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21. O servo de Deus, Francisco, despojado de todas as coisas do
mundo, dedica-se à justiça divina, e, desprezando a própria
vida, entrega-se ao serviço divino por todos os modos possíveis.
Voltando à igreja de São Damião, alegre e fervoroso, faz para si
uma túnica de eremita e conforta o sacerdote daquela igreja com as
mesmas palavras que ouvira da boca do bispo.
Depois, entrou na cidade, e indo pelas praças e ruas, como um homem
fora de si, entoava louvores ao Senhor. Após ter louvado o
Senhor, começou a juntar pedras para a construção da mencionada
igreja, dizendo: "Quem me der uma pedra terá uma recompensa, quem
me der duas, terá duas recompensas, quem me der três, terá três
recompensas".
Assim e com muitas outras palavras simples falava com fervor de
espírito, porque, ignorante e simples, escolhido por Deus, não
usava palavras doutas de humana sabedoria, mas em todas as coisas
comportava-se com simplicidade. Muitos zombavam dele, julgando-o um
louco; outros ainda, movidos pela piedade, choravam, vendo como ele
abandonara as pompas e vaidades do século e se deixara tão rapidamente
inebriar do amor divino. Mas ele, desprezando os insultos, dava
graças a Deus, com todo fervor da alma.
Seria longo e difícil narrar o quanto trabalhou nessa obra. Ele
mesmo, nada afeito aos serviços pesados na casa paterna, carregava
pedras nos próprios ombros, enfrentando canseiras de toda espécie no
serviço de Deus.
22. O sacerdote que acima referimos, sabedor das regalias de sua
vida no mundo, observando o fervor com que Francisco se dedicava ao
serviço de Deus, serviço muitas vezes acima de suas forças, embora
pobrezinho, preparava-lhe algum alimento especial. Com efeito, como
o próprio homem de Deus lhe confessou depois, muitas vezes servia-se
de manjares delicados e pratos finos e abstinha-se dos alimentos que
não eram de seu gosto.
Mas tendo um dia percebido as atenções particulares daquele
sacerdote, disse de si para si: "Encontrarás acaso aonde quer que
vás um tal sacerdote que use contigo de tanta cortesia? Não é esta
a vida de homem pobre que quiseste escolher. Mas é necessário que
vivas como um pobre, que, movido pela necessidade, vai de porta em
porta, com um prato na mão, esmolando vários alimentos; importa que
assim vivas, voluntariamente, por amor daquele que, nascido pobre,
viveu paupérrimo no mundo, esteve nu e pobre no patíbulo da cruz e
foi sepultado em sepulcro alheio".
Certo dia, tomou de um prato e, entrando na cidade, foi pedindo
esmola de porta em porta. Como colocasse vários alimentos na
escudela, muitos que sabiam com quanta regalia ele vivera,
admiravam-se, vendo-o incrivelmente transformado, com tanto desprezo
de si mesmo. Ao tentar engolir aquelas comidas misturadas, num
primeiro momento ficou horrorizado, pois não estava acostumado nem a
comer nem mesmo a ver tais alimentos. Mas, vencendo-se a si mesmo,
começou a comer, e pareceu-lhe que nenhum outro manjar mais delicado
lhe causasse tanto prazer.
Daí, tanto exultou o seu coração no Senhor, que a sua carne,
embora delicada e fraca, se fortaleceu a ponto de suportar tudo que
fosse áspero e duro pelo amor do Senhor. E deu graças a Deus que
havia mudado para ele o que era amargo em doce e o havia confortado de
muitas maneiras. Disse também àquele sacerdote que daí para frente
não lhe preparasse alimentos especiais nem procurasse quem lho
fizesse.
23. O pai de Francisco, vendo-o tão humilhado, sentia uma dor
muito grande. E como o havia amado muito, envergonhava-se e
deplorava-o, notando sua carne quase morta, por causa da
mortificação demasiada e pelo frio. E onde quer que o encontrasse,
amaldiçoava-o.
O homem de Deus, preocupado com a maldição paterna, tomou a si
como pai certo homem pobrezinho e desprezível, e disse-lhe: "Vem
comigo e eu te darei algumas das esmolas que receber, e quando vires
que meu pai me amaldiçoa, eu te direi: 'Abençoa-me, pai', e tu
farás sobre mim o sinal-da-cruz e abençoar-me-ás em seu lugar".
De modo que quando este pobre o abençoava, o homem de Deus dizia ao
pai: "Não acreditas que Deus me pode dar um pai que me abençoa
contra as tuas maldições?"
Além disso, muitos o escarneciam, mas viam que, mesmo escarnecido,
ele suportava tudo com paciência, e ficavam extremamente admirados.
Certa manhã, mal agasalhado em tempo de inverno, estava ele entregue
à oração, quando seu irmão carnal passou por acaso por aquele lugar
e disse ironicamente a um concidadão que o acompanhava: "Diz a
Francisco que te venda pelo menos alguns centavos de suor". Ouvindo
isto o servo de Deus, cheio de gozo espiritual, em fervor de
espírito, respondeu em francês: "Venderei ao meu Senhor, bem
caro, este suor".
24. Entretanto, trabalhava assiduamente na obra da mencionada
igreja. Mas, desejando que nela estivessem as lamparinas sempre
acesas, andava pela cidade mendigando azeite. Chegou perto de uma
casa e viu lá homens reunidos, jogando. Envergonhado de pedir
esmola, voltou atrás. Mas caindo em si, censurou-se de haver
pecado, e correndo ao lugar onde havia o jogo, declarou diante de
todos os presentes a sua culpa por haver-se envergonhado de pedir
esmola por causa deles. E em fervor de espírito, entrando naquela
casa, pediu em francês e por amor de Deus óleo para as låmpadas da
mencionada igreja.
Estando com outras pessoas que também trabalhavam na referida obra,
clamava em francês em alta voz, com grande alegria, aos habitantes e
aos que passavam perto da igreja: "Vinde e ajudai na obra da igreja
de São Damião, que futuramente será um mosteiro de damas, por
cuja fama e vida nosso Pai celeste será glorificado na Igreja
universal". E repleto do espírito de profecia, predisse
verdadeiramente o futuro. Este é de fato aquele lugar sagrado, onde
por intermédio do mesmo bemaventurado Francisco, teve feliz início a
religião e excelentíssima Ordem das Damas Pobres e Sagradas
Virgens, cerca de seis anos após a conversão do bem-aventurado
Francisco. O Senhor Papa Gregório IX, naquele tempo bispo de
Óstia, com a autoridade da Sé Apostólica, aprovou a instituição
gloriosa dessas damas.
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