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1. Cabendo-me narrar, para honra e glória de Deus onipotente e do
bem-aventurado Pai Francisco, alguns dos milagres aprovados, que
sucederam após sua glorificação no céu, julguei necessário
principiar com aquele que mais do que qualquer outro revela o poder da
cruz de Cristo e renova a sua glória. Homem novo e celestial,
brilhou Francisco com um milagre novo e estupendo, ao ser distinguido
com um privilégio jamais concedido a criatura humana antes dele: a
impressão dos sagrados estigmas que conformava seu corpo mortal ao do
Crucificado. Tudo o que se possa dizer com a língua de um mortal a
respeito desse prodígio estar sempre aquém daquilo que exige o mérito
de seu louvor. Todo o esforço do santo, em público como em
particular, era pensar na cruz do Senhor. E a fim de marcar
exteriormente seu corpo com o sinal da cruz, que desde o principio de
sua entrega total ao Senhor levava impressa no coração, quis
encerrar-se na própria cruz, vestindo-se com o hábito de
penitência feito em forma de cruz, para que, assim como em seu
espírito ele se havia revestido interiormente de Cristo, assim
também seu corpo se fortificasse com as armas da cruz, e para que o
exército de Francisco iniciasse sob aquela gloriosa insígnia com que
o invicto chefe Cristo havia triunfado sobre os poderes infernais.
Com efeito, desde aquele primeiro instante em que o santo decidiu
militar sob o estandarte do Crucificado, começaram a realizar-se
nele os grandes mistérios da cruz, como claramente pode compreender
todo aquele que considere com atenção toda a sua vida em que foi
mudando completamente seus pensamentos, ações e afetos e, por
impulso de seu amor ser fico, se transformou em imagem perfeita do
Crucificado por força das repetidas aparições da cruz. A
misericórdia divina condescendeu, pois, com seu servo Francisco,
tal como faz com os demais que de fato o amam, e imprimiu no corpo do
santo o sinal da cruz, para que aquele que havia sido prevenido com
amor tão intenso ... cruz também se tornasse admirável pela honra
maravilhosa que a própria cruz havia de proporcionar.
2. A fim de afastar qualquer sombra de dúvida e comprovar a
autenticidade desse milagre estupendo e inconteste, aí estão não só
os testemunhos absolutamente dignos de fé daqueles que viram e tocaram
as chagas do santo, mas também as admiráveis aparições e
prodígios, ocorridos depois da sua morte. O Papa Gregório IX,
de feliz memória, a quem o santo profetizara a eleição ...
cátedra de São Pedro, nutria em seu coração, antes de canonizar
ao porta-estandarte da cruz, algumas dúvidas a respeito da chaga do
lado. Uma noite, porém, como ele mesmo referia entre lágrimas,
apareceu-me em sonhos o bem-aventurado Francisco, mostrando na
fisionomia certa amargura e repreendendo-o por causa da dúvida que
alimentava em seu coração, levantou o braço direito, descobriu a
chaga e pediu-lhe que chegasse com uma taça para nela receber o sangue
que dela brotava. O papa aproximou da chaga a taça, a qual parecia
encher-se até ...s bordas de sangue que corria em abundância.
Desde então nutriu tal devoção a esse extraordinário milagre e
sentiu tanto zelo por ele, que de nenhum modo podia consentir que
alguém se atrevesse a impugnar com temer ria ousadia aquelas chagas
benditas sem repreendê-lo com grande severidade.
3. Certo Irmão, menor pela profissão, pregador por ofício e
eminentíssimo pelas famas das suas virtudes, acreditava firmemente na
realidade dos estigmas. Mas procurando em si uma explicação para
esse milagre segundo a lógica humana, sentiu nascer em si uns
vislumbres de dúvida. Sentindo-se abatido por muitos dias com essa
luta e incerteza por ter a sensualidade aumentado, apareceu-lhe em
sonho o bem-aventurado Francisco com os pés enlameados, humilde e
severo, paciente e irado. E disse-lhe: "Que incertezas São
essas que te afligem e que dúvidas São estas que te molestam? Vê
minhas mãos e meus pés". Mas, embora visse as mãos chagadas,
não podia ver as chagas dos pés por causa do lodo que as cobria.
Então lhe disse o ser fico Pai: "Tira o lodo de meus pés e
poderás contemplar a ferida produzida pelos cravos". O Irmão tomou
em suas mãos os pés e parecia-lhe que realmente estava separando
deles a lama e que estava tocando com as próprias'«mãos os cravos.
Logo que despertou daquele sonho, começou a chorar amargamente e
purificou, não só com suas lágrimas copiosas mas também com a
confissão pública de suas dúvidas, os primeiros afetos de sua alma,
de certa forma prejudicados pelo lodo da incredulidade.
4. Havia na cidade de Roma uma senhora, nobre pela pureza de seus
costumes e por suas raízes ancestrais. Ela escolhera São Francisco
como seu advogado e tinha um quadro dele em seu quarto, onde orava a
Deus em segredo. Certo dia ao orar, olhou ela com atenção a imagem
do santo e não viu nenhum sinal dos estigmas. Ficou surpreendida e
contrariada. Na verdade não havia motivo nenhum para ficar surpresa,
pois o artista havia omitido as chagas. Por alguns dias esteve ela
ponderando qual teria sido a razão daquela omissão. Um dia,
porém, os estigmas apareceram de repente no quadro, tal como aparecem
em outras pinturas do santo. Ficou atemorizada e imediatamente chamou
a filha, que também era muito religiosa, e perguntou-lhe se os
estigmas realmente estavam no quadro anteriormente. Ela respondeu que
não e jurou que os estigmas tinham sido omitidos e que agora aí
estavam. No entanto, muitas vezes acontece que o coração humano
arma uma cilada para si mesmo, pondo em dúvida a verdade. E foi o
que aconteceu a ela: começou com incertezas e vacilações, duvidando
se a imagem já não estaria com as chagas desde o início. Mas o
poder de Deus acrescentou mais um milagre, para que não ficasse
desprezado o primeiro. De repente desapareceram aquelas chagas,
ficando o quadro desprovido de tão singular privilégio, para que pelo
prodígio seguinte ficasse o anterior perfeitamente confirmado.
5. Aconteceu também na cidade de Lérida, na Catalunha, que
certo homem chamado João, muito devoto de São Francisco, andava
por um caminho ao anoitecer, quando lhe saíram ao encontro uns homens
com intenção de matá-lo, não precisamente a ele, que não tinha
inimigos, mas a um outro que lhe era muito parecido e costumava andar
em sua companhia. Aproximando-se um dos homens que estavam ocultos,
pensando ser seu inimigo, causou-lhe tão graves ferimentos, que o
deixou sem esperança alguma de recuperar a saúde, pois ao primeiro
golpe que lhe deu, quase lhe cortou o braço ... altura do ombro, e
o outro golpe lhe causou tão profunda ferida no peito, que o ar que
por ali escapava bastou para apagar a luz de seis velas que ardiam
juntas.
Os médicos estavam convencidos de que ele não poderia salvar-se
porque, tendo gangrenado, a ferida exalava um mau cheiro tão
intolerável, que a própria esposa mal agüentava. Nem havia
remédio humano que pudesse aliviar-lhe a dor. Então recorreu a
São Francisco pedindo sua intercessão tão fervorosamente quanto
pôde. E mesmo quando atacado, recomendara-se a ele e ...
Santíssima Virgem. Enquanto estava deitado sozinho em seu leito de
dor, perfeitamente consciente e repetindo o nome de Francisco
continuamente, entrou pela janela um homem vestido do hábito
franciscano e se pôs a seu lado. Assim lhe pareceu. A visão lhe
falou, chamando-o pelo nome: "Tiveste confiança em mim e por isso
Deus te há de curar". quando o homem lhe perguntou quem era ele,
disse que era Francisco e logo se inclinou para ele e desatou-lhe as
feridas. Em seguida, parecia untá-las com ungüento. Logo que
sentiu o suave contato daquelas mãos, que por virtude das chagas do
Senhor tinham força para restituir a saúde, desapareceu a gangrena,
sua carne ficou sã e cicatrizaram-se as feridas, voltando ao estado
de perfeita saúde de que anteriormente gozava. Depois disso
desapareceu São Francisco. Ao perceber que tinha sido curado,
João chamou a esposa e prorrompeu alegre em louvores a Deus e a seu
santo servo Francisco. Ela veio correndo e ao ver de pé seu marido,
que supunha ter que enterrar no dia seguinte, ficou amedrontada, e com
seus clamores chamou a atenção de toda a vizinhança. Quando as
pessoas da família chegaram, tentaram reconduzir João para a cama,
pensando que estivesse louco, mas ele não quis ouvir a ninguém;
procurando explicar-lhes que estava curado. Tão grande foi o pavor
que os dominou, que ficaram como fora de si, parecendo-lhes estar
vendo um fantasma, pois aquele a quem há pouco haviam contemplado
cheio de chagas e mais ou menos já corrompido, apresentava-se a eles
agora alegre e completamente restabelecido. "Não temais",
disse-lhes. "Não penseis que estais vendo fantasma. São
Francisco acaba de sair daqui e foi ele quem curou todas as minhas
chagas com o contato de suas santas mãos". Divulgada a fama desse
milagre, reuniu-se todo o povoado e, reconhecendo nesse estupendo
prodígio a virtude das santas chagas de Francisco, ficaram todos
cheios de admiração e alegria e com grandes manifestações aclamavam
e bendiziam o porta-estandarte de Cristo.
Francisco levou os estigmas de Cristo, que por nós morreu em sua
grande misericórdia e ressuscitou milagrosamente dos mortos e pelo
poder de suas chagas curou o gênero humano que tinha sido ferido e
estava semimorto. Era justo, portanto, que aquele que morrera para
este mundo e vivia com Cristo curasse um homem ferido aparecendo-lhe
milagrosamente e tocando-o com suas mãos.
6. Em Potenza, na Apúlia, havia um clérigo de nome Rogério,
homem respeitável e cônego da igreja maior. Encontrando-se aflito
por causa de uma enfermidade, e tendo certo dia entrado na igreja na
qual existia um quadro do ser fico Pai, representado com as sagradas
chagas, começou a duvidar daquele estupendo milagre, como de coisa
praticamente impossível por seu caráter extraordinário, quando, de
repente, ao discorrer em seu espírito sobre essas dúvidas, sentiu
como se alguém o ferisse gravemente na palma da mão esquerda que tinha
coberta com uma luva, ouvindo ao mesmo tempo o ruído do golpe,
semelhante ao que produz a seta ao sair da balista. Estava atônito ao
ouvir o som e sentiu a mão doer. Tirou a luva para ver com seus
próprios olhos o que ele havia percebido pelo ouvido e pelo tato.
Não havia nem sequer sinal de ferimento em sua mão anteriormente,
mas no meio da palma da mão viu uma ferida como se tivesse sido feita
por uma seta. A dor era tão intensa, que ele pensou que ia
desfalecer. E o estranho é que não se via sinal algum de ferida na
luva. A dor de uma ferida que lhe tinha sido infligida sem deixar
sinal era o castigo pela ferida oculta da dúvida que ele nutria em seu
coração. Aguilhoado pela terrível dor, passou dois dias gritando e
dizendo ...s pessoas o quanto tinha sido descrente. Firmou sua fé
nos sagrados estigmas de Francisco e jurou não haver mais nem sombra
de dúvida na alma. E humildemente rogou ao santo que o ajudasse por
suas santas chagas, acompanhando sua oração com abundantes lá
grimas. E tendo ele renunciado ... incredulidade, seguiu-se
... saúde interior do espírito a cura definitiva da mão.
Desapareceu a dor, não mais lhe ardeu a palma da mão e já não
havia mais sinal sequer do ferimento. Por providência divina o mal
oculto em sua alma estava curado, havendo-se-lhe cauterizado
visivelmente a carne, e uma vez curada a alma, também curado estava o
corpo. Dessa forma aquele cônego tornou-se mais humilde,
consagrou-se mais intensamente ao Senhor e cresceu nele o amor a
Francisco juntamente com a intima familiaridade e benevolência para
com os Irmãos. Esse milagre tão estupendo foi testemunhado por
muitas pessoas sob juramento e o bispo dele fala em carta selada com seu
sinete episcopal. Não tem lugar, portanto, a menor dúvida acerca
das sagradas chagas; ninguém as considere tampouco com prevenção
culposa, pois Deus é infinitamente bom, nem se julgue que a
realização de semelhante prodígio não esteja em conformidade com sua
bondade. Muitos membros do corpo de Cristo unem-se ... sua
cabeça com o mesmo amor ser fico que Francisco e por isso São dignos
de usar a mesma armadura na batalha e serão elevados ... mesma
glória no céu. Nenhum desses membros deixaria de reconhecer que tais
milagres se deram para honra e glória de Cristo.
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