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1. O angélico Francisco não tinha por hábito descansar enquanto
estivesse à procura do bem, mas, como os espíritos angélicos na
escada de Jacó, ou subia até Deus ou descia até ao próximo. O
tempo que lhe fora concedido para obter méritos aprendera, Francisco
a dividi-lo prudentemente: uma parte destinava às fadigas
apostólicas em beneficio do próximo e outra à tranqüilidade e aos
êxtases da contemplação. Depois de trabalhar pela salvação dos
outros, de modo variado segundo as exigências de tempo e lugar,
afastava-se das multidões e de seu tumulto, procurava na solidão um
lugar tranqüilo para pensar no Senhor em plena liberdade de espírito
e sacudir a poeira que pudesse aderir à alma durante sua passagem entre
os homens. Após múltiplos trabalhos, enfim, Francisco foi
conduzido pela divina Providência, dois anos antes da morte, até o
eremitério muito alto 30 chamado monte Alverne 31. Tinha
começado, segundo seu costume, o jejum quaresmal em honra de São
Miguel, quando começou a sentir-se inundado de extraordinária
suavidade na contemplação, aceso da mais viva chama de desejos
celestes, cumulado das mais copiosas graças do céu. Elevava-se
àquelas alturas não como um importuno perscrutador da majestade
excelsa, que deveria ser esmagado por sua glória (cf. Pr
25,27), mas como servo fiel e prudente que procurava indagar a
vontade de seu Deus, à qual desejava conformar-se totalmente.
2. Por revelação divina, teve sua alma conhecimento de que,
abrindo o livro dos santos Evangelhos, Jesus Cristo lhe manifestaria
de que modo deveria agir para ser mais agradável a Deus em si e em
todas as coisas. Com fervorosa oração, pois, se preveniu e depois
mandou um de seus companheiros, homem devoto e de grande santidade,
tomar o livro dos Evangelhos e abri-lo três vezes em honra da
Santíssima Trindade. E como todas as vezes que se abriu o livro
ocorreram as páginas em que se fala da paixão de Cristo, logo
compreendeu Francisco que, da mesma forma como havia imitado a Cristo
nos principais atos de sua vida, assim também devia conformar-se com
ele nos sofrimentos e dores da paixão, antes de abandonar esta vida
mortal. Não se intimidou. Muito pelo contrário, embora esgotado
pelas austeridades e pela cruz do Senhor que ele levara até aí,
sentiu-se animado de um novo vigor para submeter-se a esse martírio.
O incêndio do amor triunfava em belas chamas de fogo: rios d’água
não poderiam extinguir uma caridade tão intensa (cf. Ct
8;6-7).
3. Assim transportado em Deus pelo desejo de seráfico ardor e
transformado, por compaixão, naquele que, em seu excesso de amor,
quis ser crucificado, rezava um dia num lado do monte, estando
próxima a festa da Exaltação da Santa Cruz; e eis que ele viu
descer do alto do céu um serafim de seis asas brilhantes como fogo.
Num rápido vôo chegou ele ao lugar onde estava o homem de Deus, e
apareceu então um personagem entre as asas: era um homem crucificado,
com as mãos e os pés estendidos e presos a uma cruz. Duas asas se
erguiam por cima de sua cabeça, duas outras desdobradas para o vôo e
as duas outras cobriam-lhe o corpo. Essa aparição fez Francisco
mergulhar num profundo êxtase, enquanto em seu coração sentia um
gozo extraordinário mesclado com certa dor. Porque, em primeiro
lugar, via-se inundado de alegria com aquele admirável espetáculo,
no qual se gloriava de contemplar a Cristo sob a forma de um serafim,
mas ao mesmo tempo a vista da cruz atravessava sua alma com a espada de
uma dor compassiva. Era grande, sua admiração diante de semelhante
visão, pois não ignorava que os sofrimentos da paixão eram
incompatíveis com a imortalidade dos espíritos celestes. Veio então
a conhecer por revelação divina que essa visão lhe havia sido
providencialmente apresentada para que, como amante de Cristo,
compreendesse que devia transformar-se totalmente nele, não tanto
pelo martírio corporal quanto pelas chamas de amor de seu espírito.
Ao desaparecer aquela visão, deixou no coração de Francisco um
ardor admirável e imprimiu em seu corpo uma imagem não menos
maravilhosa, pois no mesmo instante começaram a aparecer em suas mãos
e pés os sinais dos cravos, iguais em tudo ao que antes havia visto na
imagem do serafim crucificado.
E assim era na verdade, porque suas mãos e pés estavam atravessados
no meio por grossos cravos, cuja cabeça aparecia na parte interior das
mãos e superior dos pés, ficando as pontas aparecendo do outro lado.
A cabeça dos cravos era redonda e negra; as pontas, bastante longas
e afiadas e com evidentes sinais de haver sido retorcidas, resultando
daí que os cravos sobressaíam do resto da carne. De igual modo, no
lado direito do corpo do santo aparecia, como formada por uma lança,
uma cicatriz vermelha, da qual brotava às vezes tanto sangue que
chegava a umedecer a túnica e as roupas internas.
4. Era impossível esconder por muito tempo aos irmãos com quem
vivia os estigmas impressos de modo tão visível; o servo de Cristo
compreendia essa realidade, mas temia que se divulgasse desse modo o
segredo do Senhor, e sua alma ficou numa angustiosa incerteza, não
sabendo se devia manifestar ou ocultar a visão que tivera. Chamou,
então, a alguns de seus irmãos, e falando-lhes em termos gerais,
propôs-lhes sua dúvida e pediu-lhes conselho. Um deles, chamado
Iluminado, compreendendo que algo extraordinário Francisco teria
visto, pois se notava nele certa admiração e confusão, disse-lhe:
"Caríssimo irmão, deves saber que te são revelados algumas vezes
certos segredos divinos não só para teu benefício como também para
proveito dos outros. Deves temer, portanto, que, se ocultas as
graças que recebeste para utilidade de teus semelhantes, sejas julgado
digno de repreensão como defraudador dos talentos recebidos". Ao
ouvir essas palavras, ficou o santo comovido, pois costumava dizer:
"Meu segredo é para mim!" Então julgou não sem temor que deveria
referir detalhadamente a visão que tivera, acrescentando que aquele
que lhe aparecera várias vezes lhe revelou algumas coisas que jamais
daria a conhecer a mortal algum enquanto vivesse. Devemos, pois,
supor que essas palavras do serafim em cruz são tão profundas e
misteriosas que fazem parte daquelas de que o Apóstolo afirma:
"Não é permitido aos homens repeti-las".
5. Dessa forma o verdadeiro amor de Cristo transformara o amante na
própria imagem do amado. Completaram-se então os quarenta dias que
ele se propusera passar na solidão e chegou a solenidade do arcanjo
São Miguel. Por isso Francisco desceu do monte trazendo em si a
imagem do Crucificado, não porém esculpida em tábuas de pedra ou de
madeira por mão de algum artífice, mas marcada em sua carne pelo dedo
de Deus vivo. Sabendo que "é coisa boa esconder o segredo do rei"
(Tb 12,7), ele, sabedor do real segredo, ocultava o mais
possível aqueles sinais sagrados. Cabe, porém, a Deus revelar
para a própria glória os prodígios que ele realiza e por isso o
próprio Deus que imprimira aqueles sinais ocultamente, os tornou
conhecidos através dos milagres, a fim de que a força oculta e
maravilhosa daqueles estigmas se revelasse claramente pelos sinais.
6. Na província de Rieti, grassava uma epidemia gravíssima que
exterminava os bois e ovelhas, sem possibilidade de remédio. Mas um
homem temente a Deus certa noite teve uma visão, em que lhe exortavam
a que se dirigisse às pressas ao eremitério dos irmãos, onde então
morava o servo de Deus, pegasse a água com que Francisco se havia
lavado e aspergisse com ela todos os animais. De manhã cedo foi
aquele homem ao eremitério e às escondidas obteve dos irmãos a
água, aspergiu com ela os animais doentes. Que maravilha!. Apenas
a água chegava a tocá-los, estes, que pelo rigor da doença se
achavam prostrados quase sem vida em terra, recobravam o antigo vigor,
levantavam-se no mesmo instante e como se nenhum mal os afetasse,
corriam rápidos a matar a fome nos campos. A força extraordinária
daquela água que tocara as chagas de Francisco fez com que cessasse a
praga e desaparecesse do gado a epidemia.
7. Nas terras em volta do monte Alverne, antes que o santo viesse
morar aí temporariamente, as colheitas todos os anos eram destruídas
por violentas tempestades de granizo, provocadas por uma nuvem que se
elevava sobre o monte. Mas depois daquela grandiosa e santa
aparição, para espanto dos moradores, não mais ocorreu chuva de
granizo. Evidentemente o próprio aspecto do céu sereno refletia
também a grandeza daquela visão e a virtude taumatúrgica dos
estigmas, que Francisco aí recebera.
Sucedeu que, indo Francisco montado num jumentinho de propriedade de
um homem pobre, por causa de sua fraqueza física e da aspereza do
caminho, em tempo de inverno, teve que pernoitar sob um rochedo mais
saliente para fugir de algum modo à inclemência da noite e da neve que
caía, e em razão das quais não lhe fora possível chegar ao
convento. O santo ouvia aquele homem queixar-se em voz baixa,
movendo-se continuamente de um lado para outro tolhido de frio,
desagasalhado e sem poder descansar um só momento, e, cheio de santa
caridade, estendeu a mão ao pobre homem e tocou-o. Prodígio
inaudito! Ao contato daquela mão, inflamada no fogo do amor divino,
desapareceu completamente o frio daquele homem, que sentiu dentro e
fora de si um calor tão intenso, como se viesse sobre ele a chama de
um fogo ardente. Confortado, pois, no corpo e na alma, dormiu tão
tranqüilamente até de manhã entre aqueles penhascos cobertos de
neve, como jamais conseguiria num leito macio conforme ele mesmo
afirmou mais tarde.
São esses indícios certos que provam que os estigmas tiveram sua
origem no poder daquele que, por intermédio dos serafins, purifica,
ilumina e inflama, pois deram ao santo o poder de curar livrando da
peste, de dar claridade ao céu e aos corpos calor. Outros prodígios
realizados após sua morte e referidos mais adiante vêm reforçar esta
convicção com toda evidência.
8. Os estigmas eram para ele o "tesouro descoberto num campo"
(cf. Mt 13,44) e que ele tinha o sumo cuidado de ocultar. Mas
não conseguiu escondê-los por muito tempo, apesar de trazer as mãos
sempre cobertas e os pés continuamente calçados. De fato muitos
irmãos os viram durante a vida do santo. E embora tais irmãos fossem
dignos de toda fé por sua extraordinária santidade, assim mesmo,
para se descartar qualquer dúvida, juraram sobre os santos
Evangelhos, afirmando ser certo que os tinham visto. Viram-nos
igualmente, por ocasião da íntima familiaridade que tinham com o
santo, alguns cardeais, que deixaram, em prosa, hinos e antífonas
em honra de Francisco, louvores às chagas do santo, dando fiel
testemunho delas por escrito e pela palavra. O Sumo, Pontífice
Alexandre IV, enfim, num sermão feito na presença de inúmeros
irmãos e de mim mesmo, afirmou ter visto com seus próprios olhos os
sagrados estigmas no tempo em que o santo ainda vivia. Após sua
morte, mais de cinqüenta irmãos puderam contemplá-los, como
Clara, a virgem devotíssima, suas Irmãs e inúmeros fiéis,
dentre os quais muitos os beijaram devotamente, como veremos mais
adiante, e os tocaram com suas mãos a fim de se convencer da verdade
33.
A chaga do lado, porém, ocultava-a ele com tanto cuidado, que
aqueles que a viram só o conseguiram furtivamente. Um dos irmãos que
o servia habitualmente e com muita delicadeza, usando um piedoso
estratagema, conseguiu que ele tirasse a túnica sob pretexto de a
sacudir, o que lhe permitiu observar a chaga com atenção e
rapidamente aplicar três dedos tomando assim a medida daquela ferida
pela vista e pelo tato. Graças a um artifício semelhante, o irmão
que era então seu vigário também conseguiu observá-la. Um irmão
de uma simplicidade admirável lhe esfregava certo dia as espáduas
doentes; sua mão por descuido atingiu-o no local da chaga,
causando-lhe uma dor bastante forte. Por isso desde então usava,
para proteger o ferimento, roupas íntimas que lhe chegavam até as
axilas. Os irmãos encarregados de lavá-las e sacudir sua túnica
periodicamente viam-nas manchadas de sangue. Por tais indícios lhes
foi revelada a sagrada chaga que a seguir puderam contemplar às claras
e venerar com todos os outros depois da morte de Francisco.
9. Empunha, portanto, valente soldado de Cristo, as armas desse
chefe invencível, com as quais, fortalecido e assinalado, poderás
vencer a todos os inimigos! Levanta o estandarte do Rei altíssimo,
a cuja vista recuperem força e valor todos os esquadrões do exército
celeste. Exibe diante do mundo o selo do Sumo Pontífice, Cristo,
e assim tenham todos com razão por autênticas e irrefutáveis tuas
ações e palavras. Pois, sem dúvida alguma, por causa das chagas
de Cristo Jesus que levas em teu corpo, ninguém te seja molesto,
mas todos os servos de Cristo estão obrigados a ter para contigo
particular devoção. Por esses sinais indubitáveis, que não só
receberam a comprovação necessária dos dois ou três testemunhos,
mas que foram reconhecidos superabundantemente por um grande número de
pessoas, se demonstra que os testemunhos de Deus tornaram-se tão
dignos de crédito em ti e por ti, que aos incrédulos não há lugar
para desculpas que justifiquem sua conduta, mas, ao contrário, se
firma a fé dos crentes, aumentam os sólidos motivos de esperança e
se acende mais e mais o fervor da caridade.
10. Tua primeira visão se realizou, anunciando que serias um dos
chefes do exército de Cristo, munido pelo céu com as armas da cruz.
A visão que tiveste de Jesus crucificado se realizou e foi ai que
traspassou tua alma; e também se realizou aquela visão em que ouviste
a voz que vinha da cruz como do trono e do altar onde Cristo residia,
como nós cremos sem hesitar. Realizou-se a visão de Frei
Silvestre: a cruz maravilhosa que saía de tua boca. Como também a
de Frei Pacífico: as duas espadas cruzadas que traspassavam teu
corpo; e a do angélico Frei Monaldo, que te viu elevado no ar,
braços em cruz, durante o sermão de Santo Antônio sobre o título
que encima a cruz: visões essas que não eram imaginações mas
revelações do céu e às quais damos nossa fé mais irrestrita.
Realizou-se enfim essa visão simultånea de um sublime serafim e de
um humilde crucificado que, abrasando tua alma de amor e marcando teu
corpo com estigmas, transformou-te no segundo anjo oue sobe do
Oriente e leva o sinal do Deus vivo (Ap 7,2); ela confirma as
anteriores e delas recebe um testemunho acrescido. Sete vezes,
portanto, a cruz de Cristo aparece a teus olhos ou é revelada em tua
pessoa aos olhos de teus companheiros. As seis primeiras eram como
degraus para chegares à sétima na qual enfim repousaste. Essa cruz
de Cristo, efetivamente, te foi proposta no início de tua conversão
e a aceitaste. Levaste-a continuamente em seguida durante tua vida de
perfeição e deste dela um exemplo aos outros. E agora ela nos mostra
com tal evidência tua chegada ao cume da perfeição do Evangelho,
que nenhum homem verdadeiramente religioso poderá rejeitar, nenhum
homem realmente fiel poderá atacar, nenhum homem efetivamente humilde
poderá desprezar essa prova da sabedoria cristã escrita em tua carne.
Ela é digna de nosso respeito e de nossa fé, pois é obra do
próprio Deus.
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