CAPÍTULO 12. Eficácia de sua pregação e poder de curar

1. Fiel e verdadeiro servo de Cristo, querendo Francisco cumprir tudo com fidelidade e perfeição, esforçava-se por praticar sobretudo aquelas virtudes que conhecia serem mais gratas a Deus, como lhe ditara o Espírito Santo. E foi tal fidelidade que um dia o fez sofrer longamente por causa de uma dúvida angustiante. Ao voltar da oração, ele a expôs aos irmãos mais achegados, rogando-lhes que o auxiliassem a encontrar a solução:

"Meus irmãos, que me aconselhais, qual a vossa opinião: devo dedicar-me à oração ou caminhar de cidade em cidade para pregar? Pois sou um pobre homenzinho simples, sem eloqüência, mais dotado para a oração do que para a pregação. Na oração obtemos e acumulamos graças, ao passo que a pregação é, por assim dizer, uma distribuição dos bens recebidos do céu. Na oração purificamos todos os impulsos da alma e os centramos com maior firmeza n’Aquele que é o único e soberano Bem, enquanto: na pregação nosso espírito se cobre de poeira, como os pés, as distrações nos assaltam de toda parte e a disciplina se relaxa. Na oração falamos com Deus e o ouvimos, levando assim uma vida que se aproxima da dos anjos, ao passo que a pregação nos força a nos colocar continuamente ao nível dos homens e a viver com eles, pensar, ver, falar e escutar com eles... Mas, contra todas essas vantagens da oração, existe um argumento que, se nos colocarmos do ponto de vista de Deus, parecerá decisivo: o Filho único de Deus, Sabedoria suprema, deixou o seio do Pai pela salvação das almas, a fim de se dar ao mundo como exemplo, dirigir aos homens a Palavra que salva, dar-lhes seu sangue como resgate e libertação, como banho de purificação e como bebida que fortifica; nada reteve para si, mas nos deu tudo a fim de nos salvar. E como devemos imitar suas ações, tal como Moisés que confeccionou o candelabro de ouro segundo o modelo que Deus lhe mostrara sobre o monte, parece-me que o que mais agrada a Deus é que eu abandone a tranqüilidade de meu retiro para ir trabalhar e pregar".

Durante vários dias continuou ele com seus irmãos a discussão sem chegar a formar uma convicção certa sobre a escolha que seria a mais agradável a Cristo. Ele mesmo, que recebia revelações maravilhosas em virtude de seu espírito de profecia, não conseguia esclarecer-se e resolver a questão: Deus permitia isso para evidenciar por um milagre o mérito de seu servo no momento de partir para a pregação e salvaguardar sua humildade.

2. Não se envergonhava de pedir conselhos aos seus inferiores nas coisas pequenas, ele que se julgava o menor de todos, embora houvesse aprendido do Mestre supremo grandiosas revelações. Por isso costumava ter sumo cuidado em indagar de que modo e de que forma poderia servir mais perfeitamente ao Senhor segundo seu beneplácito. Foi esta sua filosofia particular, foi esse seu mais ardente desejo enquanto viveu: consultar os sábios e os simples, os perfeitos e os imperfeitos, os grandes e os pequenos, de que maneira poderia chegar mais facilmente ao cume: da perfeição. E então chamou dois de seus irmãos e os enviou ao irmão Silvestre, aquele mesmo que em outro tempo vira sair da boca de Francisco uma cruz esplêndida, e então se encontrava entregue aos fervores da oração em um monte próximo à cidade de Assis, encarregando-o de consultar a Deus a fim de resolver aquela dúvida e pedindo-lhe que lhe comunicasse qual: a resposta do Senhor. Também pediu a Clara, virgem santa, encarregando-a de conferenciar sobre o assunto com alguma das mais puras e simples virgens que com ela estavam e acrescentando suas próprias orações às demais, para que procurasse verificar qual a vontade do Senhor. no assunto objeto da consulta. Houve uma unanimidade extraordinária: o sacerdote e a virgem, sob a inspiração do Espírito Santo, assim interpretaram a vontade de Deus: o arauto de Cristo deve ir pregar pelo mundo. Voltaram os irmãos, indicando qual a vontade de Deus, conforme tinham podido saber. Ele imediatamente se levantou, cingiu as vestes e, sem se deter um momento, se pôs a caminho. Ia com tanto fervor executar a vontade divina, corria tão velozmente, como se a mão do Senhor, descendo sobre ele, o houvesse cumulado de novas energias.

3. Aproximando- se de Bevagna, viu um pequeno bosque onde se haviam reunido passarinhos de toda espécie em grandes bandos. Correu imediatamente para lá e saudou-os como se fossem dotados de razão. Pararam todos para olhá-lo; os que estavam nas árvores se inclinavam e avançavam as cabeças, olhando de modo extraordinário. Adiantou-se para o meio deles, pediu-lhes mansamente que ouvissem a palavra de Deus e lhes disse: "Irmãos pássarinhos vós tendes muito motivo para bendizer vosso Deus e Criador que vos vestiu de tão ricas plumas e vos deu asas para voar; vos determinou para morada a região pura dos ares e cuida de vós, sem que preciseis vos inquietar com nada". Esse discurso provocou entre os passarinhos alegres manifestações: esticavam o pescoço, desdobravam as asas, abriam o bico e olhavam atentamente para Francisco. E o santo ia e vinha no meio deles, a alma delirando de fervor; roçava-lhes a túnica, nenhum porém se afastava. Por fim, traçou o sinal da cruz sobre eles, e os passarinhos, com sua permissão e sua bênção, voaram todos ao mesmo tempo. Os companheiros de missão olhavam aquele espetáculo. Ao voltar para junto deles, o homem simples e puro que era Francisco acusava-se de negligência por não haver até então pregado às aves.

4. Pregando em seguida nas vizinhanças, chegou a um lugar chamado Albino, onde, havendo congregado o povo e feito o devido silêncio, mal se ouvia sua voz na pregação por causa de um grande número de andorinhas que naquele mesmo lugar estavam construindo seus ninhos e faziam com seus pios um estrépito muito grande. E diante de todos, disse a elas: "Irmãs andorinhas, já é tempo que me deixeis falar, pois até agora haveis gritado bastante. Ouvi a palavra de Deus e guardai silêncio até que termine a pregação". A esta ordem, e como se fossem capazes de conhecimento, silenciaram de repente as andorinhas, permanecendo no mesmo lugar até que o santo terminou seu sermão. Havendo presenciado essa maravilha, os ouvintes encheram-se de admiração e todos unånimes glorificavam ao Senhor. Divulgada a fama deste milagre por toda parte, muitas pessoas sentiram-se atraídas à veneração e devoção do santo.

5. Um estudante de Parma, excelente jovem, estudava com alguns companheiros, quando uma andorinha veio incomodá-los e importuná-los provocando grande ruído com seus pios. Disse ele a seus companheiros: "É uma das que perturbaram a pregação do homem de Deus Francisco até que ele lhes ordenou que calassem". Voltou-se para a andorinha e lhe disse com plena segurança: "Ordeno-te, em nome do servo de Deus Francisco, que venhas aqui e fiques calada!" Em nome de Francisco, ela se calou imediatamente, como se tivesse ouvido a voz do santo homem, e veio se aconchegar na mão do estudante, que, estupefato, lhe devolveu a liberdade e não mais foi importunado por seus gritos.

6. Certa ocasião pregava o servo de Deus em Gaeta, à beira-mar, e as multidões, por devoção, acorriam a ele para tocá-lo. Mas o santo, que tinha horror desse tipo de sucesso tumultuoso, saltou sozinho dentro de uma barca que encontrou atracada. E como se fosse propulsionada por sua própria força, sem que aparecesse qualquer remador, foi ela entrando no mar para grande admiração de todos. Mas tendo-se afastado da praia, ficou imóvel entre as ondas todo o tempo que o santo esteve pregando às turbas que com religioso silêncio o ouviam da praia. Terminado o sermão, o povo, testemunha do milagre, recebeu a bênção e retirou-se para não mais importunar o santo, Então a barca por si mesma voltou à praia. Quem seria, pois, tão obstinado em sua impiedade para desprezar a pregação de Francisco cuja virtude admirável contribuía não só para que os seres irracionais ouvissem sua doutrina, mas também para que os corpos inanimados lhe servissem na pregação como se fossem racionais?

7. O Espírito do Senhor, que ungira a Francisco e o enviara, e o próprio Cristo, virtude e sabedoria do Pai, (1Cor 1,24), haviam derramado tão copiosamente seus dons sobre ele, que podia comunicar por sua palavra a doutrina autêntica de ambos e desenvolver seu poder em milagres estupendos. Sua palavra era um fogo ardente que penetrava até ao fundo dos corações e enchia de admiração a todos os ouvintes, pois não exibia as galas de uma eloqüência mundana, mas apenas espalhava o bom odor de verdades reveladas por Deus. Sucedeu certo dia, com efeito, que devendo pregar diante do próprio papa e dos cardeais, por encargo do bispo de Óstia, compôs um sermão, que aprendeu cuidadosamente de cor. Mas ao chegar o momento de se apresentar de pé diante da assembléia para pronunciar o discurso, esqueceu-o completamente e não pôde dizer uma palavra sequer do que escrevera. Confessou então o santo com a maior humildade o que lhe sucedia. Recolheu-se uns breves momentos para implorar as luzes do Espírito Santo e começou a expressar-se com tanta fluência, com raciocínios tão eficazes, que moveu à compunção as ilustres pessoas que o ouviam, mostrando-se bem às claras que não era ele, mas o Espírito Santo, quem falava por sua boca.

8. Aquilo que exigia dos outros por suas palavras já havia ele antes praticado por obras. Por isso não tinha medo de censores e pregava a verdade com suma coragem. Não costumava adular as culpas dos grandes, mas aplicava-lhes o ferro; nem dissimular a conduta dos pecadores, mas abatê-la com duras reprimendas. Com a mesma firmeza de espírito falava aos pequenos e aos grandes e tinha a mesma alegria de falar a poucos e a muitos. Pessoas de ambos os sexos e de todas as idades acorriam para ver e ouvir aquele homem novo que o céu deu ao mundo. Peregrinava pelas várias regiões, anunciando com fervor o Evangelho; e "o Senhor cooperava, confirmando a Palavra com os milagres que a acompanhavam" (Mc 16,20). De fato, em nome do Senhor, Francisco, pregador da verdade, expulsava os demônios, sarava os enfermos, e. prodígio ainda maior, com a eficácia de sua palavra, enternecia e movia à penitência os obstinados e ao mesmo tempo devolvia a saúde aos corpos e aos corações. Provam-no alguns dos milagres realizados por ele, e que agora relataremos a título de exemplo.

9. Na cidade de Toscanella, foi ele acolhido devotamente como hóspede por um cavaleiro. Atendendo à sua grande insistência, tomou o santo pela mão o seu filho único, raquítico desde o nascimento, e imediatamente lho restituiu completamente são: aos olhos de todos enrijaram-se no mesmo instante os membros daquele corpinho e a criança se levantou sã e forte, "caminhando, saltando e louvando a Deus" (At 3,8).

Em Narni havia um paralítico inteiramente privado do uso dos membros. A pedido do bispo, fez Francisco sobre o doente um grande sinal-da-cruz, desde a cabeça até aos pés... O enfermo se levantou completamente curado.

Na diocese de Rieti, apresentou-se a ele uma mãe desolada: o filho tinha o ventre tão inchado por causa da hidropisia que, ao colocá-lo de pé, ele não conseguia ver os pés. Sofria assim desde os quatro anos de idade. O santo tocou-o e o inchaço desapareceu.

Em Orte, havia uma criança tão engelhada, que a cabeça tocava os pés e tinha também alguns ossos quebrados; os infelizes pais rogaram ao santo que a curasse, e este, com um sinal-da-cruz, restituiu-lhe imediatamente, com a saúde do corpo, a posição natural, sem nenhum vestígio de deformidade.

10. Na cidade de Gúbio, vivia uma mulher que tinha as mãos secas e contorcidas, nada podendo fazer com elas. Mas Francisco traçou sobre elas o sinal-da-cruz em nome do Senhor e elas, ficaram tão perfeitamente sãs, que ela de volta para casa pôde preparar sozinha, como outra sogra de São Pedro, sua própria comida e a dos pobres.

Em Bevagna, Francisco aplicou numa menina completamente cega por três vezes um pouco de saliva sobre os olhos em nome da Santíssima Trindade e a criança recuperou a visão tão desejada.

Em Narni, uma mulher, também cega, reviu a luz do dia, graças ao sinal-da-cruz que o santo traçou sobre ela.

Em Bolonha, uma criança tinha um dos olhos coberto por uma mancha e: não via absolutamente nada. Não havia remédio que a curasse. Mas depois que o servo de Deus lhe fez o sinal-da-cruz, desde a cabeça até aos pés, recuperou perfeitamente a vista. Em seguida entrou para a Ordem dos Frades Menores e dizia que via melhor com o olho curado do que com aquele que sempre estivera são.

Em San Gemini, o servo de Deus recebeu hospitalidade em casa de um homem piedoso, cuja mulher era atormentada pelo demônio. Depois de rezar, ordenou ao demônio, em virtude da obediência, que deixasse aquela mulher, e o pôs de tal modo em fuga, que ficou demonstrado claramente que a obstinação dos demônios não resiste à virtude da santa obediência.

Em Città di Castello, uma mulher estava possessa de um espírito mau e furioso. Apenas o santo ordenou ao demônio em nome da obediência, e este saiu, cheio de raiva, deixando livre o corpo e o espírito da mulher até então dominada por ele.

11. Um irmão encontrava-se atormentado por uma grave e estranha enfermidade. Na opinião de muitos, tratava-se de possessão diabólica e não de doença natural. Muitas vezes caía de cabeça no chão e se revirava espumando, enquanto os membros ora se contraíam, ora se dilatavam com violência, ora disformemente dobrados, ora retorcidos e por fim rígidos e duros como uma pedra. Em outras ocasiões assumia tal postura, que os pés se juntavam com a cabeça e nesta situação era alçado e lançado horrivelmente ao chão. Compadecido o servo de Deus com ver esse infeliz vítima de tão grave e irremediável enfermidade, e cheio de misericórdia com ele, fez que lhe dessem um pedacinho de pão do mesmo que ele estava comendo. Tanta foi a força daquele pão sobre o enfermo, que daí em diante nunca mais foi atormentado por essa enfermidade.

No condado de Arezzo, uma mulher sofria, havia muitos dias, de dores de parto e se encontrava às portas da morte. Nessa situação desesperadora, não tinha mais remédio senão recorrer a Deus. Em tal conjuntura, sucedeu que o servo de Cristo, montado num cavalo, por causa de sua enfermidade, chegou àquele lugar, coincidindo de passar exatamente pelo local onde se encontrava a doente. Ao verem os moradores daquele povoado o cavalo sobre o qual ia montado Francisco, apressaram-se a tirar-lhe o freio que aplicaram logo à enferma com êxito tão estupendo, que a mulher deu à luz imediatamente, sem nenhum perigo nem dor.

Em Città della Pieve, certo homem piedoso e temente a Deus possuía um cordão que o santo havia usado à cintura. Como muitos homens e mulheres nessa cidade viviam sofrendo de diversas doenças, este homem ia visitá-los e dava-lhes a beber da água em que mergulhava o cíngulo, e muitos assim ficaram curados.

Também os doentes que comiam do pão que o homem de Deus tocava ficavam logo curados por intervenção divina.

12. Tais milagres, e muitos outros ainda, davam à pregação de Francisco um efeito extraordinário, fazendo que as palavras do arauto de Deus fossem ouvidas como se pronunciadas por um anjo do céu. E assim era efetivamente, pois a prerrogativa de excelsas virtudes com que Deus o ornara, seu espírito de profecia, a eficácia de seus milagres, a ordem de pregar recebida do céu, a obediência que lhe prestavam os seres, irracionais, as transformações maravilhosas operadas por sua pregação apostólica, sua ciência não adquirida por estudos humanos mas infundida pelo Espírito Santo, a autorização para pregar que por revelação divina lhe concedeu o Romano Pontífice, além disso, a Regra por ele mesmo escrita, que define a forma da pregação, confirmada pelo mesmo Vigário de Cristo, e, por fim, as chagas do Rei celestial, impressas como sinal em seu corpo, são outros tantos testemunhos que provam a todos os séculos de modo indubitável que o arauto de Cristo, Francisco, foi respeitável por seu oficio, autorizado por sua doutrina, admirável por sua santidade e assim pregou o Evangelho de Cristo como um verdadeiro enviado de Deus.