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25. O bem-aventurado Francisco, tendo enfim concluído a obra da
igreja de São Damião, vestia um hábito eremítico, levava na mão
um cajado, andava calçado e de cinturão. Certo dia, porém,
durante a celebração da santa missa, ouvindo o que Cristo
recomendava aos discípulos enviados a pregar: que não levassem no
caminho nem ouro nem prata, nem sacola nem alforje, nem pão nem
cajado, e não usassem nem calçados nem duas túnicas, e entendendo
isto melhor, depois da explicação do sacerdote, repleto de
indizível contentamento, disse: "É isto que eu quero cumprir com
todas as minhas forças".
Retendo pois em sua memória tudo o que ouvira, tratou de cumprir
aquelas palavras. Despojou-se logo do que tinha a mais e desde aquele
momento já não usava nem bordão, nem calçado, nem sacola, nem
alforje. Fez uma túnica bem desprezível e rústica, abandonou o
cinturão e cingiu-se com uma corda. Com toda a solicitude do
coração apegou-se às palavras da nova graça, pensando como poderia
pô-las em prática, e começou, por divina inspiração, a anunciar
a perfeição evangélica, pregando em público, com simplicidade, a
penitência. Suas palavras não eram vãs e desprezíveis, mas cheias
da força do Espírito Santo. Penetravam tão profundamente os
corações que convertiam os ouvintes de forma maravilhosa.
26. Como ele mesmo mais tarde atestou, por revelação divina,
havia aprendido esta saudação: "O Senhor te dê a paz". Por
isso, no início de qualquer pregação, saudava o povo anunciando a
paz.
Fato admirável, e seguramente miraculoso: antes de sua conversão,
alguém já o precedera no uso desta saudação percorrendo com
freqüência a cidade de Assis e saudando: "Paz e bem, paz e
bem". Acredita-se firmemente que, assim como João Batista fora o
precursor de Cristo e quando este começou a pregar desapareceu, assim
tam bém aquele mensageiro, como outro João, precedera o
bem-aventurado Francisco no anúncio da paz e depois da vinda de
Francisco desapareceu igualmente.
E penetrado do espírito dos profetas, o homem de Deus, Francisco,
depois daquele mensageiro, anunciava a paz, pregava a salvação, e
com as suas eficazes admoestações, muitos daqueles que viviam na
discórdia, longe de Cristo e do caminho da salvação, uniam-se na
verdadeira paz.
27. A verdade da doutrina anunciada com simplicidade e a
autenticidade da vida do bem-aventurado Francisco se tornavam
conhecidas de muitos, de modo que, transcorridos dois anos de sua
conversão, certos homens começaram a se animar por seu exemplo e
penitência e, rejeitando todas as coisas, uniram-se a ele, no
hábito e na vida. O primeiro deles foi Frei Bernardo, de santa
memória.
Considerando Bernardo a conståncia e o fervor do bem-aventurado
Francisco no serviço divino, o empenho com que reformava as igrejas
destruídas levando uma vida austera, apesar das facilidades que tivera
no século, propôs em seu coração distribuir aos pobres tudo o que
tinha e unir-se firmemente a ele, no hábito e na vida.
Assim, certo dia, aproximou-se ocultamente do homem de Deus,
revelou-lhe seu propósito e combinou com ele que o procurasse numa
determinada noite. O bem-aventurado Francisco, dando graças a
Deus, como até então não tivesse nenhum companheiro, muito se
alegrou, especialmente porque o senhor Bernardo era homem de vida bem
edificante.
28. Na noite combinada, foi o bem-aventurado Francisco ter à
casa de Bernardo, com grande alegria no coração, e permaneceu com
ele toda aquela noite. Entre outras coisas o Senhor Bernardo
disse-lhe: "Se alguém recebesse de seu patrão muito ou pouco, e
conservasse esses bens por muitos anos e não quisesse mais retê-los,
o que de melhor poderia fazer com eles?" O bem-aventurado Francisco
respondeu que deveria devolvê-los ao patrão de quem os recebera. E
o Senhor Bernardo disse: "Portanto, meu irmão, todos os meus
bens temporais quero distribuir, por amor do meu Senhor, de quem os
recebi, conforme te parecerá mais convenientes. O santo disse:
"Amanhã, bem cedinho, iremos à igreja, e pelos Evangelhos
saberemos como o Senhor ensinou a seus discípulos".
No dia seguinte, muito cedo, levantaram-se, e juntos com outro que
se chamava Pedro, e também queria ser irmão, foram à igreja de
São Nicolau, na praça da cidade de Assis. Entrando para orarem,
como eram simples e não sabiam achar a passagem do Evangelho a
respeito da renúncia dos bens materiais, devotamente rogavam ao
Senhor que se dignasse mostrar-lhes a sua vontade na primeira vez que
abrissem o livro.
29. Terminada a oração, o bem-aventurado Francisco, tomando o
livro fechado, e de joelhos diante do altar, ao abrir a primeira vez,
encontrou este conselho do Senhor: "Se queres ser perfeito, vai e
vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no
céu".
O bem-aventurado Francisco ficou muito contente e deu graças a
Deus. Mas como era um verdadeiro adorador da Santíssima Trindade,
quis que isto fosse confirmado com um tríplice testemunho. E abriu o
livro pela segunda e pela terceira vez. Ao abri-lo a segunda vez,
encontrou o seguinte: "Não leveis nada no caminho..." E na
terceira, por fim: "Quem quiser vir após mim, renuncie-se a si
mesmo".
O bem-aventurado Francisco deu graças a Deus as três vezes que se
abriu o livro e se manifestava a vontade divina, confirmando seu
propósito e desejo anteriormente concebidos. E disse aos já
mencionados irmãos Bernardo e Pedro: "Irmãos, esta é nossa vida
e nossa regra e de todos que quiserem unir-se à nossa sociedade.
Ide, pois, e fazei como ouvistes".
Partiu pois o Senhor Bernardo, que era muito rico, vendeu tudo o
que possuía, e ajuntando muito dinheiro, distribuiu-o todo aos
pobres da cidade. Pedro também, conforme suas posses, cumpriu o
conselho divino.
Despojando-se de tudo, ambos tomaram o hábito, tal qual usava o
santo, após ter deixado o de eremita. Desde então, viveram
juntamente com ele, segundo a forma do santo Evangelho, que o Senhor
lhes havia manifestado. Foi por isso que São Francisco disse em seu
Testamento: "O próprio Senhor revelou-me que deveria viver
segundo a forma do santo Evangelho".
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