|
1. Francisco permaneceu ainda algum tempo na igreja da Virgem Mãe
de Deus, suplicando-lhe em instantes e contínuas preces que se
tornasse sua advogada. E pelos méritos da Mãe de misericórdia e
junto daquela que concebera o Verbo cheio de graça e de verdade, ele
também concebeu e deu à luz o espírito da verdade evangélica. E
foi assim que sucedeu: assistia ele à missa dos Apóstolos
devotamente; o Evangelho falava da missão dos discípulos que Cristo
envia a pregar ensinando-lhes a maneira evangélica de viver: não
levar ouro nem prata, nem dinheiro no cinto, nem sacola para o
caminho, nem duas túnicas, nem sapatos, nem bastão. Compreendeu
imediatamente o sentido da passagem e, em seu amor pela pobreza
apostólica, reteve essas palavras firmemente na memória e- cheio de
indizível alegria, exclamou: "É isso o que desejo ardentemente; é
a isso que aspiro com todas as veras da alma". E sem mais delongas,
arroja para longe os calçados, abandona o bastão que levava,
despreza bolsa e dinheiro e. contente com vestir uma pobre túnica, se
desfaz do cinto em que pendia a espada, se cinge com uma corda áspera
e nodosa, repele do coração toda preocupação terrena e já não
pensa em nada mais senão na maneira como haveria de pôr em execução
aquela celestial doutrina para se conformar perfeitamente ao gênero de
vida observado pelos apóstolos.
2. Movido assim pelo Espírito de Deus, começou Francisco a
desejar vivamente a prática da perfeição evangéli.ca e a convidar
os outros a que abraçassem os salutares rigores da penitência. E as
palavras que para esse fim lhes dirigia não eram vãs nem ridículas,
mas cheias de virtude celeste, e penetravam até o íntimo do
coração, suscitando admirável compunção dos ouvintes. Em todas
as pregações anunciava a paz, saudando o povo no início dos sermões
com estas palavras: "O Senhor vos dê a paz". Porque, como ele
atestou mais tarde, o Senhor mesmo lhe revelou esta forma de
saudação. Poderíamos dizer, aplicando a palavra do verso de
Isaías: "Anunciou a paz, pregou a salvação e. por suas
oportunas intervenções, reconciliou com a verdadeira paz aqueles
que, longe de Cristo, estavam longe da salvação" (Is
52,7).
3. Dessa forma, muitos começaram a reconhecer a verdade da doutrina
que o homem de Deus com simplicidade pregava e de sua vida. Alguns
sentiram-se impulsionados à penitência pelo seu exemplo e a
associar-se a ele vestindo o mesmo hábito, levando a mesma vida e
abandonando suas posses. O primeiro deles foi o venerável Bernardo
que, feito participante da vocação divina, mereceu ser o
primogênito do santo Pai Francisco, primeiro no tempo e primeiro na
santidade.
Depois de verificar pessoalmente a santidade do servo de Cristo,
Bernardo decidiu seguir seu exemplo, abandonando completamente o
mundo. Por fim o procurou para saber como realizar seu propósito.
Ao ouvi-lo, o servo de Deus sentiu um grande conforto espiritual,
porque havia concebido seu primeiro filho, e exclamou: "É a Deus
que devemos pedir conselho".
No dia seguinte de manhã, foram à igreja de São Nicolau, e
depois de orar, Francisco, devoto adorador da Santíssima
Trindade, por três vezes abriu o Evangelho, pedindo a Deus que por
três vezes confirmasse o propósito de Bernardo.
À primeira abertura do livro dos Evangelhos, encontraram a passagem
que diz: "Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que possuis e
dá-o aos pobres" (Mt 19,21). A segunda: "Nada leveis
pelo caminho" (Lc 9,3). A terceira: "Quem quiser vir após
mim, renegue-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me" (Mt
16,24).
"Esta é nossa vida e nossa regra - disse Francisco - e de todos
aqueles que quiserem unir-se à nossa companhia. Se quiseres ser
perfeito, vai, e põe em prática o que acabaste de ouvir".
4. Pouco tempo depois, o mesmo Espírito chamou outros cinco homens
e o número dos irmãos subiu a seis. O terceiro foi nosso santo pai
Egídio, homem realmente cheio de Deus e digno de ser solenemente
recordado. Pois, tendo chegado às mais sublimes virtudes, ao fim de
sua vida, como Francisco havia predito, e embora iletrado e simples,
alcançou os mais altos cumes da contemplação. Pois, efetivamente,
ocupado continuamente e por espaço de muito tempo na contemplação das
coisas celestiais, de tal modo era arrebatado até Deus em êxtase,
como eu mesmo fui testemunha ocular, que parecia levar entre os homens
uma vida mais angélica do que humana. 5. Manifestou Deus
igualmente por esse tempo a um certo sacerdote da cidade de Assis,
chamado Silvestre, homem de costumes ilibados, uma visão que não
podemos deixar de referir. Julgando as coisas de modo meramente
humano, admirava-se Silvestre muito do modo de vida que haviam
adotado Francisco e seus seguidores, e para não permanecer em seus
falsos juízos, visitou-o a graça do Senhor. Viu então em sonho
medonho dragão rondando a cidade de Assis. Sua extrema corpulência
parecia ameaçar com um completo extermínio toda aquela comarca. Viu
depois sair da boca de Francisco uma cruz preciosíssima de ouro, cuja
parte superior chegava até ao céu, e os braços pareciam estender-se
até os confins da terra. À vista dessa cruz esplendorosa, fugiu
aquele horrendo e espantoso dragão. Repetindo-se este sonho pela
terceira vez, julgou ser um oráculo divino, e referiu a visão com
todos os detalhes ao servo de Deus Francisco e a seus companheiros.
E abandonando pouco depois o mundo seguiu com tanta perfeição as
pegadas traçadas por Cristo, que sua vida na Ordem confirmou o
caráter celestial da visão que tivera no mundo.
6. Quando Francisco ouviu esta visão, não se deixou seduzir pelos
astutos enganos da vangloria; mas reconhecendo a bondade de Deus em
seus benefícios, animou-se a pelejar com maior coragem contra a
perversidade e malícia do inimigo infernal e a pregar por toda parte as
glórias da cruz. Estando um dia na solidão, viu desfilar diante de
seus olhos os anos passados e os chorava amargamente. A alegria do
Espírito Santo, porém, se derramou sobre ele e lhe garantiu que
seus pecados estavam plenamente perdoados. Foi então arrebatado em
êxtase e absorvido completamente numa luz maravilhosa, de modo que se
iluminaram as profundezas de sua alma e viu o que o futuro lhes
reservava para ele e seus filhos. Voltou a seguir aos irmãos, outra
vez, e lhes disse: "Tende coragem, amados filhos, alegrai-vos no
Senhor; não vos entristeçais por serdes um pequeno número nem por
causa de minha simplicidade ou da vossa, pois o Senhor fez-me ver com
toda clareza que Deus fará de nós uma imensa multidão e, pela
graça de sua bênção, nos multiplicará sempre mais".
7. Nesse mesmo período, entrou na religião um outro varão santo,
chegando então o número dos filhos benditos do homem de Deus a sete.
O bom Pai reuniu em torno de si todos os seus filhos e lhes falou
longamente do reino de Deus, do desprezo do mundo, da necessidade de
renunciar à própria vontade e mortificar o próprio corpo e lhes
revelou sua intenção de enviá-los às quatro partes do mundo.
Aquela simplicidade que parecia estéril no seráfico Pai havia gerado
sete filhos; mas seu amor ardente desejava gerar a todos os homens para
os rigores da penitência. "Ide, dizia o bem-aventurado Pai a seus
filhos, anunciar a paz a todos os homens; pregai-lhes a penitência
para a remissão dos pecados; sede pacientes na tribulação,
solícitos na oração, sofridos na adversidade, ativos e constantes
no trabalho; modestos nas palavras, sérios em vossos costumes e
agradecidos ao receber benefícios. Sabei que, em recompensa de tudo
isso, vos está prometido um reino que não terá fim". Prostrados
humildemente em terra os filhos em presença de tão bom Pai,
receberam com alegria de espírito o mandamento da santa obediência.
E disse a cada um em particular: "Lança no Senhor os teus cuidados
e ele cuidará de ti" (Sl 54,23). Era sua frase costumeira ao
enviar um irmão às missões." Ele, porém, consciente de sua
vocação de modelo e querendo agir antes de falar, tomou um de seus
companheiros e se dirigiu a um dos quatro pontos cardeais, deixando
para os outros irmãos os três outros pontos cardeais, como se
quisesse traçar um imenso sinal-da-cruz. Quando mais tarde quis
rever os filhos bem-amados e não sabendo como fazer chegar até eles
sua voz, pediu ao Senhor que os reunisse, ele "que reúne os filhos
disperses de Israel" (Sl 146,2). E sucedeu que, sem terem
sido convocados por quem quer que fosse, mas por um favor da bondade de
Deus, todos, para grande admiração comum, se encontraram como
Francisco havia desejado. Outros quatro homens de bem vieram se
associar a eles, elevando-se agora o número dos irmãos a doze.
8. Vendo que o número dos irmãos aumentava gradativamente,
Francisco escreveu uma regra de vida breve e simples para si e seus
companheiros. Seu fundamento inabalável era a observåncia dos
Evangelhos, ao que ele acrescentou um número reduzido de outras
prescrições, que lhe pareciam necessárias para a vida em comum.
Estava ansioso em ver aprovado pelo papa o que escrevera. Pondo toda
sua confiança no Senhor, resolveu apresentar-se com seus
companheiros diante da Sé Apostólica. Deus olhou propício para o
seu desejo e confortou os irmãos que estavam apavorados de se verem
tão simples e inexperientes, mostrando a Francisco a seguinte
visão: parecia-lhe estar percorrendo um caminho, à beira do qual
erguia-se uma árvore que ele dobrou com facilidade até a terra.
Homem cheio de Deus que era, compreendeu imediatamente que a visão
era uma profecia do modo como o papa haveria de aprovar seus planos e
ficou extremamente alegre. Falou aos irmãos e encorajou-os. Em
seguida pôs-se a caminho com eles.
9. Chegado à Cúria Romana, conduziram-no à presença do Sumo
Pontífice. O Vigário de Cristo, que se encontrava no palácio
lateranense e caminhava no lugar chamado Speculum, imerso em profundos
pensamentos, mandou embora com desprezo, como um importuno, o servo
de Cristo.
Este humildemente se retirou. Na noite seguinte, porém, o
Pontífice teve uma revelação de Deus. A seus pés via uma
palmeira que ia crescendo pouco a pouco até se tornar uma belíssima
árvore. Enquanto o Vigário de Cristo se perguntava, maravilhado,
que poderia significar aquela visão, a luz divina gravou-lhe na mente
que a palmeira representava aquele pobre que ele havia repelido na
véspera. Na manhã seguinte, o papa mandou seus servos procurar
aquele pobre em toda a cidade. Encontraram-no na hospedaria de S.
Antônio junto ao Latrão. E o fez comparecer à sua presença.
Introduzido Francisco à presença do Sumo Pontífice,
manifestou-lhe seus propósitos, pedindo-lhe com humildade e
conståncia que se dignasse aprovar a referida Regra e forma de vida.
Ao ver o Vigário de Cristo, Inocêncio III, homem de grande
sabedoria, a admirável pureza de alma do servo de Deus, a firmeza de
seus propósitos e o ardente amor que votava aos seus ideais,
inclinou-se benignamente a ouvir as petições do santo. Mas não
quis aprovar logo a regra de vida proposta pelo pobrezinho, porque
parecia estranha e por demais penosa às forças humanas no parecer de
alguns cardeais. Mas entre estes encontrava-se um homem venerável,
o cardeal João de São Paulo, bispo de Sabina, amante das pessoas
de virtude e santidade e decidido protetor dos pobres de Cristo.
Tomou a palavra e. inflamado do Espírito de Deus, disse ao Sumo
Pontífice e a seus irmãos cardeais: "Este pobre pede apenas que
lhe seja aprovada uma forma de vida evangélica. Se portanto
rejeitarmos seu pedido como difícil em demasia e estranho, tenhamos
cuidado em não ofender dessa forma o Evangelho. De fato se alguém
dissesse que na observåncia da perfeição evangélica e no voto de
praticá-la existe algo de estranho ou de irracional, ou impossível,
é réu de blasfêmia contra Cristo, autor do Evangelho".
Diante dessas razões, o sucessor de Pedro voltou-se para o pobre de
Cristo e lhe disse: "Meu filho, faze uma oração fervorosa a
Cristo para que por teu intermédio nos mostre a sua vontade. Assim
que a tivermos conhecido com maior clareza, poderemos aceder com mais
segurança aos teus pedidos".
10. O servo de Deus entregou-se imediatamente à oração
fervorosa e com suas humildes súplicas obteve do Senhor que lhe
revelasse o que deveria falar ao Pontífice e que este sentisse em seu
íntimo os efeitos da inspiração divina. Como Deus lhe havia
sugerido, contou ao Pontífice a parábola de um rei muito rico que,
feliz, desposara uma bela senhora pobre e dela tivera vários filhos
com a mesma fisionomia do rei, pai deles, e que por isso forem
educados em seu palácio. E acrescentou à guisa de explicação:
"Não há nada a temer que morram de fome os filhos e herdeiros do
Rei dos céus, os quais, nascidos por virtude do Espírito Santo,
à imagem de Cristo Rei, de uma mãe pobre, serão gerados pelo
espírito da pobreza numa religião sumamente pobre. Pois se o Rei
dos céus promete a seus seguidores a posse de um reino eterno, quanto
mais seguros podemos estar de que lhes dará também todas aquelas
coisas que comumente não nega nem aos bons nem aos maus!" O
Vigário de Cristo ouvira com muito interesse a parábola e sua
explicação; estava maravilhado e já não duvidava de que Cristo
havia falado pela boca deste homem. Tivera, aliás, pouco tempo
antes uma visão em que o Espírito de Deus lhe mostrara a missão a
que Francisco estava destinado. De fato, vira em sonho a basílica
do Latrão prestes a ruir e um homem pobrezinho, pequeno e de aspecto
desprezível, a sustinha com os ombros para não cair.
E concluiu o Pontífice: "Este é, na verdade, aquele que com seu
exemplo e doutrina há de sustentar a santa Igreja de Deus". Por
essa razão anuiu benignamente ao pedido do santo, e daí em diante o
teve sempre em grande estima. Concedeu-lhe pois o que pedia,
prometendo-lhe conceder muito mais para o futuro. Aprovou também a
Regra e deu-lhe a missão de ir por todo o mundo pregar a
penitência. Mandou igualmente impor tonsuras em todos os leigos
companheiros de Francisco para lhes permitir pregar a palavra de Deus
sem empecilhos. "
|
|