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1. A verdadeira piedade, que, na palavra do Apóstolo, é útil a
todas as coisas, enchera o coração de Francisco, compenetrando-o
tão intimamente, que parecia dominar totalmente a personalidade do
homem de Deus. Nasciam daí a devoção que o elevava até Deus, a
compaixão que fazia dele um outro Cristo, a amabilidade que o
inclinava para o próximo, e uma amizade com cada uma das criaturas,
que lembra nosso estado de inocência primitiva. Mas, embora atraído
espontaneamente por todas as criaturas, seu coração o levava
especialmente às almas resgatadas pelo sangue precioso de Cristo
Jesus, e quando nelas percebia qualquer mancha de pecado, chorava sua
desgraça com uma sensibilidade tão patética que as gerava todo dia,
como uma mãe, em Cristo. Entende-se a veneração que tinha pelos
pregadores, ministros da palavra de Deus, porque eles suscitam para
seu irmão morto, para Jesus Cristo crucificado pelos pecadores,
filhos que seu zelo e atividade convertem e dirigem. E dizia que esse
ministério de misericórdia é muito mais agradável ao Pai de todas
as misericórdias do que qualquer sacrifício, sobretudo se o faz em
espírito de perfeita caridade, mais pelo exemplo do que pela palavra,
mais pela oração e pelas lágrimas do que por discursos excessivos.
2. Por isso dizia que se deveria deplorar como destituído de
verdadeira piedade todo pregador que na pregação procura mais a
própria glória do que a salvação das almas ou que destrói com seu
mau exemplo aquilo que ele edifica com a verdade de sua doutrina. Por
isso afirmava que se deve preferir sempre um irmão simples e iletrado a
semelhante pregador, pois aquele por sua simplicidade e santidade de
vida move os outros a praticar o bem. E insistindo nesse ponto,
recordava as palavras da Escritura: "A estéril deu à luz muitos
filhos" (1Rs 2,5), e assim interpretava esse versículo: "A
estéril é o irmão humilde e simples que não tem na Igreja de Deus
o cargo de gerar filhos espirituais. Este dará à luz no dia do
juízo muitos filhos, pois naquele dia o Juiz atribuirá à sua
glória aqueles que ele agora converte com suas preces ocultas. Aquela
que tem muitos filhos ficará estéril, porque o pregador vão e
loquaz, que agora se gloria de haver gerado espiritualmente a muitos,
saberá então que nenhuma parte teve em sua geração espiritual".
3. Procurava a salvação das almas com todo o ardor e com todo o
zelo e dizia-se inundado de suavíssimo consolo e de um gozo inefável
ao saber que, atraídos pelo odor de santidade de seus irmãos
espalhados pelo mundo, muitos homens abraçavam o caminho da virtude.
Ao ouvir tais coisas, exultava de alegria, cumulava das bênçãos
mais copiosas, dignas do maior apreço, a todos aqueles irmãos que
com a palavra ou o exemplo convertiam a Cristo os pecadores. Pelo
contrário, todos aqueles que com sua depravada vida manchavam a honra
de sua religião sagrada incorriam no terrível anátema de sua
maldição: "Por ti, altíssimo Senhor, e por toda a corte
celestial, e por mim, pequenino servo vosso, sejam malditos aqueles
que com seu mau exemplo confundem e destroem o que edificastes e nunca
cessais de edificar pelos santos irmãos desta Ordem" 17.
Enchia-se muitas vezes de tanta tristeza ao ver escandalizados os
pequeninos, que julgava perder a vida, não fossem as forças que lhe
dava a divina clemência. Certo dia, perturbado por causa dos maus
exemplos, orava fervorosamente ao Pai das misericórdias em favor de
seus filhos, e ouviu do Senhor estas palavras: "Por que te
perturbas, vil homenzinho? Porventura o poder que te dei sobre minha
Ordem te teria feito esquecer que sou eu o seu principal protetor? Se
eu te escolhi a ti, homem simples, é para que tudo aquilo que
realizarei em ti não seja atribuído ao trabalho do homem mas à graça
do alto. Eu te chamei, te guardarei e alimentarei; se alguns irmãos
caírem, levantarei outros em seu lugar, e, se preciso, farei nascer
outros mais; e por maiores que sejam as perseguições suscitadas
contra esta pobre religião, ela permanecerá sempre firme com meu
auxílio".
4. Fugia da maledicência como se foge da picada de uma serpente ou
de uma epidemia horrível, por ser mortal para a piedade e a graça,
objeto de abominação de Deus infinitamente bom, dizia ele, porque o
maledicente se alimenta do sangue das almas que ele matou com a espada
de sua língua. Ouviu certo dia um irmão denegrindo o bom nome de um
outro; voltou-se para o seu vigário e lhe disse: "Apressa-te,
faze uma investigação minuciosa. E se verificares que o irmão
acusado é inocente, impõe ao acusador um castigo exemplar!" Na sua
opinião, aquele que havia despojado um irmão de sua reputação devia
ser despojado do hábito com proibição de levantar os olhos para o
céu, enquanto não houvesse procurado, segundo suas possibilidades,
restituir aquilo que havia roubado. "E a maledicência é um pecado
maior que um roubo, dizia ele, pois a lei de Cristo que cumprimos por
amor nos obriga a desejar a salvação das almas mais do que a do
corpo".
5. Com grande ternura se compadecia Francisco de todos os que se
encontravam aflitos por causa de alguma enfermidade corporal. E quando
notava em alguém indigência ou necessidade, na suave piedade do
coração, a considerava como sofrimento do próprio Cristo. A
caridade de Cristo, infusa em sua alma, havia multiplicado a bondade
inata. Seu coração se comovia de piedade à vista dos pobres e
doentes. E quando não podia socorrê-los materialmente, procurava
ao menos mostrar-lhes seu amor. Ouviu um dia um irmão maltratar um
mendigo importuno; amante que era de todos os pobres, ordenou ao
irmão: "Tira o hábito, lança-te aos pés deste pobre, reconhece
publicamente tua falta, pede-lhe perdão e que reze por ti!" O
outro obedeceu humildemente, e o Pai lhe disse com bondade: "Quando
vês um pobre, irmão, é a imagem do Senhor e de sua pobre Mãe que
tens diante dos olhos. De igual modo deves considerar nos enfermos as
misérias a que Cristo quis se sujeitar por nosso amor". Em todos os
pobres ele, que era pobre e de espírito cristão, via a imagem de
Cristo. Por isso, quando os encontrava, dava-lhes generosamente
tudo quanto havia recebido de esmola, ainda que necessário para
viver. Estava convencido de que devia restituir-lhes o que era
deles. E voltando um dia de Sena, encontrou um pobre; ele mesmo,
por causa de sua doença, levava além do hábito um pequeno manto.
Viu a miséria do pobre e não se conteve: "É preciso, disse ele ao
companheiro, que devolvamos a esse homem o manto que lhe pertence.
Nós o recebemos emprestado até encontrar uma pessoa mais pobre que
nós". Mas o companheiro sabia os cuidados que exigia o estado do
Pai e se opôs terminantemente a que socorresse o outro com prejuízo
próprio. Mas ele disse: "Minha convicção é que o Grande
Esmoler me repreenderia como um roubo não dar a alguém que fosse mais
necessitado aquilo que eu levo". Aliás, ao receber qualquer coisa
em vista de sua saúde, costumava pedir licença ao doador para dar de
presente a oferta, caso encontrasse quem fosse mais pobre do que ele.
Distribuía tudo o que recebia: mantos, túnicas, livros, toalhas
de altar ou tapetes, tudo o que servisse de esmola aos pobres, para
cumprir o dever da caridade. Muitas vezes ao se encontrar com pobres
carregando pesadas cargas, punha-as sobre seus próprios ombros para
auxiliá-los.
6. Acostumado a voltar continuamente à origem primeira de todas as
coisas, concebeu por elas todas uma amizade extraordinária e chamava
irmãos e irmãs as criaturas, mesmo as menores, pois sabia que elas e
ele procediam do mesmo e único princípio. Contudo, tratava com
muito maior ternura e mais suavemente as criaturas que representam de
certo modo natural a piedosa mansidão de Cristo. As vezes resgatava
cordeiros levados ao matadouro, em lembrança do Cordeiro mansíssimo
que desejou ser levado à morte para resgatar os pecadores. Uma noite
em que se hospedara no mosteiro de São Verecundo, na diocese de
Gúbio, uma ovelha deu à luz um cordeiro. Mas uma porca impiedosa
se encontrava no estábulo; sem comiseração pelo inocente, matou-o
barbaramente e o devorou. Ao saber disso, o Pai compassivo, muito
comovido e recordando-se do Cordeiro sem mancha, chorou diante de
todos a morte do cordeirinho: "Ai de mim, irmão cordeirinho,
animal inocente, que és para os homens a imagem da mansidão de
Cristo! Maldita seja a ímpia que te causou a morte; que nenhum
homem nem animal algum se alimente de suas carnes!" Coisa
admirável! No mesmo instante começou a porca a ficar doente, e
depois de haver sofrido durante três dias dores horríveis, pagou
enfim com a morte aquela crueldade. Lançada para fora da cerca do
mosteiro, esteve ali seca como uma tábua por muito tempo, de modo que
não serviu de alimento para nenhum faminto. Considere aqui a
impiedade humana com que castigo tão atroz será castigada no fim dos
tempos, se com morte tão horrenda se castigou a ferocidade de um
irracional; e advirta igualmente a piedade dos fiéis quão admirável
foi no servo de Deus a virtude da misericórdia e a ternura para com
todos, que mereceu de certo modo ser louvada pelos próprios animais.
7. Viajando certa vez pelos arredores de Sena, encontrou nos campos
um grande rebanho de ovelhas. Mal as saudou, afavelmente, e todas
pararam de pastar e correram para ele, levantando a cabeça e
fixando-o com os olhos. Fez-lhes tanta festa, que os pastores e
irmãos ficaram maravilhados de as ver tão contentes, desde os
cordeiros até aos carneiros. Em Santa Maria da Porciúncula,
certo dia ofereceram ao homem de Deus uma ovelha que ele de boa mente
aceitou, tanto ele amava a inocência e simplicidade que esses animais
manifestam espontaneamente. O santo lhe fazia suas recomendações:
estar atenta aos louvores divinos, não causar dano aos irmãos por
menor que fosse... E ela, sensível à afeição do homem de
Deus, fazia o que podia para se conformar. Quando ouvia o canto dos
irmãos no coro, também entrava na igreja, dobrava os joelhos sem que
ninguém lhe tivesse ensinado e. como saudação, dava alguns vagidos
diante do altar da Virgem, Mãe do Cordeiro. Além disso, quando
na celebração da missa chegava o momento em que o sacerdote levantava
o sacratíssimo corpo de Cristo, a ovelhinha dobrava os joelhos em
atitude reverente como se desse modo quisesse censurar a irreverência
dos maus cristãos e convidar aos devotos à maior veneração de tão
grande sacramento. Por um certo tempo em que se encontrava na cidade
de Roma, teve também sob sua guarda, em recordação do Cordeiro
sem mancha, um cordeirinho, o qual entregou à nobre e devota matrona
Jacoba de Settesoli. O cordeirinho, como se estivesse instruído
pelo santo nas coisas espirituais, era um companheiro inseparável
dessa senhora, seguia-a à igreja, aí ficava com ela e com ela
voltava para casa. E se acaso a senhora não se mostrava tão
diligente em levantar-se pela manhã, o cordeirinho acordava-a com
seus balidos e golpeava-a com seus pequenos chifres, exortando-a com
tais gestos a apressar-se a ir à igreja. Por esse motivo, aquela
senhora guardava com admiração e amor o cordeirinho, discípulo de
Francisco, que era então já mestre na vida devota.
8. Outra ocasião, em Greccio, ofereceram ao homem de Deus uma
lebrezinha viva que, posta no chão e livre para fugir para onde
queria, correu para o regaço do bondoso Pai quando este a chamou.
Francisco acariciou-a com ternura e afeto, demonstrando-lhe um amor
quase materno, depois admoestou-a gentilmente que não mais se
deixasse apanhar e permitiu-lhe ir-se embora em liberdade. Em vão,
porém, a colocaram em terra para que fugisse. Ela voltava ao Pai
como se por um instinto secreto percebesse a piedade de seu coração.
Por fim, por ordem do Pai, os irmãos a levaram a lugares mais
distantes e mais seguros.
Fato semelhante ocorreu numa ilha do lago de Perusa. Haviam
capturado uma lebre e a ofereceram ao homem de Deus. Ela se refugiava
com muita confiança nas mãos e no regaço amoroso do homem de Deus,
embora fugisse de todas as outras pessoas.
Ao atravessar o lago de Rieti, a fim de alcançar o eremitério de
Greccio, certo pescador, por devoção, lhe ofereceu uma ave
aquática. Tomou-a ele nas mãos abertas e convidou-a a voar
embora. Mas vendo o santo que ela não queria ir embora, levantando
os olhos para o céu, ficou imerso em longa oração. Depois de muito
tempo, voltando a si, como se fosse de um outro mundo, voltou a
convidar o pássaro a voar embora e louvar o Senhor. E tendo recebido
a permissão e a bênção, expressando sua alegria com os movimentos
do corpo, partiu. Ainda no mesmo lago, ofereceram-lhe um peixe
magnífico e ainda vivo; chamou-o de "irmão", como sempre fazia,
e o colocou de volta na água perto do barco. Mas o peixe continuou a
agitar-se alegremente na água diante do homem de Deus, como se
estivesse sob o influxo de seu amor, e só se afastou do barco depois
de receber a permissão e a bênção do santo.
9. Atravessando certo dia as lagunas de Veneza em companhia de um
irmão, encontrou um grande bando de passarinhos nos salgueiros
cantando animadamente. Diante desse espetáculo, disse a seu
companheiro: "Nossos irmãos pássaros estão louvando o Criador;
associemo-nos a eles para também nós cantarmos nossas horas
canônicas e os louvores do Senhor!" Entraram para o meio dos
pássaros e nenhum se espantou. Mas o gorjeio ensurdecedor impedia os
irmãos de escutar um ao outro na recitação dos Salmos. Então o
santo se voltou para eles e lhes disse: "Irmãos passarinhos, parai
de cantar até que tenhamos prestado a Deus os louvores que lhe são
devidos". Eles se calaram imediatamente e ficaram assim até ao fim
do ofício e das laudes que levam bastante tempo. Em seguida, o santo
lhes permitiu cantar e eles reencetaram o gorjeio habitual.
Uma cigarra, em Santa Maria da Porciúncula, gostava de morar numa
figueira perto da cela do homem de Deus e seu canto era um estímulo
contínuo ao louvor de Deus, uma vez que ele havia aprendido a admirar
a magnificência do Criador, mesmo nas coisas pequenas. Certo dia,
o servo do Senhor chamou a cigarra que, instruída pelo céu, voou
para sua mão, e disse-lhe Francisco: "Canta, irmã cigarra,
louva com teu júbilo a Deus Criador". E ela, obedecendo,
começou logo a cantar e só parou para voltar à sua árvore, por
ordem do Pai. Aí ficou durante oito dias: ia até ao santo,
cantava e voltava, conforme lhe ordenava ele. Por fim o homem de
Deus disse aos companheiros: "Vamos despedir nossa irmã cigarra:
ela nos alegrou bastante com seu canto e nos incentivou durante oito
dias a louvar a Deus". Uma vez livre, ela partiu e não mais
voltou, como se receasse desobedecer ainda que só levemente.
10. O santo estava doente em Sena, e um nobre lhe enviou um
faisão vivo que ele acabava de capturar. Assim que a ave o viu e
ouviu, de tal maneira se afeiçoou a ele, que não mais queria se
separar dele. Por diversas vezes transportada para longe do convento,
numa vinha, para que fosse embora se assim desejasse, voltava de novo
em rápido vôo ao Pai como se houvesse sido sempre alimentada por sua
mão. Entregue mais tarde a um homem que vinha freqüentemente visitar
o santo por devoção, mas entristecida de ficar assim distante do Pai
amoroso, não quis se alimentar. Devolvida ao servo de Deus, ao
vê-lo começou a se agitar alegremente e comeu então com avidez.
Acabava o santo de voltar à ermida do Alverne certo dia para jejuar
uma quaresma em honra de São Miguel Arcanjo, quando passarinhos de
toda espécie vieram voar em volta de sua cela, como para lhe mostrar
por seus pios e revoadas a alegria por sua vinda, seduzi-lo e
forçá-lo a permanecer. Ao ver tudo isso, disse ao companheiro:
"Estou notando, irmão, que é vontade de Deus permanecermos aqui
por um momento, enquanto nossos irmãos passarinhos parecem encantados
com nossa chegada".
Durante essa estadia aí, um falcão que morava por aquelas partes fez
com ele um pacto de amizade: à noite, chegando a hora em que o santo
tinha por hábito levantar-se para recitar o ofício divino, ele o
antecipava sempre com seu canto. Isso era sumamente grato ao santo,
pois a constante solicitude que o falcão tinha com ele fazia expulsar
toda tentação de preguiça. Mas quando o servo de Deus piorava em
suas enfermidades, o falcão se mostrava muito atento e
condescendente, não o despertando a horas impróprias da noite. Pelo
contrário, como estava instruído pelo próprio Deus, ao amanhecer,
prorrompia em leves e suaves ruídos, à semelhança de quem toca um
sino. A alegria de toda aquela variedade de aves bem como o canto do
falcão eram seguramente o presságio divino da elevação que nesse
lugar, pouco depois, a aparição do serafim devia conferir ao cantor
e ao adorador de Deus arrebatado nas asas da contemplação.
11. Durante uma estadia no eremitério de Greccio, os habitantes
da região sofriam sucessivos prejuízos: lobos ferozes, não
contentes de arrebatar o gado, atacavam também os homens; o granizo
todos os anos devastava as plantações e as vinhas. Vendo-os tão
aflitos, o arauto do santo Evangelho disse-lhes um dia num sermão:
"Para honra e louvor de Deus onipotente, prometo-vos que os males
serão banidos para longe e que Deus, contemplando-vos com amor, vos
enriquecerá de bens temporais se, dando crédito às minhas palavras,
vos arrependerdes mediante prévia e sincera confissão de vossas
culpas, produzindo frutos dignos de penitência’. Ao mesmo tempo,
porém, vos anuncio que se, manifestando-vos ingratos aos benefícios
que haveis recebido do céu, voltardes de novo ao ‘vômito da
culpa’, se renovará a peste, serão muito maiores as penas que
haveis de sofrer e a ira do Senhor vos castigará com rigor maior".
Ao ouvir essas terríveis advertências do zeloso pregador, os
moradores de Greccio se entregaram imediatamente aos rigores de uma
saudável penitência. Logo cessaram as calamidades, desapareceram os
perigos e nem os lobos nem o granizo jamais voltaram a lhes causar algum
mal; pelo contrário, se alguma vez o granizo destruía os campos
vizinhos, ao aproximar-se dos limites de Greccio, ou desaparecia por
completo ou tomava outro rumo. Vê-se, pois, que o próprio granizo
e os lobos observaram fielmente o pacto do servo de Deus e não mais
atentaram contra os bens e propriedades dos homens, convertidos
realmente a Deus, ao menos enquanto, conforme as promessas feitas,
não violaram os mandamentos do Senhor. Devemos, pois, ter em alta
consideração a piedade do bem-aventurado Pai São Francisco, tão
admirável e verdadeiramente celestial, que abrandou a ferocidade dos
animais ferozes, domesticou os animais silvestres, ensinou aos mansos
e reduziu à sua primitiva obediência a natureza animal que por causa
do pecado se rebelara contra o homem. Esta é a verdadeira piedade
que, tornando amigas todas as criaturas, "é útil para tudo, pois
tem a seu favor as promessas da vida presente" (1Tm 4,8) e da
futura.
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