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1. Quem poderá exprimir a caridade ardente que abrasava o coração
de Francisco, o amigo do Esposo? Parecia inteiramente devorado,
como um carvão ardente, pelas chamas do amor de Deus. Logo que
ouvia falar do amor do Senhor, ele se empolgava, ficava comovido e
inflamado, como se a voz que ressoava externamente fosse um arco a
fazer vibrar internamente as cordas de seu coração. Segundo ele,
era uma prodigalidade digna de um príncipe uma tal compensação pelas
esmolas recebidas e prova de loucura total preferir o dinheiro ao, amor
de Deus, pois a inestimável moeda do amor divino é a única que nos
permite resgatar o reino dos céus. Eis por que é necessário amar
muito o amor daquele que muito nos amou. Impelido dessa forma por
todas as coisas ao amor de Deus, ele se. rejubilava em todas as obras
saídas das mãos do Criador, e graças a esse espetáculo que
constituía sua alegria, remontava até Aquele que é a causa e razão
vivificante do universo. Numa coisa bela sabia contemplar o
Belíssimo e, seguindo os traços impressos nas criaturas, por toda
parte seguia o Dileto. De todas as coisas fazia uma escada para subir
até Aquele que é todo encanto. Em cada uma das criaturas, como
derivações, percebia ele, com extraordinária piedade, a fonte
única da bondade de Deus e. como a harmonia preestabelecida por Deus
entre as propriedades naturais dos corpos e suas interações lhe
parecia uma música celestial, exortava todas as criaturas, como o
profeta Davi, ao louvor do Senhor.
2. A recordação de Jesus crucificado permanecia constantemente em
sua alma, como a bolsa de mirra sobre o coração da esposa do
Cåntico dos Cånticos, e na veemência de seu amor extático ele
desejava ser inteiramente transformado nesse Cristo Crucificado. Uma
de suas devoções particulares era, durante os quarenta dias que
seguem a Epifania, que é o tempo do retiro de Cristo no deserto,
procurar a solidão e. oculto em sua cela, dedicar-se
ininterruptamente, observando um jejum rigorosíssimo, à oração e
ao louvor a Deus. Nutria por Cristo um amor tão ardente, e seu
Bem-Amado correspondia-lhe com uma afeição tão familiar, que o
servo de Deus julgava ter diante dos olhos a presença quase contínua
do Salvador; ele mesmo por diversas vezes o disse confidencialmente a
seus irmãos. O sacramento do Corpo do Senhor o inflamava de amor
até ao fundo do coração: admirava, espantado, misericórdia tão
amável e amor tão misericordioso. Comungava muitas vezes e com tanta
devoção, que comunicava aos outros sua devoção quando, todo
inebriado do Espírito e inteiramente absorto em saborear o Cordeiro
imaculado, era arrebatado em freqüentes êxtases.
3. Seu amor à Mãe do Senhor Jesus era realmente indizível,
pois nascia em seu coração ao considerar que ela havia convertido em
irmão nosso ao próprio Rei e Senhor da glória e que por ela
havíamos merecido alcançar a divina misericórdia. Em Maria,
depois de Cristo, depositava toda a sua confiança; por isso a
constituiu advogada sua e de seus irmãos, e em sua honra jejuava
devotamente desde a festa dos apóstolos São Pedro e São Paulo
até o dia da Assunção. Um vínculo de amor indissolúvel unia-o
aos anjos cujo maravilhoso ardor o punha em êxtase diante de Deus e
inflamava as almas dos eleitos; por devoção aos anjos, celebrava uma
quaresma de jejuns e orações durante os quarenta dias que seguem a
Assunção da Santíssima Virgem Maria. São Miguel sobretudo, a
quem cabe o papel de introduzir as almas no Paraíso, era objeto de
uma devoção especial em razão do desejo que tinha o santo de salvar a
todos os homens.
Os santos e a memória deles eram para ele como carvões ardentes, que
reavivavam nele o incêndio deificante. Venerava com devoção
ferventíssima todos os apóstolos e especialmente Pedro e Paulo, por
causa da ardente caridade que tinham a Cristo. Em honra deles e por
amor deles oferecia ao Senhor o jejum de uma quaresma especial.
Nada mais possuía o pobre de Cristo a não ser duas pequenas moedas:
seu corpo e sua alma, que ele podia distribuir com caridade liberal.
Mas oferecia continuamente a Deus seu corpo e sua alma por amor a
Cristo, pois quase a cada instante imolava o corpo com o rigor do
jejum e a alma com a chama do desejo: holocausto, seu corpo, imolado
fora, no átrio do templo; incenso, sua alma, exalado dentro do
templo.
4. Sua devoção fervorosa e sua caridade ardente de tal maneira o
elevavam às coisas divinas, que os efeitos daquelas virtudes se
derramavam copiosamente nos outros homens que lhe eram iguais em
natureza ou em graça. Os sentimentos bem naturais de seu coração
eram suficientes para torná-lo fraterno diante de toda criatura.
Não admira que seu amor a Cristo o tenha transformado ainda mais em
irmão daqueles que levam a imagem do Criador e são resgatados por seu
sangue. Só se considerava amigo de Cristo empenhando-se pelas almas
resgatadas por ele. E afirmava que nada se deveria preferir à
salvação das almas, apresentando para isso como prova decisiva o fato
de que o Unigênito de Deus dignara-se morrer por elas na árvore
santa da cruz. É o que explica a veemência com que ele orava, a
atividade extraordinária de suas viagens de pregação e seus excessos
em se tratando de dar o exemplo. Quando lhe censuravam as austeridades
exageradas, respondia que tinha sido dado aos outros como exemplo.
Embora sua carne inocente, sujeita voluntariamente ao espírito, não
merecesse castigo algum por suas faltas pessoais, contudo, a fim de
dar o exemplo, impunha-lhe sempre novas penas e trabalhos,
"caminhando pelos outros por duras sendas" (SL 16,4).
"Pois, dizia, se eu falasse a língua dos anjos e dos homens e não
tivesse em mim a caridade (1Cor 13,1-3) nem desse àqueles que
estão à minha volta o exemplo da virtude, de nada me adiantaria,
muito menos aos outros".
5. No fervor de sua caridade sentiu-se inspirado a imitar o triunfo
glorioso dos mártires nos quais o fogo da caridade não se extinguia
nem se quebrantava a coragem. Inflamado por esse perfeito amor que
"expulsa o temor" (1Jo 4,13), suspirava por se oferecer como
hóstia viva a Deus imolada pela espada do martírio; dessa forma ele
passaria a Cristo a morte que ele aceitara por nós e levaria os homens
ao amor de Deus. No sexto ano depois de sua conversão, ardendo de
desejo de martírio, resolveu ir à Síria pregar a fé cristã e a
penitência aos sarracenos e a outros infiéis. Mas o navio que o
conduzia foi arrastado pelos ventos contrários para as costas da
Eslavônia. Aí ficou algum tempo sem encontrar navio com destino ao
Oriente. Entendeu que lhe era recusado o que desejava. E como
alguns marinheiros se aprestavam a ir a Ancona, pediu para embarcar
por amor de Deus. Mas como não tivessem com que pagar, os
marinheiros nem quiseram ouvi-lo e o homem de Deus, entregando-se
inteiramente nas mãos de Deus, introduziu-se sub-repticiamente no
navio com seu companheiro. Entretanto, um homem certamente enviado
por Deus para socorrer o pobre Francisco chegou trazendo víveres,
chamou um dos marujos, homem temente a Deus, e lhe disse: "Guarda
com todo cuidado estas provisões para os pobres irmãos que estão
escondidos no navio; tem a bondade de lhes entregar de minha parte
quando tiverem necessidade". Os ventos sopravam com tal violência
que os dias passaram sem que fosse possível abicar em parte alguma; os
marujos estavam no fim das provisões; sobravam apenas as esmolas
graciosamente oferecidas pelo céu ao pobre Francisco. Eram muito
modestas, mas o poder de Deus as multiplicou de tal forma e em tanta
quantidade que, apesar do atraso ocasionado pela tempestade que
continuava a castigar duramente, elas satisfizeram totalmente às
necessidades de todos até Ancona. E os marujos, vendo afastado o
perigo de morte de que os livrara o servo de Deus, deram graças ao
Altíssimo onipotente, que sempre se mostra admirável e amável nos
seus amigos e servos. E com muito acerto, pois haviam enfrentado de
perto os tremendos perigos do mar e visto as admiráveis obras de Deus
nas águas profundas.
6. Afastou-se do mar e começou a peregrinar pela terra espalhando a
semente da salvação e colhendo uma messe abundante de bons frutos.
Mas o fruto que mais o atraía era o martírio, o mérito de morrer
por Cristo; desejava a morte por Cristo mais do que os méritos de
uma vida virtuosa, e dirigiu-se a Marrocos para anunciar o Evangelho
de Cristo ao Miramolim e seu povo e tentar assim conquistar a
suspirada palma do martírio. O desejo que o levava a tais gestos era
tão poderoso que, apesar de sua saúde precária, ia sempre à frente
de seu companheiro de caminhada e, na pressa de realizar seu plano,
parecia voar, inebriado do Espírito Santo. Havia já chegado à
Espanha, mas Deus, que o queria para outras missões, dispusera de
modo diferente os acontecimentos: uma doença bastante grave o
prostrou, impedindo-o de realizar seu desejo. Não obstante a
certeza do Lucro que a morte representava para ele, o homem de Deus
compreendeu ser necessário viver ainda pela família que gerara. Por
isso voltou para cuidar das ovelhas entregues à sua guarda.
7. Mas o ardor de sua caridade o impelia ao martírio. Pela
terceira vez tentou ele partir aos países infiéis para difundir com o
derramamento de seu sangue a fé na Trindade. Aos treze anos de sua
conversão, foi às regiões da Síria, enfrentando corajosamente
muitos perigos a fim de comparecer diante do Sultão da Babilônia,
pessoalmente. Uma guerra implacável castigava cristãos e
sarracenos. Os dois exércitos encontravam-se acampados muito
próximos, separados apenas por uma estreita faixa de terra, que
ninguém podia atravessar sem perigo de morte. O Sultão havia
publicado um edito cruel: todos que lhe trouxessem a cabeça de um
cristão receberiam uma grande quantidade de ouro. Mas o intrépido
soldado de Cristo Francisco, julgando chegada a ocasião de realizar
seus anseios, resolveu apresentar-se diante do Sultão, sem temer a
morte, mas antes desejoso de enfrentá-la. Confortado pelo Senhor,
depois de fervorosa oração, repetia com o profeta: "Ainda que ande
em meio às trevas da morte, não temerei mal algum, porque estás
comigo" (Sl 22,4).
8. Tomou, pois, consigo um companheiro chamado Iluminado, homem
de inteligência e coragem 22. E havendo começado a caminhar,
saíram-lhes ao encontro duas mansas ovelhinhas, à vista das quais,
cheio de alegria, disse a seu companheiro: "Confiemos no Senhor,
irmão, porque em nós se realizam hoje as palavras do Evangelho:
‘Eis que vos envio como ovelhas entre lobos"’ (Mt 10,16).
E tendo-se adiantado, encontraram as sentinelas sarracenas que,
quais lobos vorazes contra ovelhas, capturaram os servos de Deus e,
ameaçando-os de morte, maltrataram-nos com crueldade e desprezo, os
cobriram de injúrias e violências e os algemaram. Por fim, depois,
de havê-los afligido e atormentado de mil maneiras, a divina
Providência fez com que os levassem à presença do Sultão,
realizando-se desse modo as fervorosas aspirações de Francisco.
Colocados em sua presença, perguntou-lhes aquele bárbaro príncipe
quem os havia enviado, a que vinham e como tinham conseguido chegar a
seu acampamento. Ao que respondeu o servo de Deus com intrepidez que
sua missão não procedia de nenhum homem, mas de Deus altíssimo que
o enviava para ensinar a ele e a todo o seu povo os caminhos da
salvação e para pregar-lhes as verdades de vida contidas no
Evangelho. Com tanta conståncia e clareza em sua mente, com tanta
virtude na expressão e com tão inflamado zelo pregou ao Sultão a
existência de um só Deus em três pessoas e a de um Jesus Cristo,
Salvador de todos os homens, que claramente se viu realizar-se em
Francisco as palavras do Evangelho: "Porei em vossos lábios
palavras tão cheias de sabedoria, que a elas não poderá resistir
nenhum de vossos adversários" (Lc 21,15). Admirado o
Sultão ao ver o espírito e o fervor do seráfico Pai, não apenas o
ouvia com grande satisfação, mas até insistiu com repetidas
súplicas que permanecesse algum tempo com ele. Mas o servo de Deus,
iluminado pela força do alto, logo lhe respondeu dizendo: "Se me
prometeres que tu e os teus vos convertereis a Cristo, permanecerei de
muito bom grado entre vós. Mas se duvidas em abandonar a lei impura
de Maomé pela fé santíssima de Cristo, ordena imediatamente que se
faça uma grande fogueira e teus sacerdotes e eu nos lançaremos ao
fogo, a ver se deste modo compreendes a necessidade de abraçar a fé
sagrada que te anuncio". A essa proposta, replicou sem demora o
Sultão: "Não creio que haja entre meus sacerdotes um só que,
para defender sua doutrina, se atreva a lançar-se ao fogo nem esteja
disposto a sofrer o menor tormento". E sobrava-lhe razão para dizer
isso, pois vira que um de seus falsos sacerdotes, ancião e protervo
sequaz de sua lei, desaparecera, mal ouviu as primeiras palavras do
santo. Este acrescentou, dirigindo-se ao Sultão: "Se em teu
nome e em nome de teu povo me prometes abraçar a religião de Cristo,
com a condição que eu saia ileso da fogueira, estou disposto a entrar
eu sozinho nela. Se o fogo me consumir entre suas chamas, atribua-se
isso a meus pecados; mas se, como espero, a virtude divina me
conservar ileso, reconhecereis a ‘Cristo, virtude e sabedoria de
Deus’ (cf. 1Cor 1,24) e único Salvador de todos os
homens". A essa proposta respondeu o Sultão que não podia aceitar
esse contrato aleatório, pois temia uma sublevação popular. Mas
ofereceu-lhe numerosos e ricos presentes que o homem de Deus desprezou
como lama. Não era das riquezas do mundo que ele estava ávido, mas
da salvação das almas. O Sultão ficou ainda mais admirado ao
verificar um desprezo tão grande pelos bens deste mundo. Não
obstante sua recusa ou talvez seu receio de passar à fé cristã,
rogou ao servo de Deus que levasse todos aqueles presentes e os
distribuísse aos cristãos pobres e às igrejas. Mas o santo que
tinha horror de carregar dinheiro e não via na alma do Sultão raízes
profundas da fé verdadeira, recusou-se terminantemente a aceitar sua
oferta.
9. Vendo frustradas suas ånsias de martírio e conhecendo que nada
adiantava seu empenho na conversão daquele povo, resolveu Francisco,
por inspiração divina, voltar aos países cristãos. E assim, por
disposição da bondade divina e pelos méritos e virtude do santo,
sucedeu que o amigo de Cristo procurou com todas as suas energias
morrer por ele, mas não conseguiu. Desse modo não perderia o
mérito do desejado martírio e ainda gozaria de vida para ser mais
adiante assinalado com um singular privilégio. Aconteceu assim para
que aquele fogo primeiro ardesse em seu coração e mais tarde se
manifestasse em sua carne. Ó varão verdadeiramente ditoso, cuja
carne, embora não tenha sucumbido sob o ferro do tirano, teve,
contudo, tão perfeita semelhança com o Cordeiro morto por nosso
amor! Ó varão mil vezes feliz, cuja alma, "embora não haja
sucumbido debaixo da espada do carrasco, nem por isso deixou de
alcançar a palma do martírio!" (cf. Breviário, Ofício de S.
Martinho de Tours, ant. das Vésperas).
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