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1. A humildade, defesa e ornamento de todas as virtudes, havia
cumulado o homem de Deus de bens superabundantes. Aos próprios
olhos, era apenas um pobre pecador. Na realidade, porém, era o
espelho resplendente de toda santidade. Como um arquiteto prudente
(cf. 1Cor 3,10), que começa pelas fundações, ele se
empenhou. de corpo e alma a construir unicamente sobre a humildade,
conforme aprendera de Cristo. "O Filho de Deus, dizia ele,
deixando o seio do Pai, desceu das alturas do céu até a nossa
miséria para nos ensinar a humildade, Ele, que é o Senhor e o
Mestre, tanto pelo exemplo quanto pela palavra". Por isso, como
verdadeiro discípulo de Cristo, procurava diminuir-se aos próprios
olhos e dos demais, recordando as palavras do Mestre: "O que para
os homens é estimável, é abominável perante Deus" (Lc
16,15). E gostava de repetir esta máxima: "O homem é o que
é diante de Deus, nem mais nem menos". Por isso considerava
insensatez consumada envaidecer-se alguém com os favores do mundo, o
conforme essa doutrina, se alegrava particularmente com as ofensas que
recebia e se entristecia quando alguém o louvava. Pois preferia ouvir
a seu respeito vitupérios e não louvores, sabendo que aqueles
contribuíam eficazmente para sua própria emenda, enquanto os louvores
poderiam causarlhe algum dano à alma. Segundo esse princípio,
quando as pessoas exaltavam sua elevada santidade, costumava ordenar a
um dos irmãos que, sem receio, lhe dirigisse palavras de desprezo e
humilhação. E quando o religioso, forçado pela obediência, o
chamava de rústico, grosseiro, homem iletrado ou inútil para tudo,
cheio de santa alegria, que se refletia em seu semblante, Francisco
lhe respondia: "Bendiga-te o Senhor, meu filho, pois és o único
que dizes a verdade, e são estas as palavras que sempre deveria ouvir
o filho de Pedro Bernardone".
2. E para fazer-se desprezível aos outros, não hesitava, nas
viagens de pregação que fazia, de revelar a todo o povo seus
próprios defeitos. Um dia, doente e sem mais energias, viu-se
obrigado a suavizar um pouco os rigores de seu jejum a fim de recuperar
a saúde. Assim que recobrou as forças, não perdeu tempo em se
expor ao desprezo dos outros, tanto ele mesmo se desprezava: "Não
é justo que as pessoas me tomem por um homem mortificado, enquanto
ocultamente cuido de mim com demasiadas regalias". Levantou-se
então imediatamente, impelido pelo espírito de santa humildade, e
tendo convocado o povo para a praça da cidade de Assis, entrou na
catedral com grande solenidade, acompanhado de muitos irmãos que
trouxera consigo. Atou uma corda ao pescoço e nu, sem outras roupas
que as necessárias para o decoro, apresentou-se diante de todos e em
seguida ordenou que o conduzissem ao pelourinho onde era costume manter
os criminosos que deveriam ser executados. Subiu ao pelourinho, e no
maior rigor do inverno e apesar de estar ardendo em febre e extremamente
fraco, pregou com grande fervor de espírito, falando a seus ouvintes
que não deveriam honrá-lo como se fosse um homem espiritual, mas
desprezá-lo como um glutão e carnal. Todos os assistentes, cheios
de admiração diante desse espetáculo extraordinário e profundamente
edificados, pois conheciam muito bem sua austeridade, proclamaram que
semelhante humildade era mais admirável do que imitável. Suponhamos
que se trate de uma dessas ações simbólicas habituais entre os
profetas (cf. Is 20,3), e não propriamente um exemplo; assim
mesmo, temos aí uma bela lição de humildade perfeita em que o
discípulo de Cristo ensina que ele deve desprezar todos os testemunhos
do louvor passageiro, reprimir toda vaidade e pretensão e depor a
máscara da simulação hipócrita.
3. Muitas vezes praticava ações dessa espécie a fim de parecer
externamente como um desses vasos de perdição e dessa forma ter em si
o espírito de santificação. Quando as multidões o aclamavam,
dizia: "Ainda poderei ter filhos e filhas: não me louveis como se
já estivesse a salvo. Não se deve louvar a ninguém quando não se
sabe como há de terminar". Falava assim aos seus admiradores. Mas
a si mesmo dizia: "Francisco, se o Senhor houvesse conferido ao
mais desalmado ladrão os dons que recebeste, saberia agradecê-los e
corresponderia muito mais do que tu". Muitas vezes dizia assim aos
irmãos: "Ninguém deve iludir-se exaltando-se injustamente por
coisas que também um pecador pode realizar. Pois um pecador pode
jejuar, orar, chorar e disciplinar a própria carne. E só isto não
pode fazer: ser fiel ao seu Senhor. Por isso devemos gloriar-nos
somente nestes casos: rendendo a Deus a glória que lhe é devida;
servindo-o com fidelidade; atribuindo-lhe tudo o que lhe pertence".
4. Como o comerciante de que fala o Evangelho, querendo Francisco
ganhar sempre mais e tornar produtivo cada um de seus instantes,
procurou ser súdito e não superior, obedecer e não mandar; por essa
razão, renunciou ao cargo de superior geral, pedindo um guardião a
cuja vontade se submeteu em todas as circunståncias. Com efeito,
dizia ele, o fruto da santa obediência é tão abundante, que nenhuma
fração de tempo transcorre sem vantagem para aqueles que submetem a
cerviz ao jugo da obediência. Por isso tinha o hábito de prometer
sempre obediência ao irmão com quem viajava e de observá-la. Certa
vez disse aos companheiros: "Entre os benefícios que Deus me
concedeu em sua bondade, obtive a graça de estar pronto a obedecer com
igual solicitude a um noviço de uma hora que me fosse dado como
guardião como ao irmão mais antigo e mais experimentado. Um súdito
não deve considerar em seu superior o homem, mas aquele por amor do
qual ele aceitou obedecer. Quanto menos digno o superior, tanto mais
aarada a Deus a humildade daquele que obedece". Aos irmãos que lhe
perguntavam um dia como reconhecer o religioso verdadeiramente
obediente, propôs ele em parábola o exemplo do cadáver: "Tomai,
disse ele, um corpo que a alma abandonou e colocai-o em qualquer
lugar. Vereis que se o moverdes, não se há de opor; se o deixardes
cair, não protestará; se o colocardes numa cátedra, não dirigirá
seus olhos para o alto, mas para o mais baixo da terra; se o
adornardes com vestido de púrpura, só aumentareis sua palidez
cadavérica. Tal o verdadeiro obediente: não julga por que o movem
de um lado para outro, não se preocupa com o lugar onde o coloquem,
não insiste para que o removam de um convento para outro; se é
elevado a um ofício honroso, conserva sua costumeira humildade, e
quanto mais honrado se vê, tanto mais indigno se julga de toda
honra".
5. Um dia disse a um companheiro seu: "Não me julgarei nunca um
verdadeiro irmão menor, enquanto não chegar ao estado de espírito
que te vou descrever. Imagina que eu sou o superior de meus irmãos,
vou ao capítulo, faço um sermão, dou meus conselhos e quando
termino, alguém me diz: ‘Não tens o que é necessário para ficar
conosco; não tens estudos, não és eloqüente, não tens cultura,
e és idiota e simples!’ E sou expulso vergonhosamente, desprezado
de todos. Pois bem, se não ouvisse todos esses impropérios com
igual serenidade de semblante, com a mesma alegria da alma e com igual
tranqüilidade de espírito como se fossem louvores, não seria
certamente irmão menor". E não contente com isso acrescentava:
"Uma dignidade é uma ocasião de queda; o louvor é um precipício
escancarado; mas o lugar de súdito é fonte de méritos para a alma.
Por que desejar os riscos e não as vantagens, uma vez que é para nos
enriquecer que o tempo nos foi dado?" Compreende-se pois por que
Francisco, modelo de humildade, quis que seus irmãos fossem chamados
"frades menores", e os superiores da Ordem "servos", para assim
empregar os próprios termos do Evangelho (cf. Mt 25,45) que
ele aceitou seguir e ensinar a seus discípulos, recordando-lhes que
haviam entrado na escola de Cristo de coração humilde precisamente
para dele aprenderem a humildade. Jesus Cristo efetivamente, para
ensinar a seus discípulos a santa humildade, havia dito: "Aquele
dentre vós que quiser ser o maior deve fazer-se servidor de todos, e
aquele de vós que quiser ser o primeiro, seja vosso servo" (Mt
20,26-27). Certo dia, falava o servo de Deus com o cardeal
bispo de Óstia, protetor e principal propagador da Ordem dos Frades
Menores, que mais tarde, segundo a profecia do santo, chegou a ser
Pontífice Romano, com o nome de Gregório IX. Este lhe
perguntou se desejava que seus irmãos fossem promovidos às dignidades
eclesiásticas, e Francisco lhe respondeu: "Senhor, meus irmãos
se chamam precisamente ‘menores’ para que nunca presumam elevar-se a
coisas maiores. Se quereis, pois, que dêem fruto abundante na
Igreja de Deus, deixai-os e conservai-os no estado de sua própria
vocação e não permitais de modo algum que sejam promovidos aos
honrosos cargos da Igreja".
6. Preferindo a pobreza para si e seus irmãos acima de qualquer
honra deste mundo, Deus que ama os humildes julgou-o digno de maior
honra. Esse fato foi revelado a um dos irmãos, homem virtuoso e
santo, numa visão que teve do céu. Estava viajando com Francisco,
quando entraram numa igreja abandonada, onde oraram com todo fervor.
Este irmão teve então uma visão em que via uma multidão de tronos
no céu, um dos quais era radiante de glória e adornado de pedras
preciosas e era o mais elevado de todos. Estava maravilhado com tanto
esplendor e se perguntava a quem ele caberia. Ouviu então uma voz que
lhe dizia: "Esse trono pertenceu a um dos anjos caídos. Agora
está reservado ao humilde Francisco". Ao voltar a si do êxtase, o
irmão seguiu o santo que estava saindo da igreja. Retomaram o caminho
e continuaram conversando sobre Deus. O irmão recordou-se então da
visão e discretamente perguntou a Francisco o que achava de si mesmo.
Respondeu o humilde servo de Cristo: "Reconheço que sou o maior
pecador do mundo". Replicou-lhe o irmão que ele não podia fazer
semelhante afirmação em consciência tranqüila, nem mesmo pensar
assim. Francisco continuou: "Se Cristo houvesse tratado ao maior
celerado dos homens com a mesma misericórdia e bondade com que me tem
tratado, tenho certeza que ele seria muito mais reconhecido a Deus do
que eu". Ao ouvir palavras de tanta humildade, o irmão teve a
confirmação de que a sua visão era verdadeira, sabendo perfeitamente
que, segundo o santo Evangelho, o verdadeiro humilde será exaltado
ao trono de glória de que o soberbo é excluído.
7. Em outra ocasião, enquanto orava numa igreja deserta da
província de Massa, próxima a Monte Casale, soube por
inspiração divina que naquela igreja jaziam relíquias de santos.
Penalizado de vê-las assim tanto tempo abandonadas sem a veneração
que lhes era devida, ordenou aos irmãos que as levassem ao convento.
Depois, chamado a outros compromissos, deixou os irmãos, que
esqueceram a ordem do Pai e perderam o mérito da obediência. Um
dia, porém, desejando celebrar os sagrados mistérios, descobriram,
para grande surpresa de todos, sob as toalhas do altar, ossos
belíssimos e de suave perfume. Eram as relíquias transportadas para
lá não pelas mãos dos homens, mas pelo poder de Deus. Voltando
pouco depois, o homem de Deus lhes perguntou se haviam executado suas
ordens a respeito das relíquias. Os irmãos humildemente se acusaram
de haverem descuidado de obedecer e obtiveram o perdão depois de se
penitenciarem. E disse-lhes o santo: "Bendito seja o Senhor meu
Deus que se dignou ele mesmo fazer o que vós deveríeis ter feito!"
Considerai a solicitude da divina Providência pela poeira que somos
todos nós e reconhecer a excelência da virtude do humilde Francisco
na presença de Deus, pois, não tendo os homens cumprido as ordens
do santo, quis o próprio Deus condescender benignamente a seus
desejos.
8. Certo dia Francisco chegou a Ímola e se dirigiu ao bispo local
para lhe pedir humildemente autorização de convocar o povo e pregar.
Ao ouvir o bispo semelhante pedido, respondeu-lhe com certa dureza:
"Meu irmão, eu mesmo prego a meu povo e isto basta!" Francisco
inclinou a cabeça com toda humildade e saiu. No entanto, não havia
passado ainda uma hora, e lá estava ele de novo. O bispo ficou quase
irritado e lhe perguntou o que vinha fazer de novo. Então Francisco
replicou respeitosamente e sem o mínimo sinal de arrogåncia:
"Senhor, quando um pai expulsa o filho por uma porta, este deve
encontrar uma outra para entrar". Vencido com tanta humildade, o
bispo, entusiasmado, abraçou-o e disse-lhe: "Doravante pregareis
em minha diocese, tu e teus companheiros; dou-vos permissão
irrestrita, pois tua santa humildade bem a merece!"
9. Em outra ocasião chegou Francisco a Arezzo e encontrou toda a
cidade num grande tumulto provocado pelas lutas de facções políticas
à beira da destruição. Encontrou hospedagem numa aldeia fora das
muralhas da cidade e pôde ver os demônios que perturbavam os cidadãos
e os excitavam à mútua matança. Resolvido a banir para longe
aquelas sediciosas forças infernais, enviou para diante de si, como
núncio ou embaixador, ao bem-aventurado irmão Silvestre, homem de
columbina simplicidade, dizendo: "Vai, meu filho, às portas da
cidade e da parte de Deus onipotente e em virtude da santa
obediência, ordena a esses demônios que saiam imediatamente".
Obediente como era, cumpriu imediatamente o que lhe mandava o santo.
Aproximou-se das portas da cidade, cantando um hino de louvor a
Deus, e clamou em altos brados: "Em nome do Deus onipotente e por
ordem de seu servo Francisco, ide-vos embora, todos vós espíritos
infernais!" Logo a cidade ficou pacificada e se tranqüilizaram seus
moradores respeitando os mútuos direitos. Assim, banida para longe
dali a soberba furiosa dos demônios que haviam cercado a cidade e
sobrevindo a sabedoria de um pobrezinho, quer dizer, a profunda
humildade de Francisco, refez-se a paz ficando a cidade libertada,
pois com a extraordinária virtude de sua obediência Francisco
merecera alcançar sobre aqueles espíritos rebeldes e dispostos a tudo
tal domínio, que pôde reprimir suas diabólicas fúrias e pôr em
fuga sua danosa violência.
10. Como acabamos de ver, as excelentes virtudes dos humildes
abatem o orgulho dos demônios. No entanto, para resguardar a sua
humildade, permite Deus que recebam bofetadas, como atesta São
Paulo de si mesmo (cf. 2Cor 12,7) e como Francisco
experimentou. Convidado, certo dia, pelo Senhor Cardeal Leão de
Santa Cruz a permanecer com ele em Roma por algum tempo, consentiu
humildemente, pois respeitava e amava muito o cardeal. Mas, ao
anoitecer, Francisco, depois de haver orado, se preparava para
dormir, quando surgiram demônios furiosos que caíram sobre o soldado
de Cristo, bateram nele e o deixaram :semimorto. Chamando então
seu companheiro, o servo de Deus lhe contou o que acabara de acontecer
e concluiu: "Vês, irmão, se os demônios que só possuem o poder
que a Providência divina lhes concede se lançaram sobre mim com tanta
fúria, é porque a minha permanência na corte dos grandes é um mau
exemplo. Meus irmãos que moram em pequenos conventinhos, se souberem
que vivo em companhia de cardeais, poderiam acreditar que estou
mergulhado nas coisas mundanas, inebriado pelas honras e cumulado de
bem-estar. Creio ser melhor que aquele que tem por vocação dar o
exemplo fuja dos palácios e more humildemente em pobres conventos no
meio dos humildes, a fim de lhes dar, partilhando de sua situação,
mais força para suportar a sua indigência". De manhã procuraram o
cardeal e com humildes escusas se despediram dele.
11. O homem de Deus detestava a soberba, origem de todos os
males, e a desobediência, filha da soberba; mas estava sempre
disposto a acolher toda atitude humilde de penitência e
arrependimento. Certa vez, apresentaram-lhe para o justo castigo um
irmão acusado de desobediência. Por sinais que não o enganavam, o
homem de Deus percebeu que o irmão estava sinceramente arrependido e
imediatamente se dispôs ao perdão, tanto amava ele a humildade.
Todavia, para evitar que a facilidade do perdão fosse para os outros
um incentivo para faltarem, ordenou que lhe tirassem o capuz e o
lançassem às chamas. Cumpria mostrar a todos o rigor que merecem as
faltas à obediência. Depois de algum tempo mandou que retirassem do
fogo o capuz para restituí-lo ao irmão, humilde e arrependido.
Retiraram então o capuz do meio do fogo. E que maravilha! O capuz
não tinha o menor sinal de queimadura! Deus assim demonstrava com um
só milagre a virtude do santo e a humildade do penitente.
A humildade de Francisco merece pois ser imitada. Ele conseguiu tal
mérito ainda neste mundo que fez o próprio Deus condescender com seus
desejos, mudou os afetos do coração humano, reprimiu com seu poder a
presunçosa malícia dos demônios e, com apenas um gesto de sua
vontade, apagou a voracidade das chamas. Esta virtude é, na
verdade, a que, exaltando os homens, obriga ao humilde a dar a todos
o merecido respeito e faz, por outro lado, que todos o honrem e
glorifiquem.
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