casa,
manteve-o, por muitos dias, trancado num cárcere tenebroso,
enquanto se esforçava, com palavras e açoites, para fazer seu ånimo
se inclinar novamente às vaidades do século.
18. Francisco, porém, sem se abalar por palavras, sem se cansar
pelo cárcere ou pelos açoites, suportando tudo com paciência,
tornava-se ainda mais pronto e mais forte para realizar seu santo
propósito.
Como o pai tivesse que se afastar de casa por urgente necessidade e
tendo a mãe ficado sozinha com ele, desaprovando o procedimento do
pai, dirige-se ao filho com meigas palavras. Não conseguindo
demovê-lo de seu santo propósito, profundamente comovida,
solta-lhe as correntes e lhe permite que parta, livre. Francisco,
dando graças a Deus onipotente, vota ao mesmo lugar onde antes
estivera, gozando maior liberdade, como quem fora provado pelas
tentações do demônio, tirando delas maior experiência. E agora
com ånimo mais firme pelas injúrias recebidas, caminha mais livre e
magnånimo.
Entretanto, o pai ao regressar não encontra o filho e atira afrontas
à mulher, agravando ainda mais o seu pecado.
19. Depois corre ao palácio da comuna queixando-se do filho diante
dos cônsules da cidade, e pedindo que o obrigassem a restituir o
dinheiro que levara, espoliando a casa. Os cônsules, vendo-o tão
perturbado, por meio de mensageiro, intimam a Francisco para que
compareça diante deles. Em resposta manda o mensageiro dizer que,
por graça de Deus, já era livre, e não estava mais obrigado a
obedecer aos cônsules, por ser servo somente de Deus altíssimo. Os
cônsules, por sua vez, não querendo forçá-lo, dizem ao pai:
"Desde que se pôs ao serviço de Deus, subtraiu-se ao nosso
poder".
Vendo o pai que nada conseguia junto aos cônsules, leva a mesma
queixa ao bispo da cidade. Este, discreto e sábio, chama-o
paternalmente para que responda à queixa do pai. Francisco replica ao
enviado: "Ao Senhor Bispo irei, porque ele é pai e senhor das
almas".
Vai então ao bispo que o recebe com grande contentamento. E diz-lhe
o bispo: "Teu pai está muito irritado e escandalizado contigo. Por
isso, se queres servir a Deus, devolve-lhe o dinheiro que tens.
Deus não quer que o empregues em obras da igreja, por ter sido ganho
talvez com fraudes e por causa dos pecados de teu pai, que, ao receber
o dinheiro de volta, se acalmará. Tem pois, filho, confiança no
Senhor, e comporta-te varonilmente; não tenhas medo porque Ele
será o teu auxílio e para as obras de sua igreja dar-te-á
copiosamente quanto é necessário".
20. Levanta-se o homem de Deus alegre e confortado pelas palavras
do bispo, e entregando-lhe o dinheiro diz: "Senhor, quero
devolver-lhe não somente o dinheiro que lhe pertence, mas também as
roupas". Entrando num quarto, tira todas as suas vestes e.
colocando o dinheiro sobre elas, aparece nu, diante do bispo, do pai
e de todos os presentes, e diz: "Ouçam todos e entendam: até
agora chamei de pai a Pedro Bernardone, mas, como me propus servir a
Deus, devolvo-lhe o dinheiro, que tanto o vem irritando, bem como
todas as roupas, que dele recebi, pois de agora em diante quero
dizer: Pai nosso que estás nos céus, e não pai Pedro
Bernardone". E nesse momento se vê que por baixo das vestes
coloridas o homem de Deus trazia um cilício com que castigava sua
carne.
Levantando-se o pai, extremamente magoado e enfurecido, toma-lhe o
dinheiro e todas as vestes. Enquanto Bernardone leva consigo tudo
isso para casa, aqueles que tinham assistido à cena indignam-se
contra ele, por não haver deixado ao filho nem mesmo um pano com que
se cobrir. E movidos de compaixão começam a chorar sentidamente a
sorte de Francisco.
O bispo porém, compreendendo-lhe perfeitamente as disposições de
ånimo e admirando-lhe o fervor e a conståncia, acolhe-o entre os
braços, cobrindo-o com seu manto. Sentia em tudo aquilo claramente
os desígnios divinos e entrevia um grande mistério em torno daqueles
acontecimentos. Assim, desde esse momento, tomou-se para ele um
guia, exortando-o, protegendo-o, dirigindo-o e acolhendo-o com
profundo amor.
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