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1. O próprio Cristo era o único guia de Francisco em todo esse
tempo. Em sua bondade, interveio mais uma vez com a suave influência
de sua graça. Francisco saiu um dia da cidade para meditar, Ao
passar pela igreja de São Damião, que estava prestes a ruir de tão
velha, sentiu-se atraído a entrar e rezar. De joelhos diante do
Crucificado, sentiu-se confortado imensamente em seu espírito e seus
olhos se encheram de lágrimas ao contemplar a cruz. Subitamente,
ouviu uma voz que vinha da cruz e lhe falou por três vezes:
"Francisco, vai e restaura a minha casa. Vês que ela está em
ruínas". Francisco encontrava-se sozinho na igreja e ficou
amedrontado ao ouvir aquela voz, mas a força de sua mensagem penetrou
profundamente em seu coração e ele, delirando, caiu em êxtase.
Por fim voltou a si e tratou de pôr em execução a ordem recebida.
Concentrou todas as forças na restauração daquela igreja material.
Mas a igreja a que a visão se referia era aquela que "Cristo
resgatara com o próprio sangue" (At 20,28). O Espírito
Santo mais tarde lho revelou e ele o ensinou a seus irmãos.
Levanta-se então, faz o sinal-da-cruz para ter coragem, pega na
loja do pai alguns fardos de tecido, vai a galope até Foligno, vende
sua mercadoria juntamente com o cavalo que lhe servira de montaria.
Volta a Assis, entra na igreja que se propusera restaurar. Encontra
aí o pobre sacerdote capelão e saúda-o respeitosamente, oferece seu
dinheiro para restaurar a igreja e distribuir aos pobres, pede-lhe
enfim humildemente a permissão de viver algum tempo ao seu lado. O
capelão concorda em dar-lhe pousada, mas temendo a família recusa
aceitar o dinheiro. Em seu total desinteresse pelo dinheiro,
Francisco atira-o a um canto da janela com tanto desprezo como se
fosse poeira.
2. Mas a permanência do servo de Deus junto ao capelão se
prolongava; seu pai acabou compreendendo o que estava acontecendo e
correu furioso até a igreja. Ao ouvir as ameaças daqueles que o
procuravam e ao perceber que estavam se aproximando, Francisco
escondeu-se numa caverna secreta; sendo ainda novo no serviço de
Cristo, não quis enfrentar as iras do pai. Permaneceu no
esconderijo durante vários dias, implorando continuamente a Deus com
muitas lágrimas que o livrasse das mãos de seus perseguidores e lhe
permitisse, em sua bondade, realizar os desejos que ele mesmo havia
inspirado. Enfim, sentiu-se inundado de alegria, começou a se
acusar de medroso e covarde, saiu de sua gruta e se dirigiu
corajosamente a Assis. Ao verem seus concidadãos seu rosto macilento
e o espírito transformado, disseram que estava louco, perseguiram-no
atirando-lhe pedras e lama, cobrindo-o de insultos, como um
alienado, um lunático. Mas o servo de Deus, insensível e
inabalável, passava por cima de todas as injúrias como se nada
houvesse escutado. Ao ouvir aquele tumulto, o pai correu
imediatamente até ele a fim de oprimi-lo ainda mais, não para
protegê-lo. Sem nenhuma compaixão, arrastou-o para casa,
censurou-o o mais que pôde, bateu nele e por fim colocou-o na
prisão. Tudo isso, porém, fez com que ele se tornasse mais
resoluto e decidido a levar a cabo seus planos, repetindo a frase do
Evangelho: "Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da
justiça, porque deles é o reino dos céus" (Mt 5,10).
3. Pouco depois, no entanto, aproveitando de uma viagem que o pai
fizera, a mãe, que não aprovava o procedimento de seu marido e não
esperava mais poder dobrar a coragem a toda prova de seu filho,
livrou-o da prisão e permitiu que ele fosse embora; Francisco deu
graças a Deus e voltou à solidão. Mas ao regressar o pai e não o
encontrando em casa, destratou a mulher e em seguida foi à procura do
filho, cheio de cólera, disposto a traze-lo, se possível, para
casa, ou ao menos a expulsá-lo de sua terra. Francisco, a quem
Deus dava toda a coragem, saiu ao encontro do pai furioso, disse-lhe
com firmeza que lhe eram indiferentes a prisão e as pancadas e
acrescentou solenemente que por amor de Cristo estava disposto a
enfrentar alegremente todas as provações. Vendo que não conseguia
traze-lo de volta à casa paterna, tentou recuperar o dinheiro. E
quando, enfim, o encontrou atirado num canto da janela da igreja,
satisfez sua cobiça e acalmou um pouco.
4. Não contente com ter recuperado seu dinheiro, tratou de fazer
com que Francisco fosse levado até ao bispo da diocese, onde ele
deveria renunciar a toda a sua herança e devolver-lhe tudo que tinha.
No seu autêntico amor à pobreza, Francisco nada opunha a essa
cerimônia e se apresenta de boa mente diante do bispo e. sem esperar
um minuto nem hesitar de qualquer forma, sem aguardar qualquer ordem
nem pedir qualquer explicação, tira imediatamente todas as suas
vestes e as entrega ao pai. Todos viram então que, sob as vestes
finas, o homem de Deus levava um cilício. Despiu mesmo os
calções, em seu fervor e entusiasmo, e ficou nu diante de todos.
Então disse ao pai: "Até agora chamei-te meu pai, mas de agora
em diante posso dizer sem qualquer reserva: ‘Pai nosso que estais no
céu’, pois foi a ele que confiei meu tesouro e nele depositei minha
fé". O bispo, que era um homem santo e muito digno, chorava de
admiração ao ver os excessos a que o levava seu amor a Deus;
levantou-se, abraçou-o e envolveu-o no seu manto, ordenando que
trouxessem alguma roupa para cobri-lo. Deram-lhe um pobre manto que
pertencia a um dos camponeses a serviço do bispo; Francisco o recebeu
agradecido e, depois, havendo encontrado um pedaço de giz no
caminho, traçou uma cruz sobre o manto. Muito expressiva era
semelhante veste neste homem crucificado, neste pobre seminu. Dessa
forma, o servo do Grande Rei foi. deixado nu para seguir as pegadas
de seu Senhor atado nu à cruz e foi assim também que ele adotou essa
cruz como emblema, a fim de confiar sua alma ao madeiro que nos salvou
e por meio dele escapar são e salvo do naufrágio do mundo.
5. Estando agora livre dos laços que o prendiam aos desejos
terrenos, em seu desprezo pelo mundo, Francisco abandonou a cidade
natal e procurou fora um lugar onde pudesse ficar a sós, alegre e
despreocupado. Aí na solidão e no silêncio poderia ouvir as
revelações secretas de, Deus., Ia dessa forma pela floresta,
alegre e cantando em francês os louvores do Senhor, quando dois
ladrões surgiram do cerrado e caíram sobre ele. Ameaçaram-no e
perguntaram quem ele era, mas ele respondeu corajosamente com as
palavras proféticas: "Sou o arauto do Grande Rei". Bateram nele
e o lançaram numa fossa cheia de neve, dizendo-lhe: "Fica por
aí, miserável arauto de Deus". Francisco esperou que fossem
embora, saiu da fossa, alegre, recomeçando com mais ånimo ainda sua
canção em honra do Senhor.
6. Chegou então a um mosteiro próximo onde pediu uma esmola.
Recebeu-a, mas ninguém o reconheceu nem lhe deu a mínima
atenção. Em seguida dirigiu-se a Gúbio onde foi reconhecido e
hospedado por um de seus antigos amigos de quem aceitou uma de suas
túnicas bem baratas, digna de um pobrezinho do Senhor. Depois
disso, em seu amor à verdadeira humildade, dedicou-se aos leprosos
vivendo com eles, a todos servindo por amor a Deus. Lavava-lhes os
pés, tratava-lhes as feridas, retirava-lhes os pedaços de carne
podre, fazia parar o pus; em sua extraordinária devoção, chegava
mesmo a beijar-lhes as chagas purulentas: começo já bem
significativo para o médico que seria ele mais tarde! Por isso Deus
lhe outorgou o poder de curar as doenças da alma e do corpo. Entre
outras muitas curas, por exemplo, merece referido este fato que se
passou um pouco mais tarde, numa época em que seu nome já era bem
mais conhecido: um homem do condado de Espoleto tinha a boca e o
maxilar corroídos por uma doença horrível, diante da qual toda a
medicina nada podia fazer. De volta de uma peregrinação ao túmulo
dos Apóstolos aonde tinha ido pedir o socorro de Deus, encontrou
Francisco e, por devoção, quis beijar-lhe os pés. Mas o humilde
homem de Deus não o permitiu e beijou na face aquele que lhe queria
beijar os pés. Mal o servo dos leprosos, admirável em seu amor,
tocou com seus lábios santos aquela chaga horrível, a doença
desapareceu e o enfermo encontrou a saúde tanto tempo almejada. Não
sei o que mereça mais nossa admiração: a humildade capaz de um beijo
tão caridoso ou o poder que se patenteia num milagre tão espantoso.
Lançado pois este fundamento sólido da humildade desejada por
Cristo, Francisco lembrou-se da ordem que recebera do Crucificado
de restaurar a igreja de São Damião. Como filho autêntico da
obediência, voltou a Assis para atender à vontade divina ou ao menos
mendigar o material necessário. Por amor de Cristo pobre e
crucificado, ele vai pedindo esmola sem qualquer vergonha junto
àqueles mesmos que o haviam conhecido como grande senhor. E apesar de
fraco e extenuado pelos jejuns, carregava nas costas pesados fardos de
pedras. Com a ajuda de Deus e a cooperação do povo, conseguiu
enfim chegar a termo com a restauração da igreja de São Damião.
E para não ficar de braços cruzados, encetou a reconstrução de
outra igreja delicada a São Pedro, situada a boa distancia da
cidade. Na autenticidade e pureza de sua fé 5, tinha Francisco
grande devoção ao Príncipe dos Apóstolos.
8. Terminado esse trabalho, chegou a um lugar chamado
Porciúncula, onde existia uma velha igreja dedicada à Virgem Mãe
de Deus, abandonada e sem ninguém que dela cuidasse. Francisco era
grande devoto de Maria Senhora do Mundo, e quando viu a igreja
naquele desamparo, começou a morar aí permanentemente a fim de poder
restaurá-la. Foi agraciado com a visita freqüente dos santos anjos
(o que aliás não estranho, uma vez que a igreja se chamava Santa
Maria dos Anjos) e se fixou neste local por causa de seu respeito
pelos anjos e de seu amor à Mãe de Cristo. Sempre amou esse lugar
acima de qualquer outro no mundo, pois foi ai que ele principiou
humildemente, progrediu na virtude e atingiu a culminåncia da
felicidade. Foi esse lugar que ele confiou aos irmãos ao morrer como
particularmente caro à Santíssima Virgem.
Cabe aqui referir a visão que teve um irmão a esse respeito antes de
se converter. Viu ele em volta dessa igreja uma multidão
incalculável de pobres cegos, de joelhos, braços erguidos e
semblantes voltados para o céu; com gritos e lágrimas, imploravam
todos misericórdia e a luz dos olhos. E eis que uma luz brilhante
desceu do céu e os envolveu a todos restituindo-lhes a visão e a
saúde que almejavam.
Este é o lugar em que Francisco fundou a Ordem dos Frades Menores
por inspiração de Deus e foi a divina Providência que o fez
restaurar três igrejas antes de fundar a Ordem e começar a pregar o
Evangelho. Isto significa que ele progrediu desde as coisas materiais
em direção às realizações mais espirituais, das coisas menores às
maiores, na devida ordem, tudo sinal profético daquilo que ele
haveria de realizar mais tarde. E analogamente aos três edifícios
que ele reconstruíra, a Igreja de Cristo se renovaria de três modos
diferentes sob a orientação de Francisco e segundo sua Regra e
doutrina, e o tríplice exército daqueles que devem ser salvos
alcançaria vitória. Hoje podemos verificar que essa profecia se
cumpriu.
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