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1. Francisco, servo de Cristo, tinha perfeita consciência que seu
corpo (inacessível a qualquer paixão terrena em virtude de seu amor a
Cristo) o forçava a caminhar como peregrino longe do Senhor (cf.
2Cor 5,6-8). Empenhava-se portanto por manter sempre ao menos
seu espírito na presença do Senhor por uma oração ininterrupta,
para não ficar sem o conforto do Bem-Amado. Pois para ele era um
consolo na meditação orar e percorrer as mansões celestiais, já
como cidadão dos anjos, para procurar aí, com todo o ardor de seu
desejo, seu Bem-Amado do qual o separava unicamente a barreira da
própria carne. A oração era também uma defesa ao se entregar à
ação, pois persistindo nela, fugia de confiar em suas próprias
capacidades, punha toda a sua confiança na bondade divina, lançando
no Senhor os seus cuidados. Sobre todas as coisas, dizia, deve o
irmão desejar a graça da oração e incitava os seus irmãos por todas
as maneiras possíveis a praticá-la zelosamente, convencido de que
ninguém progride no serviço de Deus sem ela. Quer andasse ou
parasse, viajando ou residindo no convento, trabalhando ou
repousando, entregava-se à oração, de modo que parecia ter
consagrado a ela todo seu coração e todo seu corpo, toda sua
atividade e todo seu tempo.
2. Compenetrado dessas verdades, jamais desprezava por negligência
qualquer visita do Espírito; mas ao contrário, sempre que elas se
apresentavam, seguia-as cuidadosamente e, enquanto duravam,
procurava gozar da doçura que lhe comunicavam. Por isso, se
estivesse caminhando e sentisse alguns movimentos do Espírito divino,
parava um momento, deixando passar os companheiros, para gozar mais
intensamente da nova inspiração e não receber em vão a graça
celeste (cf. 2Cor 6,1). Sua contemplação o levava muitas
vezes a tão alto nível que, arrebatado e fora de si, sentia o que um
homem não pode sentir e ficava alheio ao que se passava à sua volta.
Aconteceu em certa ocasião que ao passar por Borgo San Sepolcro,
de população numerosa, ia montado num jumentinho por causa de sua
enfermidade, e as multidões saíram ao seu encontro, atraídas a ele
pela fama de suas virtudes. Detido por essas turbas, que o rodeavam e
comprimiam de todos os lados, a tudo parecia insensível e como se seu
corpo já estivesse inanimado. Bem mais tarde, passados já o burgo e
os atropelos das multidões, pararam num albergue de leprosos. E
ele, como se voltasse de algum rapto de espírito, perguntava com
solicitude se chegariam logo ao dito burgo. Porque sua mente ocupada
na contemplação das coisas celestes não se havia apercebido nem da
variedade dos lugares e dos tempos, nem da multidão de pessoas que
haviam saído a seu encontro. E sabe-se pelo testemunho de seus
companheiros que isso acontecia com não pouca freqüência.
3. Francisco havia percebido na, oração a presença do Espírito
Santo, tanto mais propenso a derramar-se sobre os que o invocam
quanto mais apartados os encontra do estrépito das coisas mundanas,
Por isso, procurava lugares solitários, e durante a noite
retirava-se aos bosques e igrejas abandonadas para, se entregar à
oração, E aí na solidão, sustentou freqüentes lutas com os
demônios, os quais, atacando-o de modo palpável, procuravam
apartá-lo do exercício da oração. Mas ele, fortalecido com o
auxílio do céu, quanto mais violentos os ataques do inimigo, tanto
mais sólido parecia na virtude e mais fervoroso na oração, dizendo
cheio de confiança a Cristo as palavras do salmista:
"Defendei-me, Senhor, sob a sombra de vossas asas, da presença
daqueles que me encheram de aflição" (Sl 16,8). E
dirigindo-se depois aos demônios, dizia-lhes: "Espíritos
malignos e perversos, atormentai-me quanto puderdes, pois nunca
podereis mais do que aquilo que vos concede a mão do Senhor. De
minha parte estou disposto a sofrer com sumo gozo quanto queira ele
consentir-vos". E não podendo os demônios suportar tão admirável
conståncia, fugiam cobertos de confusão.
4. E o homem de Deus, estando só e em paz, fazia ecoar os bosques
com seus gemidos, regava o chão com suas lágrimas, batia no peito e
como se sentisse oculto, bem abrigado na cåmara mais secreta do
palácio, falava a seu Senhor, respondia a seu Juiz, suplicava ao
Pai, entretinha-se com o Amigo. Aí também muitas vezes seus
irmãos que o observavam piamente ouviram-no interceder com repetidas
súplicas diante da divina clemência em favor dos pecadores e chorar em
altas vozes como se estivesse presenciando a dolorosa paixão do
Senhor. Uma noite também o viram na solidão orar com os braços
estendidos em forma de cruz, estando seu corpo elevado da terra e
envolto numa nuvem resplandecente, como se essa luz viesse a ser
testemunha da admirável claridade de que gozava então Francisco em
sua mente. Aí também, como atestam provas seguras, lhe eram
revelados os mistérios ocultos da sabedoria divina que ele não
divulgava externamente a não ser na medida em que era impelido a isso
por amor a Cristo ou pelo bem que poderiam proporcionar aos outros.
Dizia a respeito: "As vezes se perde um tesouro inestimável por uma
vantagem medíocre, e é culpa nossa se Aquele que no-lo deu já não
se mostra tão generoso". Ao voltar de suas orações, que o
transformavam quase num outro homem, punha toda atenção em
comportar-se em conformidade com os demais, para não acontecer que o
vento do aplauso lhe roubasse de sua alma os favores divinos que ele
deixasse transparecer externamente. Ao ser surpreendido publicamente
por uma visita do Senhor, ocultava-se de qualquer forma aos olhares
das pessoas presentes a fim de nada desvendar dos favores do Esposo.
Ao orar em companhia dos irmãos, evitava com sumo cuidado as
exclamações, os gemidos, os suspiros e movimentos externos, já
porque em tudo isso amava o segredo, já também porque, voltando a
entrar prontamente em si mesmo, ficava absorto novamente em Deus.
Costumava dizer aos da sua intimidade: "Quando um servo de Deus;
entregue à oração, é visitado pelo Senhor, deve dizer-lhe:
‘Esta consolação, Senhor, a enviastes do céu a um pecador e
indigno; eu a confio a vossos amorosos cuidados, pois do contrário me
consideraria um ladrão de vossos divinos tesouros’. E ao terminar a
oração, de tal modo se deve julgar pobre e pecador, como se nenhuma
nova graça houvesse recebido".
5. Estava o homem de Deus certa vez na Porciúncula rezando,
quando o bispo de Assis chegou para lhe fazer a visita habitual. Logo
que entrou no convento, dirigiu-se à cela em que o seráfico Pai
estava orando; chamou à porta e, ansioso por entrar imediatamente,
abusando um tanto de sua confiança, introduziu a cabeça para
contemplar o santo em oração; mas de repente sentiu-se dominado de
estranho temor, tremendo-lhe os membros, perdeu a fala e
subitamente, por disposição divina, uma força estranha o tirou dali
e o arrojou a uma grande diståncia. Amedrontado, correu o bispo
depressa para junto dos irmãos, e logo que Deus lhe restituiu a
fala, confessou ingenuamente sua falta.
O abade do mosteiro de São Justino, na diocese de Perusa,
encontrou certo dia o servo de Deus e assim que o viu apeou do cavalo
para saudar o homem de Deus que ele venerava e conversar com ele acerca
da salvação de sua alma. Após esse diálogo que lhe pareceu muito
confortante, o abade se despediu pedindo-lhe humildemente que rezasse
por ele. "De bom grado!", disse Francisco. Não se encontrava
ainda o abade muito longe, quando Francisco, o fiel, disse a seu
companheiro: "Espera-me aqui um momento, irmão, pois quero
cumprir o quanto antes a promessa que agora mesmo acabo de fazer".
Pôs-se a orar e no mesmo instante sentiu o abade em sua alma um ardor
e uma suavidade desconhecidas até então, e caindo em êxtase ficou
absorto totalmente em Deus. Assim ficou por breve espaço de tempo,
e voltando a si, conheceu claramente quão eficaz era na presença de
Deus a oração de Francisco. Com isso cresceu mais e mais no amor
à Ordem e a muitos referiu esse fato, considerando-o um verdadeiro
milagre.
6. Tinha o santo o hábito de oferecer a Deus o tributo das horas
canônicas com temor e devoção. Embora sofresse dos olhos, do
estômago, do baço e do fígado, não se permitia apoiar-se ao muro
ou à parede ao recitar os Salmos, mas rezava as horas canônicas em
posição ereta, sem capuz na cabeça, sem vagar com os olhos nem
engolir as sílabas. Em viagem, à hora prevista, ele parava, e
não havia temporal por mais torrencial que impedisse esse costume
respeitoso. "Se damos repouso ao corpo, dizia ele, para que possa
tomar um alimento que será pasto dos vermes juntamente com ele, com
que paz e tranqüilidade não deve a alma tomar seu alimento de vida?"
Julgava pecar gravemente se durante a oração, se deixasse levar por
vãs imaginações, e quando lhe acontecia isso, não se contentava
com acusar-se dessa falta no confessionário: queria também
expiá-la o mais cedo possível. Esta resolução se transformara
nele num reflexo habitual, de modo que esse tipo de moscas não vinha
incomodá-lo, a não ser muito raramente. Ansioso por aproveitar os
menores momentos de seu tempo, durante uma Quaresma confeccionou um
pequeno vaso de madeira. E como um dia, ao rezar a Terça, o
distraiu a idéia do vaso, cheio de fervor de espírito, queimou o
vaso, dizendo: "sacrificá-lo-ei ao Senhor, já que impediu o
sacrifício dos divinos louvores". Com tão fervorosa atenção
rezava os Salmos, que parecia ter a Deus presente; e quando neles
ocorria o nome do Senhor, enchia-se de tanta doçura que parecia
lamber os lábios. Querendo além disso que se honrasse com particular
reverência o nome do Senhor, não apenas quando ocorria à mente,
mas também quando se ouvia pronunciar ou se encontrava escrito, rogou
encarecidamente aos irmãos que recolhessem com, o máximo cuidado e
colocassem em lugar decente todos os papéis que encontrassem com o nome
escrito do Senhor, para evitar que fosse profanado. Ao pronunciar ou
ouvir alguém pronunciar o doce nome de Jesus, enchia-se internamente
de um santo júbilo e externamente parecia completamente transformado,
como se seu gosto experimentasse um sabor delicioso ou ressoasse em seus
ouvidos um concerto celestial.
7. Três anos antes de sua morte, resolveu celebrar com a maior
solenidade possível, perto de Greccio, a memória da Natividade do
Menino Jesus, a fim de aumentar a devoção dos habitantes. Mas
para que ninguém pudesse tachar esta festa de ridícula novidade,
pediu e obteve do Sumo Pontífice licença para celebrá-la.
Francisco mandou pois preparar um presépio e trazer muito feno,
juntamente com um burrinho e um boi, dispondo tudo ordenadamente;
reuniram-se os irmãos chamados dos diversos lugares; acorreu o povo,
ressoaram vozes de júbilo por toda parte e a multidão de luzes e
archotes resplandecentes juntamente com os cånticos sonoros que
brotavam dos peitos simples e piedosos transformaram aquela noite num
dia claro, esplêndido e festivo. E Francisco lá estava diante do
rústico presépio em êxtase, banhado de lágrimas e cheio de gozo
celestial. Principiou então a missa solene, na qual Francisco, que
oficiava como diácono, cantou o Evangelho. Pregou em seguida ao
povo e falou-lhe do nascimento do Rei pobre a quem ele chamava com
ternura e amor de Menino de Belém. Havia entre os assistentes um
soldado muito piedoso e leal que, movido por seu amor a Cristo,
renunciou à milícia secular e se uniu estreitamente ao servo de
Deus. Chamava-se João de Greccio, que afirmou ter visto no
presépio, reclinado e dormindo, um menino extremamente lindo, ao
qual tomou entre seus braços o bem-aventurado Francisco, como se
quisesse despertá-lo suavemente do sono. Que esta visão do piedoso
soldado é totalmente certa garante-o não só a santidade de quem a
teve, como também sua veracidade e a evidenciam os milagres que a
seguir se realizaram; pois o exemplo de Francisco, mesmo considerado
do ponto de vista humano, tem poder para excitar a fé de Cristo nos
corações mais frios. E aquele feno do presépio, cuidadosamente
conservado, foi remédio eficaz para curar milagrosamente os animais
enfermos e como antídoto contra outras muitas classes de peste. Deus
glorificava em tudo o seu servo e provava pelos milagres evidentes o
poder de suas preces e de sua santidade.
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