S. Boaventura

LEGENDA MAIOR

PRIMEIRA PARTE


PRÓLOGO

1. A graça de Deus nosso Salvador manifestou-se nos últimos tempos em seu servo Francisco a todos os verdadeiros amantes da humildade e da santa pobreza. Nele podemos contemplar a superabundante misericórdia divina, ao mesmo tempo que somos incitados a renunciar à impiedade e à concupiscência deste mundo, experimentando com insaciável desejo uma sede de viver em conformidade com Cristo e com a santa esperança. Verdadeiramente pobre e penitente era ele, mas o Deus altíssimo voltou-se para sua pessoa com tão benigna condescendência, que não só o ergueu do pó da indigência e da vida mundana, como também o constituiu discípulo, guia e arauto da perfeição evangélica. Como um luzeiro ergueu-o para todos os que crêem, a fim de que, dando ele próprio testemunho da luz, preparasse ao Senhor os corações dos fiéis nas veredas da luz e da paz. Como estrela d’alva que brilha entre as nuvens (Eclo 50,8), ele orientou para a luz, com o clarão de sua vida e doutrina, aqueles que jaziam nas trevas e na sombra da morte. E como o arco-íris refulge entre as nuvens luminosas, mensageiro da verdadeira paz, portador do sinal de nossa aliança com o Senhor, anunciou aos homens a paz e a salvação, e foi designado por Deus, à imagem e semelhança do precursor, para que, preparando no deserto o caminho da mais alta pobreza, pregasse a penitência pelo, exemplo e pela palavra.

Dotado antes de tudo dos dons da graça celeste, enriquecido sucessivamente pelos méritos de ínclita virtude, repleto do espírito de profecia, predestinado para um ministério angélico, totalmente abrasado do fogo seráfico e arrebatado por um carro de fogo, depois de haver percorrido todos os graus da santidade, veio até nós "no espírito e no poder de Elias" (Lc 1,17), como demonstra sobejamente a sua vida. Por isso se pode afirmar que ele prefigura o anjo que sobe do oriente carregando o selo do Deus vivo, conforme a predição verídica do outro amigo do Esposo, o apóstolo e evangelista São João: "Ao abrir-se o sexto selo, vi outro anjo subindo ao nascente carregando o selo do Deus vivo" (Ap 7,12).

2. Considerando a perfeição de sua extraordinária santidade, chegaremos sem dúvida algum dia à convicção de que esse mensageiro de Deus era o seu servo Francisco, que foi achado digno de ser amado por Cristo, imitado por nós e admirado pelo mundo inteiro. Pois enquanto viveu entre os homens, imitou a pureza dos anjos, tornando-se um exemplo para os seguidores de Cristo. O que nos leva a pensar dessa forma, como filhos fiéis e amantes do pai, é acima de tudo a missão que ele recebeu de "convidar os homens a prantear e a dar brados de pesar, a raspar a cabeça, a cingir o cilício" (Is 22,12) e a "marcar com um Tau, em sinal de penitência, a fronte daqueles que o pecado faz gemer e suspirar" (Ez 9,4); mas o que nos confirma nesses sentimentos é a prova irrefutável de sua verdade: o selo que fez dele a imagem do Deus vivo, isto é, do Cristo crucificado, o selo impresso em seu corpo, não por uma força natural nem por algum recurso humano, mas pelo poder admirável do Espírito do Deus vivo.

3. Reconheço-me indigno e incapaz de escrever a vida de um homem que merece ser imitado e venerado por todos, e jamais teria ousado tal empresa, não fosse o afetuoso desejo dos irmãos e a unånime insistência do capítulo geral. Além disso, tenho uma dívida de gratidão para com meu Pai Francisco. Ainda me recordo perfeitamente que em minha infåncia fui salvo das garras da morte por sua intercessão e por seus méritos. Se agora me recusasse a cantar seus louvores, poderia ser acusado de ingratidão. Sei que Deus salvou-me a vida por intermédio dele, pois senti em mim o poder de sua prece. Por essa razão, resolvi empreender este trabalho de reunir a coletånea mais completa possível dos relatos de suas virtudes, atos e palavras, fragmentos hoje dispersos ou esquecidos e que haveriam de perecer, infelizmente, se viessem a morrer aqueles que conviveram com o servo de Deus.

4. Desejando ter plena certeza da verdade de sua vida e uma visão bem clara a respeito dela, antes de deixá-la por escrito à posteridade, dirigi-me à terra natal e aos lugares em que ele viveu e morreu. Pude aí encontrar-me com alguns de seus amigos mais achegados que ainda viviam e entrevistá-los demoradamente, sobretudo aqueles que tiveram experiência de primeira mão de sua santidade e que procuraram imitá-lo. Na descrição, porém, daquilo que Deus se dignou realizar por meio de seu servo, resolvi evitar o estilo literário afetado, pois ao leitor devoto aproveita mais a palavra simples do que a eloqüência rebuscada. A história nem sempre segue a ordem cronológica dos fatos. A fim de evitar confusão, preferi ser rrais sistemático. Por isso, ora agrupei acontecimentos que se deram em tempos diferentes, mas se referiam a assuntos semelhantes, ora separei outros que ocorreram ao mesmo tempo, mas se referiam a assuntos diferentes.

5. O início, o desenvolvimento e o fim de sua vida são descritos aqui em quinze capítulos distintos, distribuídos da seguinte forma: Sua vida no mundo - Sua conversão definitiva e restauração de três igrejas - Fundação da Ordem e aprovação da Regra - Progresso da Ordem sob sua direção e confirmação da Regra aprovada anteriormente - Austeridade de vida e como as criaturas lhe proporcionavam consolo - Humildade e obediência, favores com que Deus o cumulava - Amor à pobreza e intervenções miraculosas nas necessidades - Seu sentimento de compaixão e o amor que as criaturas lhe devotavam - Fervor de sua caridade e desejo do martírio - Zelo na oração e poder de sua prece - Conhecimento das Escrituras e espírito de profecia - Eficácia de sua pregação e poder de curar - Os sagrados estigmas - Sua admirável paciência e morte - Canonização e transladação de seus restos mortais.

A última parte descreve os milagres que se deram depois de sua morte.