CAPÍTULO 11. Conhecimento das Escrituras e espírito de profecia

1. Pelo exercício contínuo da oração e pela prática das virtudes, havia o homem de Deus chegado a uma tal limpidez de alma que, sem haver adquirido pelo estudo o conhecimento dos santos livros, mas iluminado pelas luzes do alto, penetrava com espantosa acuidade ao mais profundo das Escrituras. Seu espírito, livre de toda mancha, penetrava os mais ocultos mistérios, e onde não podia chegar a ciência adquirida, penetrava o afeto do discípulo amante. Lia às vezes os livros santos, e tudo o que sua inteligência captava sua memória retinha tenazmente, pois o ouvido atento de sua alma percebia o que o coração amante repassava sem descanso. Alguns irmãos um dia lhe pediram, para aqueles que haviam estudado, a permissão de se dedicarem aos estudos da Sagrada Escritura. Respondeu: "Permito, contanto que não se esqueçam de se dedicar também à oração, como Cristo, que, como se lê, mais rezou do que estudou, e contanto que não estudem unicamente para saber como falar, mas para pôr em prática primeiro aquilo que tiverem aprendido e, depois de terem posto em prática, para ensinar aos outros aquilo que eles devem fazer. Quero que meus irmãos sejam discípulos do Evangelho e que seus progressos no conhecimento da verdade sejam tais, que eles cresçam ao mesmo tempo na pureza da simplicidade. Dessa forma não hão de separar aquilo que o Mestre uniu com sua palavra bendita: a simplicidade da pomba e a prudência da serpente".

2. Encontrando-se na cidade de Sena, perguntou-lhe certo religioso, doutor em teologia, acerca de algumas questões difíceis de compreender e lhe respondeu com tanta propriedade e descobriu tão claramente os mistérios da divina sabedoria 23, que aquele homem erudito muito se admirou e disse maravilhado aos circunstantes: "Na verdade, a teologia desse santo Pai, adquirida com as asas da pureza e da contemplação, é mais clara e penetrante que a vista da águia elevada sobre as nuvens; por outro lado, nossa ciência enfatuada se arrasta como um vil animal pela terra". Efetivamente, embora leigo na arte da palavra, resolvia com muita ciência as dúvidas que lhe apresentavam e lançava luzes sobre os pontos obscuros. Não admira, pois, que o santo tenha recebido de Deus a inteligência das Escrituras: toda sua atividade, imitação perfeita de Cristo, era exclusivamente a prática da verdade contida nas Escrituras. E toda a sua vida interior era total hospitalidade ao Espírito, intérprete das Escrituras, docilidade a seus ensinamentos.

3. Também brilhava nele o espírito de profecia, de modo que previa claramente as coisas futuras, penetrava os mais íntimos segredos do coração, via as coisas ausentes como se acontecessem diante de si e não poucas vezes se fazia presente de modo maravilhoso aos que se achavam muito distantes do lugar em que ele se encontrava. Quando o exército cristão estava cercando Damieta, o homem de Deus já se achava munido não de armas mas da fé. Chegou o dia da batalha em que os cristãos haviam decidido atacar a cidade. Ao saber dessa resolução, ficou muito contrariado e disse ao companheiro: "O Senhor me mostrou que se os cristãos fizerem hoje o assalto à cidade, não se sairão bem; mas se eu disser tal coisa, hão de me considerar um louco, e se me calar, guardarei remorsos para sempre. Que te parece melhor?" Respondeu o companheiro: "Irmão, não te preocupes com o parecer dos homens; não é de hoje que te consideram um louco. Livra tua consciência desse encargo e tem mais temor de Deus do que dos homens". A essas palavras o arauto de Cristo, cheio de coragem, enfrentou os cruzados e, preocupado com salvá-los do perigo, tentou impedir o ataque, anunciando a derrota. Os soldados desprezaram o vaticínio, endureceram o coração e não quiseram desistir da empresa. Avistaram-se os exércitos, travaram a batalha e as tropas cristãs se viram obrigadas a bater em vergonhosa retirada, sendo para elas a luta não um triunfo, mas uma derrota completa. Com tão tremenda desgraça ficou muito reduzido o exército cristão, pois entre mortos e prisioneiros ficaram fora de combate cerca de seis mil soldados. Uma lição ficou bem patente, clara e imperativa: a sabedoria de um pobre não se trata com desprezo, pois a alma do justo costuma dizer a verdade algumas vezes bem melhor do que sete sentinelas postos no alto como atalaias" (Eclo 37,18).

4. Em outra ocasião, após voltar dos países de além- mar, veio a Celano pregar e um cavaleiro que lhe tinha muita devoção convidou-o à sua mesa, com muita insistência. Aceitou o convite e toda a família ficou muito contente com a chegada de seus hóspedes, os pobres. Antes de sentar-se à mesa, o santo, como de costume, rezou e louvou a Deus, de pé, olhos voltados para o céu, mas quando terminou, chamou à parte aquele cavaleiro generoso e lhe disse: "Irmão hóspede, eis-me aqui vencido por teus rogos: entrei em tua casa para comer; agora, porém, escuta e põe logo em prática meus conselhos, porque não aqui mas em outro local muito em breve hás de comer. Faze portanto agora uma boa confissão de teus pecados, acompanhada de uma verdadeira dor de tuas culpas e não deixes de manifestar tudo o que for matéria do sacramento. Deves saber que o Senhor te recompensará hoje mesmo a devoção com que convidaste e recebeste a seus pobres". O homem obedeceu imediatamente a estas palavras do santo, confessou todos os seus pecados ao irmão que o acompanhava e após "haver posto ordem em sua casa", estava preparado da melhor forma possível a receber a morte. Enfim, sentaram-se todos à mesa e os convivas começaram a comer, quando, de repente, o cavaleiro morreu, levado por uma morte repentina, como havia predito o homem de Deus. Tão generosa hospitalidade lhe merecera a recompensa prometida pelo Verbo que é a Verdade: "Aquele que recebe um profeta receberá uma recompensa de profeta" (cf. Mt 10,41). A predição do santo lhe valeu a preparação para uma morte súbita 24, e fortalecido com as armas da penitência, conseguiu escapar à condenação eterna e entrar na pátria celeste.

5. No tempo em que o santo jazia doente em Rieti, trouxeram-lhe estendido sobre um leito um cônego de nome Gedeão, homem sensual e mundano, atingido de grave doença. O cônego pedia-lhe chorando, juntamente com os presentes, que o abençoasse com o sinal-da-cruz. Mas o santo replicou: "Como poderei assinalar-te com a cruz, se até agora viveste segundo os instintos da carne, sem temer os juízos de Deus? Em vista das orações e devoção dos que intercedem por ti, marcar-te-ei com o sinal-da-cruz, em nome do Senhor. Mas sabe que te acontecerão coisas bem piores se voltares ao vômito depois de curado, pois os ingratos caem num estado pior que o primeiro!" Traçou o sinal-da-cruz sobre ele, e o homem que jazia paralítico levantou-se muito contente, prorrompendo em louvores ao Senhor, e exclamou como fora de si: "Já estou curado!" Ouviram-se então em seus ossos uns estalidos semelhantes aos que se percebem quando se partem com a mão gravetos secos. Mas por desgraça, não levou muito tempo, esqueceu-se de Deus e entregou-se de novo às desordens da sensualidade. Uma noite, havendo ceado na casa de um outro cônego, aí ficara para passar a noite, quando o telhado desabou. Todos escaparam à morte, menos o infeliz que ficou sob os escombros. Por um justo juízo de Deus, o último castigo desse homem foi pior que o primeiro, em razão de seu duplo pecado de ingratidão e de desprezo para com Deus. É preciso mostrar-se sempre reconhecido pelos benefícios recebidos. A recaída no vício é uma dupla ofensa.

Outra vez, uma mulher nobre e muito piedosa aproximou-se do santo, contou-lhe da dor que a oprimia e pediu-lhe o remédio acertado. Tinha um marido extremamente cruel que a privava de tudo quanto pertencia ao serviço de Deus; e entristecida por tal desgraça, pedia instantemente a Francisco que fizesse uma oração por ele para conseguir que Deus, com sua amorosa clemência, abrandasse seu coração endurecido. Ao ouvir essas queixas da mulher, disse-lhe o santo: "Vai em paz, filha, e fica certa de que muito em breve receberás de teu marido um grande consolo". E logo acrescentou: "Dize a teu marido, da parte de Deus e de minha parte, que agora é tempo de misericórdia e de perdão, mas que depois virá o tempo da justiça rigorosa". Recebida a bênção do santo, a mulher regressou à sua casa e. encontrando-se com seu marido, referiu-lhe o acontecido. De repente desceu o Espírito Santo sobre aquele homem e o transformou num homem novo, que com grande mansidão assim falou à mulher: "Amada esposa, entreguemo-nos desde agora ao serviço do Senhor e trabalhemos com empenho pela salvação de nossa alma". Por sugestão de sua santa esposa, eles praticaram a castidade durante vários anos e no mesmo dia partiram para o Senhor. Que maravilha a virtude profética do santo: seu poder restituía a vida aos membros já secos e conseguia fazer chegar a piedade aos corações mais duros. Por outro lado, sua penetração estendia-se até aos acontecimentos do futuro e perscrutava o mistério das consciências, como um segundo Eliseu que herdara o duplo espírito do profeta Elias!

7. Em Sena, havia predito a um amigo seu algumas coisas que deveriam acontecer-lhe nos seus últimos dias. Então aquele douto religioso que, como recordamos acima, de tempos em tempos vinha discutir com ele sobre textos da Escritura, lhe perguntou se ele dissera realmente aquelas coisas que lhe haviam relatado. Francisco não se contentou com reconhecer que as dissera, mas insistiu e predisse a morte daquele que vinha se preocupar com a dos outros; enfim, para ter mais certeza de sensibilizar sua alma, revelou-lhe, por um outro milagre, uma inquietação que lhe roía a consciência, e ele não tivera coragem de confessá-la a ninguém. Deu-lhe a solução para o caso e conseguiu mediante seus conselhos lhe tirar aquele sofrimento da alma. Todas essas predições se realizaram, pois o religioso terminou seus dias exatamente como o servo de Cristo lhe havia anunciado.

8. Ao tempo que voltou de ultramar, tendo por companheiro a Frei Leonardo de Assis, aconteceu que Francisco, extenuado de cansaço, montou alguns instantes sobre um humilde jumentinho. Seguia-o o companheiro, também exausto, e como era fraco de virtude, começou a dizer em seu íntimo: "Os pais dele e os meus não eram de igual condição, e no entanto ele anda agora a cavalo e eu, soldado, a pé, conduzo seu jumento". Estando nessas reflexões, apeou o santo do animal imediatamente e lhe disse: "Tens razão, irmão, não fica bem que eu vá comodamente montado e tu andes a pé, pois no século foste muito mais nobre e poderoso do que eu". O companheiro ficou atônito, e corrido de vergonha ao ver descobertos seus mais secretos pensamentos, prostrou-se banhado em lágrimas aos pés do seráfico Pai, a quem confessou sua culpa, pedindo humildemente o perdão.

9. Um irmão, muito devoto e admirador do servo de Deus, vivia remoendo em seu íntimo este pensamento: será digno da graça do céu aquele a quem o santo concede sua familiaridade e afeto; e ao contrário, aquele que o santo trata como um estranho se há de considerá-lo excluído do número dos eleitos. Atormentado com essa idéia perturbadora, suspirava para que o servo de Deus lhe concedesse sua familiaridade, mas a ninguém revelava o segredo de seu coração. O Pai piedoso, porém, chamou-o amavelmente e lhe disse: "Que não te perturbe nenhum pensamento, filho, pois te considero como o mais caro entre todos aqueles que me são particularmente caros e de boa mente te ofereço minha familiaridade e minha estima". O irmão ficou maravilhado e mais devoto ainda se tornou desde então. Não só cresceu no amor ao santo, mas, por obra e graça do Espírito Santo, enriqueceu-se de dons sempre maiores.

Ao tempo em que no monte Alverne ficou recluso em sua cela, um de seus companheiros sentia um grande desejo: de ter algumas palavras ao menos da Sagrada Escritura escritas de próprio punho do santo. Alimentava a convicção de que com esse recurso poderia eliminar ou ao menos suportar com menor sofrimento a grave tentação que o atormentava: tentação não dos sentidos, mas do espírito. Perseguido por esse pensamento, sentia-se oprimido em sua alma, pois, dominado pela vergonha, não ousava manifestar este seu desejo ao santo. Mas este, embora não lho tivesse revelado homem algum, soube do que se passava por revelação divina. Por essa razão mandou ao referido companheiro que lhe trouxesse papel e tinta e, conforme seus desejos, escreveu de sua própria mão no papel alguns louvores ao Senhor e ao final acrescentou sua bênção: "Toma para ti este escrito e guarda-o com cuidado até ao dia de tua morte". Logo que recebeu aquele presente, a tentação desapareceu inteiramente. Ainda se conserva o documento, e os milagres que ele realizou testemunham em favor das virtudes de Francisco.

10. Havia num convento um irmão que - a julgar pelas aparências - era de uma santidade extraordinária. Levava uma vida exemplar, mas totalmente singular. Estava continuamente ocupado a rezar. Guardava um silêncio tão rigoroso, que chegava mesmo a se confessar não por palavras mas por sinais. Aconteceu que o santo Pai certo dia veio ao lugar onde se encontrava esse religioso para vê-lo e falar a respeito dele com os outros irmãos. Todos ponderavam e louvavam a grande virtude desse irmão. O santo, porém, lhes respondeu: "Não queirais, irmãos, elogiar nesse homem aquilo que não passa de ardis de Satanás! Sabei que na realidade tudo são tentação e embustes do demônio!" Os irmãos não queriam se convencer desse fato, pois lhes parecia impossível que a fraude pudesse disfarçar-se tão bem com as aparências, de santidade. Mas o referido irmão abandonou a Ordem pouco depois e todos viram a penetração do olhar profundo que assim havia descoberto o que se passava no fundo daquele coração. Houve igualmente muitos irmãos assim ditos de notável santidade cuja queda ele predisse e mais ainda de pecadores cuja conversão ele previu, demonstrando-se desse modo que havia chegado a. cqntemplar já aqui o espelho da eterna Luz cuio brilho permitia aos olhos de sua alma enxergar como se estivessem presentes acontecimentos distantes no espaço e no tempo.

11. Em outra ocasião aconteceu que seu vigário celebrava o capítulo no momento em que ele se encontrava orando em sua cela, fazendo o ofício de intercessor e medianeiro entre Deus e seus irmãos. Havia um entre eles, que, coberto com a capa de injustas pretensões, queria subtrair-se ao rigor da disciplina regular. O santo chamou um de seus companheiros e lhe disse: "Irmão, vi o demônio montado sobre os ombros desse irmão desobediente e apertando-lhe fortemente o pescoço; cavalgado por um cavaleiro desses, ele sacode o freio da obediência e não obedece senão às rédeas de seus instintos. Mas eu roguei a Deus por ele e o demônio fugiu envergonhado. Vai, pois, dizer-lhe que submeta de novo o pescoço ao jugo da santa obediência". Às palavras do mensageiro, o irmão se arrependeu imediatamente e atirou-se aos pés do vigário com toda humildade.

12. Dois irmãos vieram um dia de regiões muito distantes ao eremitério de Greccio, ansiosos por ver o homem de Deus e receber sua bênção, que há muito tempo desejavam. Mas ao chegarem, não encontraram o santo que já se havia retirado para a cela. Os dois irmãos, desolados, retomaram o caminho de volta. Mas eis que ao se afastarem, o santo, que não podia ter sabido da chegada nem da partida deles, saiu, contra seu costume, da cela, chamou-os afavelmente e, fazendo sobre eles o sinal-da-cruz, lhes concedeu em nome do Senhor a bênção tão desejada.

13. Chegaram um dia dois religiosos procedentes da Terra di Lavoro. O mais velho deles havia escandalizado várias vezes o companheiro, durante o caminho. Ao chegarem, o Pai perguntou ao mais jovem como se comportara o outro pelo caminho. Respondeu: "Certamente bastante bem". A esta resposta, acrescentou Francisco: "Guarda-te, irmão, de mentir, mesmo sob a capa de humildade. Pois eu sei muito bem do que aconteceu. Espera um pouco e verás o resultado". Ficou admirado sobremaneira o irmão ao ver como ele conhecia com tanta evidência as coisas ausentes. Pouco depois, o causador do escåndalo, abandonando a Ordem, voltou ao século, sem pedir perdão ao seráfico Pai nem esperar dele a oportuna correção. Duas coisas ficaram demonstradas ao mesmo tempo com a ruína daquele homem: a eqüidade da justiça divina e a perspicácia surpreendente do espírito de profecia de nosso santo.

14. Vimos já nas páginas precedentes como ele apareceu milagrosamente a pessoas distantes. Aqui basta recordar como ele, estando ausente, surgiu diante dos irmãos, transfigurado, num carro de fogo, e como um crucificado aos capitulares de Arles. Devemos crer que tais fatos se deram por disposição divina, no sentido de que aquele seu maravilhoso aparecimento em vários locais com sua pessoa física indicava manifestamente como seu espírito vivia em perfeita comunhão com a Luz da eterna Sabedoria, a qual "é mais ágil que todas as coisas móveis, atravessa e penetra tudo, graças à sua pureza... Ela se derrama de geração em geração nas almas santas e forma os amigos e intérpretes de Deus" (Sb 7,24 e 27). De fato, o Mestre celestial costuma descobrir seus mais ocultos mistérios aos simples e pequeninos, como se viu em Davi, o mais ilustre dos profetas, depois em Pedro, o Príncipe dos Apóstolos, e mais tarde no Pobrezinho de Cristo, Francisco. Todos esses eram simples, e não tinham erudição, mas pelas luzes do Espírito Santo chegaram a se tornar ilustres; pois o primeiro foi constituído pastor, encarregado de apascentar o povo de Israel resgatado do Egito; a Pedro, pescador, foi-lhe confiado o encargo de encher a rede misteriosa da Igreja com a multidão dos crentes; e a Francisco, simples comerciante, lhe inspirou o Senhor o desejo de vender e distribuir todas as coisas por Cristo, a fim de comprar a pérola preciosa de que fala o Evangelho.