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1. Crucificado agora com Cristo em sua carne e em seu espírito,
ardia Francisco como ele de um amor serafico por Deus e como ele tinha
sede da salvação dos homens. Por isso fazia transportar seu corpo
quase desfalecido, que já não podia caminhar por causa dos cravos que
repontavam dos pés, pelas cidades e aldeias, convidando todos os
homens a carregar a cruz de Cristo. E dizia a seus irmãos: "Meus
irmãos, comecemos a servir ao Senhor, porque até agora pouco temos
feito!" Sentia, além disso, um intenso desejo de voltar aos
inícios de sua vida humilde para consagrar-se outra vez ao serviço
dos leprosos e submeter seu corpo à servidão, extenuado já por
tantos sofrimentos e trabalhos. Com a ajuda de Cristo, pretendia
fazer coisas grandes, extraordinárias; e animado pela força de seu
espírito, sem atender à debilidade de seus membros, esperava, em
nova batalha, triunfar gloriosamente do inimigo; pois não há lugar
para o temor e desídia onde o acicate do amor estimula a obras sempre
maiores. Era tão grande em Francisco a submissão do corpo ao
espírito e tão grande a prontidão de sua obediência que, havendo o
espírito proposto elevar-se ao cume da mais alta santidade, o corpo
não só não lhe opôs obstáculo algum, mas também em certo modo se
adiantava a seus desejos.
2. Deus, porém, queria aumentar os méritos do santo. Estes, no
entanto, só encontram sua perfeição consumada na paciência:
Francisco foi atormentado por toda espécie de doenças tão penosas,
que nenhum de seus membros escapou a dores violentas. Ficou em tal
estado, por causa de dores tão repetidas, que, consumidas já suas
carnes, restavam-lhe apenas a pele e os ossos. E embora fossem quase
insuportáveis as dores do corpo, não lhes dava o nome de inimigas,
mas o de irmãs. Certo dia em que se exacerbavam notavelmente seus
padecimentos e compadecendo-se dele um irmão muito simples, lhe
disse: "Pai, pede a Deus que te trate com alguma benignidade
maior, pois parece que lhe agrada fazer-te sofrer com excessivo
rigor". Santamente irritado, ao ouvir essas palavras, Francisco
exclamou com um profundo gemido: "Se eu não conhecesse, meu bom
irmão, tua excessiva simplicidade, eu haveria de me separar de tua
companhia, porque te atreveste a considerar como repreensíveis os
altos juizos de Deus a meu respeito". E embora extenuado pela
enfermidade que se arrastava, atirou-se por terra, batendo com os
ossos no chão, depois, beijando o solo, disse: "Eu vos dou
graças, meu Senhor e meu Deus, por todas essas minhas dores e
peço-vos que as multipliqueis, se for do agrado de vossa divina
vontade; pois será para mim coisa extremamente agradável que,
afligindo-me com dores, não tenhais compaixão de mim, já que
encontro os mais inefáveis consolos em cumprir vossa santíssima
vontade". Os irmãos julgavam ver em Francisco um novo Jó cuja
força de alma aumentava, à medida que cresciam os sofrimentos do
corpo. Muito tempo antes ele conheceu a hora de sua morte. E quando
ela se aproximou, ele anunciou aos irmãos que muito em breve sua alma
deixaria o tabernáculo de seu corpo (cf. 2Pd 1,14), conforme
o mesmo Cristo se dignara revelar-lhe.
3. Passados já dois anos dos estigmas sagrados, isto é, vinte
anos após sua conversão, literalmente trabalhado sob os golpes
redobrados, das angústias e enfermidades, como pedra destinada a
entrar na construção da Jerusalém celeste, batido pelo martelo de
múltiplas tribulações, devia ser elevado ao cume da perfeição.
Pediu que o conduzissem a Santa Maria dos Anjos ou da
Porciúncula, a fim de exalar o último suspiro da vida, ali mesmo,
onde anos antes recebera tão abundantemente os dons do espírito.
Tendo chegado aí, querendo mostrar pelo exemplo que nada tinha em
comum com o mundo nesta enfermidade que deveria ser a derradeira,
levado sempre pelo fervor, prostrou-se nu em terra nua para que nessa
hora última, em que o inimigo desfecharia o assalto supremo, ele
pudesse lutar nu contra um adversário nu. Estava aí, deitado sobre
a terra, despojado de seu cilício, a mão esquerda sobre a chaga do
lado direito para ocultá-la, fixando com os olhos o céu como gostava
de fazer e suspirando com toda a alma à glória eterna... Disse aos
irmãos: "Cumpri minha missão: que Cristo vos ensine a cumprir a
vossa!’?
4. Choravam inconsoláveis os companheiros do santo, feridos pelo
sentimento de uma terna compaixão, e um deles, a quem Francisco
chamava de guardião, conhecendo por inspiração divina os desejos do
moribundo, correu às pressas a buscar a túnica, o cordão e as
outras roupas de baixo, e tudo isso ofereceu ao Pobrezinho de
Cristo, dizendo-lhe ao mesmo tempo: "Entrego-te estas coisas
porque és um verdadeiro pobre; recebe-as tu, obrigado pelo preceito
da santa obediência". Alegrou-se com isso o seráfico Pai e seu
coração se inundou de júbilo ao ver que até ao fim de sua vida havia
guardado a fidelidade prometida à sua senhora, a santa Pobreza; e
elevando as mãos ao céu, louvou a Cristo, conhecendo que, livre de
tudo o que é terreno, corria desimpedido para ele. Tudo isso o
fizera ele impelido pelo amor à pobreza, não querendo possuir nem um
simples hábito para seu uso que não fosse recebido como esmola. Em
tudo quis conformar-se com Cristo crucificado, que esteve pendente da
cruz, pobre, cheio de dores e completamente nu. Francisco começou
sua consagração total ao Senhor por um ato heróico, despojando-se
de suas vestes em presença do bispo de Assis, e ao fim da vida,
completamente nu quis sair deste mundo, ordenando por santa obediência
aos irmãos que o assistiam que, quando o vissem morto, deixassem seu
cadáver inteiramente despido no chão por tanto tempo quanto fosse
necessário a uma pessoa para percorrer o espaço de uma milha 34. Ó
varão verdadeiramente cristão, que quiseste viver em tudo conforme
com a vida de Cristo, morrer como ele morreu e como ele permanecer
como cadáver abandonado depois de morto e que mereceste as honras da
impressão em teu corpo dessa perfeita semelhança!
5. Chegada a hora, ele mandou chamar para perto de si todos os
irmãos então presentes e. com algumas palavras de consolo para
amenizar o pesar dos que ficavam, exortou-os de todo coração de pai
a amar a Deus. Acrescentou algumas palavras sobre a paciência, a
pobreza, a fidelidade à Igreja Romana, recomendando-lhes o santo
Evangelho acima de qualquer Constituição. Enfim, estendeu as
mãos sobre todos os irmãos que o cercavam, com os dois braços em
cruz, como sempre apreciara esse gesto, e abençoou a todos seus
irmãos, ausentes e presentes, em nome do Crucificado e por seu
poder. Acrescentou: "Temei ao Senhor, meus filhos, e permanecer
sempre unidos a ele. Virá a tentação, e a tribulação está
perto, mas felizes aqueles que perseverarem até ao fim. De minha
parte, volto para meu Deus e vos deixo confiados à sua graça".
Mandou trazer o livro dos Evangelhos e pediu que lessem a passagem de
São João que assim começa: "Antes da festa da Páscoa, sabendo
Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo ao Pai, havendo
amado os seus que estavam no mundo, até o extremo os amou..."
(Jo 13,1). E reunindo suas pobres forças, começou a recitar
o salmo que principia: "Lanço um grande brado ao Senhor, em alta
voz imploro ao Senhor", até as últimas palavras: "Os justos
virão me rodear, quando me fizerdes este benefício" (Sl
141,1-8).
6. Cumpridos enfim todos os desígnios de Deus em Francisco, sua
alma santíssima livrou-se da carne para ser absorvida no abismo da
claridade de Deus, e dormiu tranqüilamente no Senhor. Um de seus
irmãos e discípulos viu sua alma subindo para o céu na forma de uma
estrela esplêndida levada por uma branca nuvem por cima de imensa
extensão de água, alma refulgente nos esplendores de sua sublime
santidade e transbordante das riquezas da graça e da sabedoria do
céu, que valeram ao santo penetrar na mansão de luz e de paz, onde
ele goza agora do repouso eterno.
Na Terra di Lavoro, Frei Agostinho, homem de grande santidade,
que então era ministro dos irmãos, encontrando-se próximo à morte
e havendo perdido muito antes o uso da fala, recobrou-a subitamente e
começou de repente a clamar: "Espera-me, Pai, espera-me um
pouco; quero unir-me a ti!" Cheios de admiração,
perguntaram-lhe os irmãos a quem dirigia estas palavras, e ele
respondeu: "Então não vedes nosso Pai Francisco que parte para o
céu?" No mesmo instante, sua alma santa, deixando a carne, partia
ao encalço do Pai santíssimo.
O bispo de Assis encontrava-se então em peregrinação ao santuário
de São Miguel no monte Gargano. Apareceu-lhe o bem-aventurado
Francisco na mesma noite de sua morte e lhe disse: "Deixo o mundo e
parto para o céu". Ao levantar-se o bispo na manhã seguinte,
referiu aos companheiros o que lhe havia acontecido em sonho, e ao
regressar à sua cidade de Assis, feitas as verificações oportunas
prévias, ficou sabendo com certeza que o santo tinha deixado o mundo
no momento em que lhe veio pessoalmente anunciar a notícia. As
cotovias, tão amantes da luz e tão inimigas das trevas noturnas,
aproximaram-se em grande número, pondo-se no lugar em que o santo
acabava de exalar o último suspiro, já quando a noite caía, e em
alegres revoadas, pareciam querer dar um tes-temunho tão espontåneo
quanto evidente da glória daquele que tantas vezes as havia convidado a
cantar os louvores do Criador.
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