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1. Com a graça de Deus e aprovação do papa, Francisco
sentia-se agora confiante; e outra vez tomou O caminho pelo vale de
Espoleto, onde resolveu pregar o Evangelho de Cristo e viver de
acordo com ele. E confabulando pelo caminho com seus companheiros,
discutiam a maneira como observar com toda sinceridade a Regra que
haviam recebido e como viveriam diante de Deus em santidade e
justiça. Discutiam igualmente como se aperfeiçoariam e dariam aos
outros o bom exemplo. Já se fazia tarde e eles ainda prosseguiam o
colóquio. Estavam cansados pelo esforço contínuo do caminho e
começaram a ficar com fome. Decidiram então parar num lugar
solitário. Premidos por essa necessidade e não podendo de nenhum
modo ir à procura de alimentos, experimentaram logo os efeitos da
amorosa providência do Senhor. Apareceu inesperadamente um homem
carregando algum pão que lhes deu, desaparecendo logo a seguir, sem
lhes deixar qualquer idéia de onde viera ou para onde seguira. Os
irmãos reconheceram então que a companhia do homem de Deus era para
eles uma garantia da ajuda de Deus e se sentiram saciados mais pelo dom
da generosidade divina do que pelo alimento material recebido. Ainda
muito comovidos, decidiram firmemente e assumiram o compromisso
irrevogável de jamais ser infiéis ao voto de pobreza, Quaisquer que
fossem sua escassez e trabalhos.
2. Chegaram finalmente ao vale de Espoleto, animados dessas boas
disposições. Começaram a discutir se haveriam de viver entre o povo
ou procurar a solidão. Francisco, que era um verdadeiro servo de
Deus, recusou confiar apenas em sua própria opinião ou nas
sugestões de seus companheiros. Mas quis saber a vontade de Deus
perseverando na oração. Depois. iluminado por uma revelação
divina, sentiu que era enviado por Deus para conquistar para Cristo
as almas que o demônio estava tentando roubar. Por isso resolveu
viver para utilidade de todos e não apenas para si só, sentindo nisso
o exemplo daquele que se dignou morrer pela salvação de todos os
homens.
3. Retirou-se pois o servo de Deus com seus companheiros a um
tugúrio pobre e abandonado, perto de Assis. Viviam aí trabalhando
muito e passando penúria, de acordo com a altíssima pobreza,
comprazendo-se em alimentar-se mais com o pão das lágrimas do que
com a abundåncia e as delícias terrenas. Entregavam-se ali a santos
e piedosos exercícios;sua oração devota e quase nunca interrompida
era mais mental do que vocal, pois não dispunham de livros litúrgicos
pelos quais pudessem recitar as horas canônicas do ofício divino.
Mas, na falta desses, revolviam dia e noite o livro da cruz de
Cristo, que sempre tinham à vista, incitados pelo exemplo e pela
palavra do amantíssimo pai, que freqüentemente lhes pregava com
inefável doçura as glórias da cruz de Cristo. E como os irmãos
lhe pedissem com insistência que lhes ensinasse a orar, disse-lhes:
"Quando quiserdes orar, dizei: "Pai nosso" e: "Nós vos
adoramos, ó Cristo, em todas as igrejas que estão no mundo inteiro
e vos bendizemos porque por vossa santa cruz remistes o mundo".
Ensinou-lhes também a louvar a Deus em todas as suas criaturas, a
venerar com especial respeito aos sacerdotes, a crer firmemente e
confessar com simplicidade os dogmas da fé conforme crê e ensina a
santa Igreja Romana. Seguiam fielmente os discípulos a doutrina de
seu santo mestre e todas as vezes que divisavam ao longe alguma igreja
ou cruz, prostravam-se humildemente e as adoravam na forma que haviam
aprendido.
4. Durante o tempo em que os irmãos moravam nesse lugar, foi o
santo à cidade de Assis num sábado para no domingo fazer o sermão
costumeiro na catedral. Enquanto passava a noite em oração,
conforme seu hábito, num tugúrio situado no jardim dos cônegos,
longe de seus filhos, eis que por volta da meia-noite - alguns
irmãos dormiam, outros ainda oravam - um carro de fogo de maravilhoso
esplendor encimado por um globo resplandecente, semelhante ao sol, que
iluminava a noite, entrou pela porta da cabana e fez três voltas. Os
que vigiavam ficaram estupefatos e os que dormiam acordaram apavorados;
seus corações se iluminaram mais que seus corpos, embora a essa luz
admirável pudessem ler às claras a consciência de cada um; eram
capazes de penetrar os sentimentos uns dos outros, e acreditavam
unanimente que era o Pai que, embora ausente de corpo, se encontrava
presente em espírito, aparecendo-lhes sob essa imagem, fulgurante e
abrasado de amor. Também tinham plena certeza de que o Senhor lhes
queria mostrar por esse carro de fogo resplendente que eles seguiam,
como verdadeiros israelitas, o novo Elias estabelecido por Deus para
ser "o carro e o condutor" (cf. 4Rs 2,12) dos homens do
Espírito. Devemos crer que Deus, pela oração de Francisco,
abriu os olhos desses homens simples para que contemplassem.suas
grandezas, Como outrora havia aberto os olhos do servo de Eliseu para
que visse "a montanha coberta de carros de fogo e de cavalos que
rodeavam o profeta" (cf. 4Rs 6,17). Ao voltar o santo homem
para junto de seus irmãos, penetrou os segredos de suas
consciências, reanimou-lhes a coragem falando-lhes da visão
extraordinária que haviam tido e fez-lhes numerosas predições com
relação aos progressos da Ordem. Ao ouvi-lo expor assim tantas
coisas fora do alcance de uma inteligência humana, compreenderam os
irmãos claramente que o Espírito do Senhor estava sobre seu servo
Francisco com tal plenitude que para eles a escolha mais acertada era
seguir sua vida e doutrina.
5. Depois desses acontecimentos, Francisco, pastor da pequena
grei, inspirado pela graça divina, conduziu os seus doze irmãos a
Santa Maria da Porciúncula, pois desejava que a Ordem dos irmãos
menores crescesse e se desenvolvesse sob a proteção da Mãe de
Deus, naquele lugar em que, pelos méritos dela, havia dado os
primeiros passos. Como arauto do Evangelho, percorria cidades e
vilas, anunciando o reino de Deus, "não por doutas palavras da
sabedoria humana, mas pela virtude do Espírito Santo" (1Cor
2,13). Parecia um homem do outro mundo, conservando a alma e o
semblante continuamente voltados para o alto e procurando erguer da
terra todos os corações. Desde então a vinha do Senhor começou a
produzir renovos perfumados, flores de suavidade, de honra e de
santidade e a dar frutos abundantes.
6. Muitos, inflamados pelo ardor de sua pregação, impunham-se a
nova regra de penitência de acordo com a fórmula aperfeiçoada pelo
homem de Deus que decidiu chamar esse gênero de vida "Ordem dos
Frades da Penitência". E não havendo outro caminho possível para
todos os que buscam o céu a não ser o caminho da penitência,
admitem-se nela os clérigos e os leigos, os solteiros e os casados.
Os inúmeros milagres realizados por alguns deles provam bem qual o
mérito que tiveram aos olhos de Deus. Houve também donzelas que
optaram pela castidade perpétua, entre as quais Clara, virgem
amantíssima de Deus, primeiro rebento do jardim, perfumada como
branca flor primaveril, esplêndida como estrela fulgurante. Gloriosa
agora no céu, é justamente venerada na terra pela Igreja, ela que
foi, em Cristo, a filha do Pai São Francisco, pobrezinho, e a
mãe das damas pobres.
7. Também houve um grande número de homens que, movidos não só
por devoção, mas também inflamados do desejo da perfeição de
Cristo, abandonavam toda vaidade mundana e seguiam a Francisco.
Crescendo e se multiplicando dia após dia, espalharam-se em pouco
tempo até aos confins da terra. Realmente a santa pobreza, único
viático que levavam consigo em suas viagens, os tomava prontos para
toda obediência, fortes para enfrentar as fadigas e sempre dispostos a
partir em missão. Nada possuíam deste mundo e a nada se apegavam.
Nada, pois, temiam perder. Estavam livres dos cuidados, sem
ansiedades que os perturbassem ou lhes causassem preocupações e os
distraíssem. Seus corações viviam na paz e olhavam o futuro dia
após dia, sem se preocuparem com abrigo para a noite. Em diversas
partes do mundo sucedia-lhes ser cobertos de injúrias como pessoas
desprezíveis e desconhecidas; mas o amor do Evangelho os tornara tão
pacientes, que eles mesmos procuravam os lugares em que sabiam que
seriam per seguidos e evitavam aqueles em que a santidade deles era
conhecida e haviam encontrado honra e simpatia. A pobreza que
suportavam era para eles como riqueza e abundåncia, e segundo a
palavra do profeta tinham prazer "não nas coisas grandes, mas nas
pequenas" (Eclo 29,30).
Certa vez, alguns irmãos chegados às terras dos pagãos encontraram
um sarraceno que, movido de compaixão, lhes ofereceu dinheiro
necessário para comprarem o que comer, mas eles recusaram aceitar o
dinheiro. Ficou admirado, porque via que nada tinham. Percebeu
então que era por amor a Deus que eles se haviam feito mendigos e
recusavam dinheiro. Sentiu-se tão atraído por eles, que se
ofereceu para dar-lhes o suprimento necessário, enquanto lhe restasse
alguma fortuna. Preciosa e inestimável pobreza, poder admirável que
soube converter em tão grande ternura e compaixão um coração
bárbaro e feroz! Por conseguinte, é um crime monstruoso e
detestável que um cristão pisoteie e despreze essa pérola preciosa
que teve em tão grande estima um infeliz sarraceno.
8. Nesse tempo, um religioso da Ordem dos Crucíferos, chamado
Morico, encontrava-se numa hospedaria próxima à cidade de Assis,
vítima de enfermidade tão grave e prolongada, que os médicos
esperavam para muito breve a sua morte. Vendo-se nesse estado,
enviou o enfermo uma pessoa que em seu nome pedisse com inståncia a
Francisco se dignasse rogar por ele ao Senhor. Ouviu o santo
afavelmente essa súplica e recolhendo umas migalhas de pão,
amassou-as com um pouco de azeite tomado da låmpada que ardia diante
do altar da Santíssima Virgem, formou com essa massa um preparado
inteiramente novo e o enviou ao doente através de seus religiosos,
dizendo-lhes ao mesmo tempo: "Ide, levai este remédio ao nosso
irmão Morico e dizei-lhe que estou certo de que por meio dele a
virtude onipotente de Cristo não só lhe devolverá inteiramente a
saúde, mas também, convertendo-o em esforçado guerreiro, fará
que venha muito cedo a engrossar as fileiras de nosso exercito". Mal
o enfermo provou daquele antídoto, feito sob inspiração divina,
levantou-se completamente curado, sentindo-se tão revigorado por
Deus na alma e no corpo que, tendo ingressado na Ordem de
Francisco, nela perseverou por muitos anos levando uma vida de muita
penitência: suas vestes eram apenas uma túnica pobre e consumida pelo
uso, sob a qual levou por muito tempo um áspero cilício, colado à
carne; comia apenas alimentos crus, ervas, legumes e frutas; não se
sabe que tenha provado algum dia pão e vinho. Apesar disso, sempre
viveu são e robusto e sem achaques de espécie alguma.
9. Cresciam cada dia mais em mérito os pobrezinhos de Cristo, e a
fama de que gozavam se espalhou como um perfume, atraindo de todos os
pontos da terra homens que queriam conhecer nosso bem-aventurado Pai.
E até mesmo um poeta mundano, outrora coroado pelo imperador e
apelidado posteriormente "Rei das Canções", desejou conhecer esse
homem de Deus, de cujo desprezo pelo mundo todos falavam.
Encontrou-o, por acaso, pregando num mosteiro de São Severino, e
ali a mão do Senhor pousou sobre ele: viu Francisco, pregador da
cruz de Cristo, atravessado por duas espadas brilhantes e postas em
forma de cruz; uma delas descia da cabeça aos pés e a outra se
dirigia, penetrando pelo peito, desde a extremidade de uma mão até a
da outra. O poeta não conhecia a Francisco pessoalmente, mas
percebeu que a pessoa que lhe aparecia naquele milagre não poderia ser
outra. Ficou estupefato ante aquela visão que Deus lhe mostrava e
imediatamente resolveu encetar uma vida mais santa; a palavra do santo
levou-o à compunção, como se uma espada espiritual saindo de sua
boca o tivesse traspassado. Por isso, desprezando todas as pompas e
vaidades do mundo, uniu-se a Francisco e abraçou resolutamente seu
gênero de vida, professando a Regra da Ordem. E como o Seráfico
Pai muito se alegrou ao vê-lo convertido das iniqüidades do mundo à
tranqüila paz de que gozam os verdadeiros discípulos de Cristo, quis
que na Ordem fosse conhecido com o nome de Frei Pacífico. Muito
santo se tornou Pacífico mais tarde; e antes de ir à França, em
que foi o primeiro ministro provincial, foi agraciado por Deus com uma
visão. Um grande tau apareceu várias vezes na testa de Francisco,
iluminando e adornando maravilhosamente a sua face com singular
variedade de cores. E na verdade o santo nutria grande veneração e
afeto pelo sinal tau. E mesmo o recomendava muitas vezes por palavras
e o escrevia de próprio punho sobre as cartas que enviava, como se sua
missão consistisse, conforme a palavra do profeta, em "marcar com um
tau a fronte dos homens que gemem e choram" (Ez 9,4),
convertidos sinceramente a Cristo.
10. Com o passar dos anos e crescendo o número dos irmãos, o
solícito pastor começou a reuni-los no local chamado Santa Maria da
Porciúncula para o capítulo geral, a fim de repartir entre eles,
por sorte, a terra ou propriedade de sua pobreza e dar a cada qual a
porção que a obediência determinasse. Mais de cinco mil irmãos aí
se reuniram e faltava tudo nesse lugar. Mas Deus, em sua bondade,
veio-lhes em socorro, concedendo-lhes o suficiente para as forças do
corpo e a alegria do espírito. Aos capítulos provinciais Francisco
não podia assistir pessoalmente, mas a sua presença era marcada por
diretivas solícitas, oração contínua e com sua bênção eficaz.
E às vezes mesmo, por virtude do poder de Deus, ele aparecia
visivelmente. Um dia, por exemplo, quando o glorioso confessor de
Cristo, Antônio, estava pregando aos irmãos no
Capítulo de Arles
acerca do título da cruz: "Jesus Nazareno, Rei dos Judeus",
certo religioso de virtude comprovada, de nome Monaldo, movido por
instinto interior e divino, dirigiu os olhos para a porta da sala onde
se celebrava o capítulo, e cheio de admiração viu ali, com os olhos
corporais, o seráfico Pai, que, elevado no ar e de mãos estendidas
em forma de cruz, abençoava seus religiosos. Todos experimentaram
naquela ocasião tanta e tão extraordinária consolação de
espírito, que em seu interior não lhes foi possível duvidar da real
presença do seráfico Pai, confirmando-se depois nesta crença não
só pelos sinais evidentes que haviam observado, como também pelo
testemunho que verbalmente lhes deu o próprio santo. Devemos admitir
que a mesma força onipotente de Deus que permitiu outrora ao santo
bispo Ambrósio assistir aos funerais do glorioso Martinho, para que
venerasse com piedoso afeto aquele santo pontífice, essa mesma
providência quis igualmente que seu servo Francisco estivesse presente
à pregação de Santo Antônio, grande arauto do Evangelho, para
que aprovasse a verdade daquela doutrina, sobretudo no que se refere à
cruz de Cristo, cujo ministro e embaixador fora constituído.
11. Quando a Ordem se expandiu, Francisco julgou ter chegado o
momento de obter a confirmação em caráter definitivo pelo Papa
Honório, sucessor de Inocêncio, da forma de vida aprovada por este
último. Deus então, para instruí-lo, fez-lhe a seguinte
revelação: parecia-lhe ter ajuntado do chão minúsculas migalhas de
pão e ele devia distribui-las a seus irmãos esfaimados que se
comprimiam em grande número à sua volta. Como hesitasse em
distribuir tão pequenas migalhas que lhe poderiam ter escapado das
mãos, disse-lhe uma voz do céu: "Francisco, com todas essas
migalhas faze uma hóstia e poderás dar de comer a todos os que o
desejarem". Ele assim fez, mas todos aqueles que a recebiam sem
devoção ou a tratavam sem consideração apareciam claramente marcados
de uma lepra que os consumia. De manhã, contou o santo tudo isso a
seus companheiros, triste por não saber penetrar o mistério. Mas no
dia seguinte à noite enquanto, privando-se do sono, ele continuava a
orar, ouviu a mesma voz lhe dizer do alto do céu: "Francisco, as
migalhas que viste na última noite são as palavras do Evangelho, a
hóstia representa a Regra e a lepra o pecado".
Querendo, pois, reduzir a uma forma mais sucinta, conforme o sentido
da visão anterior, a Regra escrita antes com abundåncia de palavras
tomadas ao Evangelho, movido por inspiração divina, subiu com dois
companheiros ao cume de um monte e aí, havendo-se entregue durante
vários dias a um jejum rigoroso a pão e água, fez escrever uma nova
Regra conforme o Espírito Santo lhe ia ditando. Mas aconteceu
que, ao descer do monte, Francisco entregou aquela Regra a seu
vigário, com encargo de a guardar; e como este, depois de alguns
dias, afirmasse que a havia perdido por descuido, o santo voltou
novamente à solidão do monte e a escreveu pela segunda vez de modo
inteiramente igual à primeira, como se o próprio Deus a houvesse
ditado palavra por palavra. Depois disso, conseguiu logo, como
desejava, que o mencionado Papa Honório III lhe confirmasse
solenemente a Regra, no oitavo ano de seu pontificado. Exortando
mais tarde fervorosamente a seus filhos à fiel observåncia da referida
Regra, garantia-lhes que ele nada havia colocado nela que fosse de
sua reflexão pessoal, antes tudo o que continha escrevera conforme o
próprio Senhor lhe havia revelado. E para que assim constasse com
mais certeza para testemunho divino, passados alguns dias, foram
impressas em seu corpo pelo dedo do Deus vivo as chagas de Cristo,
como se fossem elas uma bula do Sumo Pontífice, Cristo Jesus, em
confirmação absoluta da Regra e recomendação eficaz de seu autor,
como se dirá depois ao descrevermos mais amplamente as virtudes do
santo.
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