CAPÍTULO 3. Fundação da Ordem e aprovação da Regra

1. Francisco permaneceu ainda algum tempo na igreja da Virgem Mãe de Deus, suplicando-lhe em instantes e contínuas preces que se tornasse sua advogada. E pelos méritos da Mãe de misericórdia e junto daquela que concebera o Verbo cheio de graça e de verdade, ele também concebeu e deu à luz o espírito da verdade evangélica. E foi assim que sucedeu: assistia ele à missa dos Apóstolos devotamente; o Evangelho falava da missão dos discípulos que Cristo envia a pregar ensinando-lhes a maneira evangélica de viver: não levar ouro nem prata, nem dinheiro no cinto, nem sacola para o caminho, nem duas túnicas, nem sapatos, nem bastão. Compreendeu imediatamente o sentido da passagem e, em seu amor pela pobreza apostólica, reteve essas palavras firmemente na memória e- cheio de indizível alegria, exclamou: "É isso o que desejo ardentemente; é a isso que aspiro com todas as veras da alma". E sem mais delongas, arroja para longe os calçados, abandona o bastão que levava, despreza bolsa e dinheiro e. contente com vestir uma pobre túnica, se desfaz do cinto em que pendia a espada, se cinge com uma corda áspera e nodosa, repele do coração toda preocupação terrena e já não pensa em nada mais senão na maneira como haveria de pôr em execução aquela celestial doutrina para se conformar perfeitamente ao gênero de vida observado pelos apóstolos.

2. Movido assim pelo Espírito de Deus, começou Francisco a desejar vivamente a prática da perfeição evangéli.ca e a convidar os outros a que abraçassem os salutares rigores da penitência. E as palavras que para esse fim lhes dirigia não eram vãs nem ridículas, mas cheias de virtude celeste, e penetravam até o íntimo do coração, suscitando admirável compunção dos ouvintes. Em todas as pregações anunciava a paz, saudando o povo no início dos sermões com estas palavras: "O Senhor vos dê a paz". Porque, como ele atestou mais tarde, o Senhor mesmo lhe revelou esta forma de saudação. Poderíamos dizer, aplicando a palavra do verso de Isaías: "Anunciou a paz, pregou a salvação e. por suas oportunas intervenções, reconciliou com a verdadeira paz aqueles que, longe de Cristo, estavam longe da salvação" (Is 52,7).

3. Dessa forma, muitos começaram a reconhecer a verdade da doutrina que o homem de Deus com simplicidade pregava e de sua vida. Alguns sentiram-se impulsionados à penitência pelo seu exemplo e a associar-se a ele vestindo o mesmo hábito, levando a mesma vida e abandonando suas posses. O primeiro deles foi o venerável Bernardo que, feito participante da vocação divina, mereceu ser o primogênito do santo Pai Francisco, primeiro no tempo e primeiro na santidade.

Depois de verificar pessoalmente a santidade do servo de Cristo, Bernardo decidiu seguir seu exemplo, abandonando completamente o mundo. Por fim o procurou para saber como realizar seu propósito.

Ao ouvi-lo, o servo de Deus sentiu um grande conforto espiritual, porque havia concebido seu primeiro filho, e exclamou: "É a Deus que devemos pedir conselho".

No dia seguinte de manhã, foram à igreja de São Nicolau, e depois de orar, Francisco, devoto adorador da Santíssima Trindade, por três vezes abriu o Evangelho, pedindo a Deus que por três vezes confirmasse o propósito de Bernardo.

À primeira abertura do livro dos Evangelhos, encontraram a passagem que diz: "Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que possuis e dá-o aos pobres" (Mt 19,21). A segunda: "Nada leveis pelo caminho" (Lc 9,3). A terceira: "Quem quiser vir após mim, renegue-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me" (Mt 16,24).

"Esta é nossa vida e nossa regra - disse Francisco - e de todos aqueles que quiserem unir-se à nossa companhia. Se quiseres ser perfeito, vai, e põe em prática o que acabaste de ouvir".

4. Pouco tempo depois, o mesmo Espírito chamou outros cinco homens e o número dos irmãos subiu a seis. O terceiro foi nosso santo pai Egídio, homem realmente cheio de Deus e digno de ser solenemente recordado. Pois, tendo chegado às mais sublimes virtudes, ao fim de sua vida, como Francisco havia predito, e embora iletrado e simples, alcançou os mais altos cumes da contemplação. Pois, efetivamente, ocupado continuamente e por espaço de muito tempo na contemplação das coisas celestiais, de tal modo era arrebatado até Deus em êxtase, como eu mesmo fui testemunha ocular, que parecia levar entre os homens uma vida mais angélica do que humana. 5. Manifestou Deus igualmente por esse tempo a um certo sacerdote da cidade de Assis, chamado Silvestre, homem de costumes ilibados, uma visão que não podemos deixar de referir. Julgando as coisas de modo meramente humano, admirava-se Silvestre muito do modo de vida que haviam adotado Francisco e seus seguidores, e para não permanecer em seus falsos juízos, visitou-o a graça do Senhor. Viu então em sonho medonho dragão rondando a cidade de Assis. Sua extrema corpulência parecia ameaçar com um completo extermínio toda aquela comarca. Viu depois sair da boca de Francisco uma cruz preciosíssima de ouro, cuja parte superior chegava até ao céu, e os braços pareciam estender-se até os confins da terra. À vista dessa cruz esplendorosa, fugiu aquele horrendo e espantoso dragão. Repetindo-se este sonho pela terceira vez, julgou ser um oráculo divino, e referiu a visão com todos os detalhes ao servo de Deus Francisco e a seus companheiros. E abandonando pouco depois o mundo seguiu com tanta perfeição as pegadas traçadas por Cristo, que sua vida na Ordem confirmou o caráter celestial da visão que tivera no mundo.

6. Quando Francisco ouviu esta visão, não se deixou seduzir pelos astutos enganos da vangloria; mas reconhecendo a bondade de Deus em seus benefícios, animou-se a pelejar com maior coragem contra a perversidade e malícia do inimigo infernal e a pregar por toda parte as glórias da cruz. Estando um dia na solidão, viu desfilar diante de seus olhos os anos passados e os chorava amargamente. A alegria do Espírito Santo, porém, se derramou sobre ele e lhe garantiu que seus pecados estavam plenamente perdoados. Foi então arrebatado em êxtase e absorvido completamente numa luz maravilhosa, de modo que se iluminaram as profundezas de sua alma e viu o que o futuro lhes reservava para ele e seus filhos. Voltou a seguir aos irmãos, outra vez, e lhes disse: "Tende coragem, amados filhos, alegrai-vos no Senhor; não vos entristeçais por serdes um pequeno número nem por causa de minha simplicidade ou da vossa, pois o Senhor fez-me ver com toda clareza que Deus fará de nós uma imensa multidão e, pela graça de sua bênção, nos multiplicará sempre mais".

7. Nesse mesmo período, entrou na religião um outro varão santo, chegando então o número dos filhos benditos do homem de Deus a sete. O bom Pai reuniu em torno de si todos os seus filhos e lhes falou longamente do reino de Deus, do desprezo do mundo, da necessidade de renunciar à própria vontade e mortificar o próprio corpo e lhes revelou sua intenção de enviá-los às quatro partes do mundo. Aquela simplicidade que parecia estéril no seráfico Pai havia gerado sete filhos; mas seu amor ardente desejava gerar a todos os homens para os rigores da penitência. "Ide, dizia o bem-aventurado Pai a seus filhos, anunciar a paz a todos os homens; pregai-lhes a penitência para a remissão dos pecados; sede pacientes na tribulação, solícitos na oração, sofridos na adversidade, ativos e constantes no trabalho; modestos nas palavras, sérios em vossos costumes e agradecidos ao receber benefícios. Sabei que, em recompensa de tudo isso, vos está prometido um reino que não terá fim". Prostrados humildemente em terra os filhos em presença de tão bom Pai, receberam com alegria de espírito o mandamento da santa obediência. E disse a cada um em particular: "Lança no Senhor os teus cuidados e ele cuidará de ti" (Sl 54,23). Era sua frase costumeira ao enviar um irmão às missões." Ele, porém, consciente de sua vocação de modelo e querendo agir antes de falar, tomou um de seus companheiros e se dirigiu a um dos quatro pontos cardeais, deixando para os outros irmãos os três outros pontos cardeais, como se quisesse traçar um imenso sinal-da-cruz. Quando mais tarde quis rever os filhos bem-amados e não sabendo como fazer chegar até eles sua voz, pediu ao Senhor que os reunisse, ele "que reúne os filhos disperses de Israel" (Sl 146,2). E sucedeu que, sem terem sido convocados por quem quer que fosse, mas por um favor da bondade de Deus, todos, para grande admiração comum, se encontraram como Francisco havia desejado. Outros quatro homens de bem vieram se associar a eles, elevando-se agora o número dos irmãos a doze.

8. Vendo que o número dos irmãos aumentava gradativamente, Francisco escreveu uma regra de vida breve e simples para si e seus companheiros. Seu fundamento inabalável era a observåncia dos Evangelhos, ao que ele acrescentou um número reduzido de outras prescrições, que lhe pareciam necessárias para a vida em comum. Estava ansioso em ver aprovado pelo papa o que escrevera. Pondo toda sua confiança no Senhor, resolveu apresentar-se com seus companheiros diante da Sé Apostólica. Deus olhou propício para o seu desejo e confortou os irmãos que estavam apavorados de se verem tão simples e inexperientes, mostrando a Francisco a seguinte visão: parecia-lhe estar percorrendo um caminho, à beira do qual erguia-se uma árvore que ele dobrou com facilidade até a terra. Homem cheio de Deus que era, compreendeu imediatamente que a visão era uma profecia do modo como o papa haveria de aprovar seus planos e ficou extremamente alegre. Falou aos irmãos e encorajou-os. Em seguida pôs-se a caminho com eles.

9. Chegado à Cúria Romana, conduziram-no à presença do Sumo Pontífice. O Vigário de Cristo, que se encontrava no palácio lateranense e caminhava no lugar chamado Speculum, imerso em profundos pensamentos, mandou embora com desprezo, como um importuno, o servo de Cristo.

Este humildemente se retirou. Na noite seguinte, porém, o Pontífice teve uma revelação de Deus. A seus pés via uma palmeira que ia crescendo pouco a pouco até se tornar uma belíssima árvore. Enquanto o Vigário de Cristo se perguntava, maravilhado, que poderia significar aquela visão, a luz divina gravou-lhe na mente que a palmeira representava aquele pobre que ele havia repelido na véspera. Na manhã seguinte, o papa mandou seus servos procurar aquele pobre em toda a cidade. Encontraram-no na hospedaria de S. Antônio junto ao Latrão. E o fez comparecer à sua presença. Introduzido Francisco à presença do Sumo Pontífice, manifestou-lhe seus propósitos, pedindo-lhe com humildade e conståncia que se dignasse aprovar a referida Regra e forma de vida.

Ao ver o Vigário de Cristo, Inocêncio III, homem de grande sabedoria, a admirável pureza de alma do servo de Deus, a firmeza de seus propósitos e o ardente amor que votava aos seus ideais, inclinou-se benignamente a ouvir as petições do santo. Mas não quis aprovar logo a regra de vida proposta pelo pobrezinho, porque parecia estranha e por demais penosa às forças humanas no parecer de alguns cardeais. Mas entre estes encontrava-se um homem venerável, o cardeal João de São Paulo, bispo de Sabina, amante das pessoas de virtude e santidade e decidido protetor dos pobres de Cristo. Tomou a palavra e. inflamado do Espírito de Deus, disse ao Sumo Pontífice e a seus irmãos cardeais: "Este pobre pede apenas que lhe seja aprovada uma forma de vida evangélica. Se portanto rejeitarmos seu pedido como difícil em demasia e estranho, tenhamos cuidado em não ofender dessa forma o Evangelho. De fato se alguém dissesse que na observåncia da perfeição evangélica e no voto de praticá-la existe algo de estranho ou de irracional, ou impossível, é réu de blasfêmia contra Cristo, autor do Evangelho".

Diante dessas razões, o sucessor de Pedro voltou-se para o pobre de Cristo e lhe disse: "Meu filho, faze uma oração fervorosa a Cristo para que por teu intermédio nos mostre a sua vontade. Assim que a tivermos conhecido com maior clareza, poderemos aceder com mais segurança aos teus pedidos".

10. O servo de Deus entregou-se imediatamente à oração fervorosa e com suas humildes súplicas obteve do Senhor que lhe revelasse o que deveria falar ao Pontífice e que este sentisse em seu íntimo os efeitos da inspiração divina. Como Deus lhe havia sugerido, contou ao Pontífice a parábola de um rei muito rico que, feliz, desposara uma bela senhora pobre e dela tivera vários filhos com a mesma fisionomia do rei, pai deles, e que por isso forem educados em seu palácio. E acrescentou à guisa de explicação: "Não há nada a temer que morram de fome os filhos e herdeiros do Rei dos céus, os quais, nascidos por virtude do Espírito Santo, à imagem de Cristo Rei, de uma mãe pobre, serão gerados pelo espírito da pobreza numa religião sumamente pobre. Pois se o Rei dos céus promete a seus seguidores a posse de um reino eterno, quanto mais seguros podemos estar de que lhes dará também todas aquelas coisas que comumente não nega nem aos bons nem aos maus!" O Vigário de Cristo ouvira com muito interesse a parábola e sua explicação; estava maravilhado e já não duvidava de que Cristo havia falado pela boca deste homem. Tivera, aliás, pouco tempo antes uma visão em que o Espírito de Deus lhe mostrara a missão a que Francisco estava destinado. De fato, vira em sonho a basílica do Latrão prestes a ruir e um homem pobrezinho, pequeno e de aspecto desprezível, a sustinha com os ombros para não cair.

E concluiu o Pontífice: "Este é, na verdade, aquele que com seu exemplo e doutrina há de sustentar a santa Igreja de Deus". Por essa razão anuiu benignamente ao pedido do santo, e daí em diante o teve sempre em grande estima. Concedeu-lhe pois o que pedia, prometendo-lhe conceder muito mais para o futuro. Aprovou também a Regra e deu-lhe a missão de ir por todo o mundo pregar a penitência. Mandou igualmente impor tonsuras em todos os leigos companheiros de Francisco para lhes permitir pregar a palavra de Deus sem empecilhos. "